Opostos, Trump e papa Francisco buscam conciliação em 1º encontro

Filipe Domingues

Colaboração para o UOL, em Roma

  • Carlo Allegri e Stefano Rellandini/ Reuters

    O presidente dos EUA Donald Trump (esq.) e o papa Francisco

    O presidente dos EUA Donald Trump (esq.) e o papa Francisco

Apesar de claras divergências de opinião, o tom do primeiro encontro entre o papa Francisco e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve ser conciliador. Eles discordam em problemas cruciais da atualidade, como as migrações e o aquecimento global, mas observadores das relações Estados Unidos-Vaticano avaliam que é do interesse de ambos manter boas relações. O Vaticano busca manter sua capacidade de influenciar o debate global e o presidente Trump pretende, em sua primeira viagem internacional no cargo, amenizar o impacto negativo de uma grave crise política doméstica.

A audiência é prevista para a manhã da quarta-feira (24) no Vaticano, e há grande expectativa, especialmente após meses de críticas públicas entre Francisco e Trump.

Na época da viagem do papa ao México, em fevereiro de 2016, na qual celebrou missa na fronteira com os Estados Unidos, Trump declarou: "o papa é uma pessoa muito política. Ele não entende o perigo da fronteira aberta com o México". Em sua campanha, o atual presidente prometeu construir um muro de 2,5 mil km para impedir a entrada de migrantes. Na viagem de volta a Roma, Francisco comentou: "quem pensa só em fazer muros, e não pontes, não é cristão". Irritado, o então candidato Trump retrucou: "é vergonhoso que um líder religioso questione a fé de alguém". Francisco ainda denuncia a "política do medo" no contexto global e deplora a construção de muros "físicos e sociais".

Conflitos e interesses

Embora haja uma aparente antipatia entre os dois, o encontro pessoal entre Trump e o papa pode sinalizar certa abertura a identificar áreas de interesse comum. Segundo o padre italiano Rocco D'Ambrosio, professor de Filosofia Política na Pontifícia Universidade Gregoriana e autor do livro "Francisco vai conseguir? O desafio da reforma da Igreja", "a primeira coisa positiva é que Trump vem a Roma".

Ele recorda que a visita não era prevista e só foi confirmada no início de maio. Trump passa pelo Vaticano após ir à Arábia Saudita e a Israel, a caminho de reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Bruxelas.

Porém, uma das primeiras dificuldades, avalia D'Ambrosio, é a diferença na forma como os dois enxergam a atividade política. "Trump tem uma abordagem muito ideológica, na qual o mundo é dividido entre duas categorias: quem está comigo e quem não está comigo", diz. "Já a abordagem do papa Francisco é dialógica. Não por acaso ele disse que não julga uma pessoa antes de encontrá-la. Quem é ideológico não dialoga com ninguém."

O padre jesuíta James Martin, autor de best-sellers espirituais nos Estados Unidos e recém-nomeado consultor para comunicação do Vaticano, ressalta as diferenças entre os dois líderes, mas espera que o presidente esteja disposto a ouvir.

"Alguns dos ensinamentos mais significativos do papa, sobre o meio ambiente, a economia, refugiados e migrantes, são áreas em que há profunda discordância", lembra. "Não podemos ver o estado da alma de Trump, mas podemos ver o que ele fez. A maioria de suas políticas não favorece as pessoas marginalizadas. E o papa está preocupado com os mais vulneráveis", afirma. "Donald Trump é o típico capitalista que pensa que o sucesso de uma pessoa é medido pelo quão rica ela é."

Por outro lado, o vaticanista de longa data John Allen Jr., do site Crux, entende que Trump e Francisco têm pelo menos três áreas de interesse comum: liberdade religiosa; a agenda "pró-vida", contra a legalização do aborto; e a defesa de cristãos perseguidos, especialmente no Oriente Médio.

"Tanto os Estados Unidos quanto o Vaticano querem fazer essa relação dar certo", afirma o analista. "O Vaticano quer ser um grande ator nas questões globais e sabe que não pode fazer isso sem a ajuda dos Estados Unidos. Teme perder relevância."

