O que os EUA já revelaram sobre a prática de tortura que Trump diz funcionar

Do UOL, em São Paulo

Quando Khalid Sheikh Mohammed, um dos idealizadores dos atentados de 11 de setembro de 2001, foi preso, o então presidente George W. Bush teve que aprovar a técnica de interrogatório conhecida como "waterboarding", ou simulação de afogamento". "Damn right", algo como "com certeza", respondeu ele. Começava aí um dos mais polêmicos episódios da história recente dos EUA.

Ontem (25), o método considerado tortura voltou à tona na entrevista do presidente dos EUA Donald Trump à rede de televisão ABC News. Para Trump, técnicas de interrogatório usadas no passado na luta contra o terrorismo e consideradas tortura funcionam. "Acredito absolutamente que funcionam", disse.

Trump falou que seus chefes de inteligência consideram que técnicas como "waterboarding" podem dar resultados na luta contra o terrorismo.

Tim Sloan/ AFP
11.jan.2008 - Manifestantes encenam "waterboarding", tortura por simulação de afogamento, em Washington (EUA)

"Falei com pessoas da cúpula de inteligência e perguntei se a tortura funciona. A resposta foi sim. Quero manter o país seguro. Quando estão cortando cabeças dos nossos e de outros por serem cristãos no Oriente Médio, e o EI faz coisas próprias da Idade Média, eu vou me preocupar com o afogamento simulado? Combateremos fogo com fogo", disse.

Maior realização de Bush

Em sua autobiografia "Decision Points", Bush defende o uso da simulação de afogamento. Na visão dele, a prática foi essencial para evitar um novo atentado no estilo do "11 de Setembro". Bush afirma que evitar um novo 11 de Setembro foi sua "realização mais significativa".

No livro, Bush afirma que só três presos foram submetidos a essa prática de tortura e que isso permitiu a obtenção de informações que inviabilizaram novos atentados.

Segundo um memorando do departamento de Justiça de 2005, a CIA, a agência federal de inteligência dos Estados Unidos, usou o método de simulação de afogamento 183 vezes em Khalid Sheikh Mohammed.

O saudita Abou Zoubaydah, por sua vez, foi submetido 83 vezes à prática sob custódia do governo americano. Ele é um dos que foram detidos sem acusação e sem probabilidade de julgamento. Zoubaydah foi o primeiro detido a sofrer "waterboarding" e sua tortura foi documentada em um relatório do Senado.

Há muito tempo o governo admitiu que Zoubaydah nunca foi o principal líder da Al Qaeda como foi declarado na época de sua captura, em 2002, mas insiste que ele ainda pode ser perigoso.

2014: Ex-advogado da CIA justifica técnicas de interrogação polêmicas

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Sequelas

Dezenas de prisioneiros desenvolveram problemas psicológicos persistentes após serem submetidos a tortura e outras táticas brutais de interrogatório nas prisões secretas da CIA ou no centro de detenção militar em Guantánamo, Cuba, como noticiou o "New York Times".

Ao autorizarem o afogamento, privação de sono e outras técnicas há mais de uma década, os advogados do governo argumentaram que não haveria danos duradouros aos presos, um fator fundamental na conclusão de que as táticas não se qualificavam como tortura.

Barack Obama, antecessor de Trump, assinou em 2009 decreto vetando simular afogamento e outros métodos conhecidos como Técnicas Aprimoradas de Interrogatório, que foram denunciadas por parlamentares e grupos de direitos humanos como tortura.

U.S. Army
O saudita Abou Zoubaydah foi submetido 83 vezes à prática de simulação de afogamento

Em 2014, o Comitê de Inteligência do Senado concluiu que as técnicas brutais de interrogatório que a CIA utilizou contra suspeitos de terrorismo não funcionaram.

Na época, o presidente Barack Obama evitou tomar partido sobre a eficácia de tortura praticada pela CIA. Apesar de Obama ter repetido sua crença de que as técnicas representam tortura e traem os valores americanos, ele se recusou a comentar a questão fundamental levantada pelo relatório: elas produziram inteligência significativa para impedir ataques terroristas, ou a CIA enganou a Casa Branca e o público a respeito de sua eficácia?

O Departamento de Justiça, sob o secretário Eric Holder, reexaminou os casos de abusos contra prisioneiros que foram encerrados sob o presidente George W. Bush, mas sem processar ninguém.

Oposição

Durante sua audiência de confirmação no cargo de diretor da CIA perante uma comissão do Senado, Mike Pompeo disse "não concordar em absoluto" com a retomada das chamadas "técnicas aprimoradas de interrogatório" empregadas pela CIA depois dos atentados do 11 de Setembro. "Não imagino que o presidente eleito fosse me pedir isso", acrescentou.

Na entrevista de ontem, o presidente Trump disse que escutará seu gabinete, especialmente o secretário da Defesa, James Mattis, e o diretor da CIA, Mike Pompeo, para determinar se serão retomadas as práticas para interrogar suspeitos de terrorismo consideradas torturas pelo Congresso e pelo governo anterior. "Vou confiar em Pompeo, Mattis e meu grupo. Se eles não quiserem fazer, tudo bem. Se quiserem, trabalharei com esse objetivo dentro dos limites do que se pode fazer legalmente", afirmou Trump.

O governo de Obama acreditava que o uso de tortura havia se mostrado contraproducente nos esforços antiterroristas dos EUA, especialmente em relação aos aliados árabes de Washington.

Muitos republicanos também são contrários à reintrodução de técnicas como o waterboarding. "O presidente pode assinar a ordem executiva que quiser, mas lei é lei. Não vamos trazer a tortura de volta aos Estados Unidos", disse o senador republicano John McCain, presidente da Comissão das Forças Armadas e que foi torturado como prisioneiro de guerra no Vietnã.

Em uma entrevista de 2003 realizada em um presídio curdo, um antigo torturador do governo Saddam Hussein disse: "você sempre consegue com que as pessoas falem... O problema é o que elas dizem".

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