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Em último discurso, Obama defende democracia e diz que racismo ainda é força que divide a sociedade

Barack Obama, Michelle Obama e Malia no discurso de despedida do presidente democrata - Nicholas Kamm/AFP - Nicholas Kamm/AFP
Barack Obama, Michelle Obama e Malia no discurso de despedida do presidente democrata
Imagem: Nicholas Kamm/AFP

Do UOL, em São Paulo

11/01/2017 01h14Atualizada em 11/01/2017 09h20

Em seu discurso de despedida como presidente dos EUA, o democrata Barack Obama destacou o legado de seus oito anos de governo fazendo uma defesa da democracia americana e garantindo a passagem pacífica de poder para o presidente eleito Donald Trump. Obama, primeiro presidente negro dos EUA, afirmou que apesar da melhora nas relações raciais no país, o racismo ainda é força potente e há "muito a ser feito" para eliminar os preconceitos contra minorias e imigrantes.

"Depois da minha eleição, houve uma discussão sobre uma América pós-racial. Esta visão, apesar de bem-intencionada, nunca foi realista. A raça continua a ser uma força potente e que muitas vezes divide a nossa sociedade. Vivi o suficiente para saber que as relações raciais são melhores do que eram há 10, 20 ou 30 anos atrás. Você pode ver isto não só em estatísticas, mas também nas atitudes dos jovens americanos em todo o espectro político", afirmou. 

"Mas não estamos onde precisamos estar", seguiu Obama. "Todos nós temos mais trabalho a fazer. Afinal de contas, se cada questão econômica for enquadrada como uma luta entre a classe média branca e trabalhadora e as minorias não merecedoras, trabalhadores de todos os tons ficarão lutando por restos enquanto os ricos retiram mais para seus enclaves privados".

O presidente pediu aos cidadãos que mantenham a fé na democracia participando e mantendo o diálogo aberto com os que discordam de suas opiniões e concorrem ao governo. "Mostrem-se. Mergulhem. Às vezes você vai ganhar, às vezes vai perder ", disse.

Obama começou o seu discurso final agradecendo ao povo americano. "Vocês me fizeram um presidente melhor", ele disse. "Vocês me fizeram um homem melhor". O presidente fez um apelo à união "além das divergências".

Obama diz que "não irá parar" e termina despedida com frase que marcou campanha

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Muito aplaudido durante diversas vezes, Obama, assegurou que "em dez dias, o mundo será testemunha de uma transição pacífica de um presidente eleito a outro". Neste momento, a multidão que acompanhava o discurso iniciou uma vaia, em uma crítica ao republicano que ocupará a presidência.

Obama pediu que parassem com o protesto, e destacou a importância da transição de poder. "Me comprometi com o presidente eleito Trump de que a minha equipe garantiria a transição mais suave possível, assim como o presidente Bush fez comigo. Por que cabe a todos nós garantir que o nosso governo possa enfrentar os muitos desafios que virão", afirmou.

"A América é um lugar melhor e mais forte do que quando começamos", disse Obama ao listar as realizações de sua administração, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o acordo com o Irã, a retomada das relações com Cuba e a morte de Osama bin Laden.

Obama aproveitou a lista de conquistas do seu legado para defender mais uma vez o seu programa de sistema de saúde, conhecido como Obamacare, que Trump já afirmou que pretende acabar. "Se alguém puder apresentar um plano que seja comprovadamente melhor do que as melhorias que fizemos ao nosso sistema de saúde --que cubra tantas pessoas a um custo menor-- vou apoiá-lo publicamente", prometeu.

"Política é uma batalha de ideias. É assim que a democracia é feita"

Obama também celebrou que nenhuma organização terrorista estrangeira realizou com êxito um atentado no país durante seus oito anos na Casa Branca, e afirmou que o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) "será destruído". "Apesar de Boston, Orlando e San Bernardino nos lembrarem o quão perigosa pode ser a radicalização, nossos agentes estão mais atentos e são mais efetivos do que nunca".

O presidente pediu ainda que o país siga "vigilante, mas não assustado" na esfera mundial, ao defender que as duas outras potências que lutam pela hegemonia global, Rússia e China, não chegarão aos seus objetivos, a não ser que os EUA mudem drasticamente. "Rivais como a Rússia e China não podem superar nossa influência no mundo todo, a não ser que renunciemos ao que defendemos, e nos transformemos em outro país grande que abusa de seus vizinhos menores".

Obama ainda foi muito aplaudido ao rejeitar a discriminação a muçulmanos americanos.

Em outro trecho do longo discurso, ele afirmou que negar o aquecimento global "trai as futuras gerações". "Podemos e devemos discutir sobre a melhor forma de abordar este problema, mas não podemos simplesmente negar o problema. Isto não apenas trairia as futuras gerações, mas também trairia o espírito essencial do nosso país".

Homenagem emocionada

Ao falar sobre a primeira-dama Michelle Obama, o presidente esteve visivelmente emocionado. O presidente ainda elogiou as filhas, o vice-presidente Joe Biden e a equipe da Casa Branca.

Obama encerrou o discurso com a frase que marcou a sua campanha em 2008: "Yes we can" ("sim, nós podemos"). "Foi a honra da minha vida servi-los. Não vou parar; na verdade, eu estarei aqui com vocês, como um cidadão, durante todos os dias que me restam", disse.

"Peço que vocês se apeguem firmemente a essa fé escrita em nossos documentos fundadores. Na ideia sussurrada por escravos e abolicionistas. No espírito cantado pelos imigrantes e colonos e os que marcharam por justiça. Na crença reafirmada por quem plantou bandeiras em campos de batalha estrangeiros e até na superfície da Lua. Uma crença no centro de todo americano cuja história ainda não está escrita: Sim, nós podemos. Sim, nós fizemos. Sim, nós podemos."

Obama discursou em Chicago, onde ele iniciou sua carreira política e constituiu família. As entradas, gratuitas, para este último discurso foram disputadas na madrugada de sábado no centro de conferências por centenas de pessoas, que fizeram fila apesar do frio glacial.

O futuro de Obama e o legado de seu governo foram abalados pelas eleições presidenciais de 8 de novembro, quando Trump foi eleito. O republicano ameaçou desfazer algumas ações de Obama em questões como reforma do sistema de saúde e a mudança climática. Obama tem instado Trump a rever seu objetivo de acabar com o sistema de saúde, conhecido como Obamacare, enquanto mobilizou os democratas a defenderem o programa na administração Trump e diante de um Congresso comandado pelos republicanos.

Obama planeja continuar morando em Washington pelos próximos dois anos, enquanto sua filha caçula, Sasha, termina o ensino colegial. Ele indicou que pretende dar a Trump o mesmo espaço que seu antecessor, o republicano George W. Bush, lhe deu após deixar o governo.

Isso pode se tornar difícil se Trump mantiver seus planos de revogar a maioria das marcas do governo Obama. Os democratas, que estão sem um líder nacional após a saída de Obama do governo e da derrota de Hillary Clinton na eleição, estão ansiosos em manter o presidente envolvido na política e no partido.