No caso de Trump, acrescenta Allen, ele sabe que foi eleito em grande parte pelo voto de pessoas religiosas, inclusive católicos, especialmente os católicos brancos -- e não tanto hispânicos e negros. "Ele tem todos os motivos para parecer amigável ao papa. Vai enfatizar questões que são de maior interesse aos católicos conservadores dos Estados Unidos."

Por causa dessa agenda conservadora, o teólogo Thomas D. Williams, professor de Ética na Universidade Saint Thomas, entende que Francisco tem muito mais em comum com Donald Trump do que com o ex-presidente Barack Obama. Williams foi padre dos Legionários de Cristo e hoje escreve de Roma para o site Breitbart, que pertence ao estrategista-chefe do governo Trump, Steve Bannon.

"Obama não tinha a mesma visão sobre o aborto, a liberdade religiosa e a perseguição dos cristãos. Acho que o encontro com Trump vai ser surpreendentemente frutífero. Eles têm muito material para começar a construir juntos."

Ao contrário dos críticos de Trump, Williams enxerga no atual presidente americano uma grande proximidade com as periferias, o que de certa forma o faz parecido com o papa Francisco.

"Se olharmos para os gráficos de quem votou em Trump, ele ganha atenção das pessoas esquecidas, que acreditam ter sido deixadas de lado pelo que consideram ser o establishment, ou grupos de poder dos Estados Unidos", afirma. "A mensagem principal do papa é simbólica, de 'construir pontes, não muros', e ao encontrar Trump quer construir uma ponte com o povo americano. Se esse for o seu principal objetivo, vai conseguir."

Popularidade de Trump

A última pesquisa de opinião Reuters/Ipsos mostrou que Donald Trump tem seu mais baixo índice de popularidade desde a posse: em pesquisa realizada entre 14 e 18 de maio, 38% dos adultos aprovavam Trump, enquanto 56% reprovavam. Outros 6% tinham "sentimentos mistos". Se sua estratégia é aumentar seu capital político, a visita ao papa pode ser de impacto, mas limitado. Neste momento, fala mais alto a crise interna na administração Trump, após a demissão do diretor do FBI, James Corney, e os questionamentos sobre relações com a Rússia.

"Trump tem muitos problemas domésticos, mas, do seu ponto de vista, encontrar o papa não pode fazer mal", afirma o vaticanista Allen. "Não acho que um encontro de 30 minutos com o papa vá remediá-lo."

Para ele, Trump quer demonstrar "que leva a religião a sério". O fato de que visita também Arábia Saudita e Israel na mesma viagem é simbólico para as três principais religiões do mundo, mas Allen pondera que não se trata de uma viagem para o diálogo inter-religioso, mas política. "Ele quer provar que é um grande amigo de Israel, o que é bom para sua base no Partido Republicano, que consegue negociar com líderes muçulmanos, e que o voto católico é importante."

O teólogo Williams avalia que o efeito da viagem pode ser positivo para a imagem do presidente americano entre alguns eleitores religiosos. "Os EUA estão muito divididos. Quem odeia Trump não vai mudar de ideia. Mas, para quem não tem certeza, isso pode empurrá-los na direção certa", diz. "Esse encontro com o papa vai permitir que as pessoas digam 'prefiro Trump do que outras possibilidades. Pode não ser um santo, mas o apoio e, se o papa vai ao encontro dele, também posso ir''."

Nesse contexto, o padre James Martin aponta para o fato de que os católicos nos EUA estão divididos sobre a figura e a liderança de Trump. Para o jesuíta, eles votam mais com base no partido do que na religião e o combate ao aborto dominou o debate político entre católicos, abafando outros temas importantes. "Já não existe mais o voto católico no país. Mas posso dizer isso: os católicos reconhecem a autoridade moral do papa e o veem como uma pessoa autêntica. Acho que, mesmo quem votou em Donald Trump, não o enxerga na mesma categoria."

Segundo o padre D'Ambrosio, a importância do encontro atinge diretamente a igreja americana e, além disso, a de outros países. "O problema é que a igreja dos Estados Unidos está dividida: há bispos, padres e fiéis leigos que seguem o papa e outros que não o escutam. Trump sabe disso e quer mostrar que uma parte da igreja está do seu lado", diz. "Precisamos ver como esse encontro, esse fato simbólico, vai ser interpretado localmente, não só nos Estados Unidos, mas também na América Latina, como no México, o mais envolvido no problema na fronteira."

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