Para driblar escassez, venezuelanos contrabandeiam comida da Colômbia

Do UOL, em São Paulo

  • Carlos Garcia Rawlins/Reuters

    Compradores esperam por sua vez de atravessar de barco até Boca del Grita, perto de Puerto Santander (Colômbia), na fronteira com a Venezuela

    Compradores esperam por sua vez de atravessar de barco até Boca del Grita, perto de Puerto Santander (Colômbia), na fronteira com a Venezuela

A escassez de produtos básicos de subsistência, como farinha, açúcar e de higiene pessoal, tem levado uma parte dos venezuelanos a investir no contrabando de itens comprados na Colômbia.

Apesar do fechamento da fronteira entre os dois países, decretada pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em agosto do ano passado, inclusive para barrar a saída de produtos rumo à Colômbia, venezuelanos têm conseguido burlar o esquema de segurança e fazem compras no país vizinho para revendê-las em casa.

De acordo com uma reportagem da agência Reuters publicada nesta quarta-feira (8), houve uma reviravolta nas rotas de contrabando, nos últimos meses, que ficou ainda mais clara na semana passada, quando centenas de pessoas foram vistas adentrando a Colômbia para comprar comida, remédios e produtos de higiene.

Dezenas fizeram fila em uma ponte sobre um rio em Puerto Santander (Colômbia) para implorar aos guardas de fronteira que as deixassem passar; outras entraram no país usando barcos de madeira, debaixo dos olhares da Guarda Nacional e do Exército, ou mesmo nadaram de uma margem à outra.

Algumas pessoas relataram à agência de notícias que chegaram a subornar oficiais para conseguir atravessar a fronteira por estradas de terra.

Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Garoto entrega pacote de papel higiênico feito na Colômbia, em banca na Venezuela

Há poucos dias, a cidade de Caracas, capital da Venezuela, teve um protesto por comida bem perto do Palácio Presidencial, e houve confusão entre manifestantes e a polícia.

Pode-se fazer compras nos supermercados somente em dias determinados pelo governo, seguindo a numeração do documento de identidade. As filas são enormes, e esperar por horas nem sempre é garantia de que haverá nas prateleiras o que levar.

"Não sobrou nada na Venezuela, o que ficou foi a fome. A Colômbia é o que está nos salvando", disse um contrabandista de 30 anos que faz compras usando sua moto em Puerto Santander (a cerca de 1.000 km da capital).

O homem pediu sigilo à reportagem sobre sua identidade para evitar ser preso e contou que separa alguma comida para sua mulher e os três filhos, mas revende a maioria dos produtos em mercados de Caracas ou em Táchira, na fronteira, já do lado venezuelano.

Por conta da crise econômica que aflige a Venezuela, boa parte da população, especialmente a mais pobre, tem sido obrigada a deixar de fazer algumas refeições e a buscar comida no lixo.

Em Puerto Santander, o fechamento oficial das fronteiras, no ano passado, provocou uma queda nos negócios do comércio, que deixou de receber contrabando venezuelano: produtos do país vizinho têm preço mais barato.

Agora, as lojas estão novamente movimentadas, mas o fluxo de mercadorias é o oposto. O comerciante José Armando, 42, só atende venezuelanos em sua loja.

"Graças ao fato de que não há nada na Venezuela, esta cidade voltou à vida", ele diz.

Na Venezuela, já é comum a venda paralela e informal de produtos geralmente não encontrados nos mercados por revendedores conhecidos como "bachaqueros". O quilo do arroz, por exemplo, custa 120 bolívares na tabela do governo, mas é revendido pelos "bachaqueros" por 2.000 bolívares (20% do salário mínimo).

Na Colômbia, o preço do arroz equivale a 1.300 bolívares, o que permite a revenda a 1.800 bolívares na Venezuela.

Os governos dos dois países não responderam aos questionamentos da reportagem.

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