Brasil precisa de reforma também na política externa, avalia especialista em Brics

Eduardo Militão

Colaboração para o UOL, em Brasília

  • Divulgação/CGEG/Sipa/Columbia

    Marcos Troyjo, codiretor do laboratório dos Brics na Universidade de Columbia, em NY

    Marcos Troyjo, codiretor do laboratório dos Brics na Universidade de Columbia, em NY

O Brasil precisa investir em uma reforma da política externa, que é tão importante quanto outras ações estruturais como as da política, dos impostos e da infraestrutura no país. Essa é a opinião do economista brasileiro e professor de relações internacionais Marcos Troyjo, codiretor do laboratório dos Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) na Universidade de Columbia, em Nova York (EUA).

Troyjo enxerga um novo ciclo de prosperidade em que brasileiros podem pegar carona, exportando alimentos e minérios para países ao redor da China. Nas contas do economista, nos próximos 15 anos haverá uma demanda por comida e insumo para construção considerável no sudeste asiático motivada pela transferência de indústrias chinesas para a região.

Veja os principais trechos da entrevista, feita em duas conversas por telefone em janeiro, quando Troyjo estava no Rio.

Qual a situação da política externa brasileira?

Do ponto de vista econômico-comercial, se você pegar toda a história brasileira, desde que por estas terras aportou Cabral, até hoje, com exceção daquele momento de monocultura da exportação, com ciclo do café, borracha e cana-de-açúcar, raramente tivemos mais do que 20%, 25% do nosso PIB [Produto Interno Bruto] resultantes da soma de importações e exportações. Vamos pensar em alguns milagres econômicos recentes.

Coreia do Sul, Hong Kong, China, Chile, Espanha depois de 1982, Japão e Alemanha depois da Segunda Guerra. O que tem de comum entre esses países? Alguns são asiáticos, outros europeus. Alguns são democráticos, outros tiveram momentos de menor oxigênio democrático. A única coisa que você consegue encontrar em comum nesses diferentes modelos é que todos eles têm um elevado percentual de comércio exterior nas suas economias.

Se você somar tudo o que a Coreia do Sul importa e exporta, ao longo desse processo dramático de ascensão, você chega a 65% a 60% do PIB. Se você olhar a China, vai perceber uma fatia muito elevada do PIB. Hoje está um pouco menos de 50%. A Alemanha era a maior exportadora do mundo até 2009. Não é o caso do Brasil.

E isso não foi alterado no período de 2003 a 2016 [governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff]. Nenhum país nos últimos 70 anos conseguiu mudar de andar, ter um upgrade, sem ter uma parcela substantiva --de 35%, 40%, 50%, 70% do seu PIB-- relacionado ao comércio exterior. Nada em relação a isso mudou no período Lula e Dilma. O Brasil representa apenas 1% de tudo aquilo que o mundo importa e exporta. Não mudamos isso também. 

Divulgação/CGEG/Sipa/Columbia
Troyjo enxerga um novo ciclo de prosperidade em que brasileiros podem pegar carona

O senhor é crítico do modelo econômico da gestão de Lula e Dilma...

Descobrimos reservas de petróleo em águas profundas, houve aumento dos preços das commodities, principalmente nas quais temos vantagens comparativas, como soja e minério de ferro.

Houve um ambiente macroeconômico de algum crescimento de 2003 a 2010. Mas o Brasil deixou de fazer movimentos importantes nesse momento de bonança e isso resultou num colapso
Marcos Troyjo

Esse crescimento de 2003-2010 tem pouco a ver com a política externa. Houve deterioração do modelo de economia política que o Brasil abraçou neste período --substituições de importações, campeãs nacionais, escolher determinados setores da economia-- e isso levou ao desastre econômico que a gente conhece, uma espécie de bancarrota.

A crise de 2014 e 2015?

Exatamente.

Quais políticas o Brasil deixou de fazer que levaram à bancarrota?

O Brasil não construiu uma estratégia de inserção comercial internacional. Não fizemos acordos com os grandes mercados compradores do mundo. Não abrimos novas frentes. Não realizamos esforços de promoção comercial, com escritórios em cidades globais como Londres, Paris, Cingapura, dar mais força à inteligência comercial etc. Em vez disso, fomos abrir embaixadas em uma dezena de países africanos, gastar tempo com a criação de mecanismos regionais que pouco têm a ver com a prosperidade brasileira, como a Unasul [União de Nações Sul-Americanas].

Outra coisa. No Brasil, a gente confunde muito política externa, diplomacia e inserção internacional. Não são a mesma coisa. Diplomacia é atividade entre Estados, restrita a chancelarias. Para a política externa, tem de agregar outros elementos, que é o caso da política de defesa. E inserção internacional significa como você promove a sintonia fina entre atores do setor privado, governo e diplomacia para aumentar a riqueza de um determinado país.

É isso que os chineses, espanhóis, chilenos, sul-coreanos fizeram. É uma coisa que não fizemos no Brasil. Não construímos um projeto de inserção internacional que envolve atores privados, agências governamentais, diplomacia.

Geralmente as pessoas falam no Brasil da importância das reformas estruturais, mas deixam de mencionar a reforma da política externa também como estrutural
Marcos Troyjo

Nos EUA, quem formula a política comercial é o Congresso, que dá ao Executivo a autoridade para a promoção comercial. O Executivo tem um escritório, o USTR [United States Trade Representative}, diretamente ligado à Casa Branca e que negocia os acordos. Uma vez que o acordo está negociado e em vigor, quem promove comercialmente, quem vai atuar nas exportações e ajudar as empresas do seu país é o Departamento de Comércio. E se você percebe que um país com quem fez acordo está usando mão de obra infantil ou desrespeitando normas de propriedade intelectual, entre em jogo o Departamento de Estado, que é o Itamaraty deles. 

25.out.2016 - Diego Padgurschi/Folhapress
'Brasil quase que não as merece', diz economista sobre as boas oportunidades no cenário internacional

No caso brasileiro, apesar de ter tido um ou outro avanço, quem formula, negocia, promove e cuida das relações de comércio é o Itamaraty. Inserção internacional é algo muito maior que diplomacia ou política externa. 

Quais as oportunidades para o Brasil?

Esse cenário internacional dá muitas oportunidades boas para a inserção internacional do Brasil. Aliás, o Brasil quase que não as merece [risos].

Podemos entrar no vácuo internacional do presidente dos EUA, Donald Trump, e tentar uma liderança regional?

Não é possível. As relações hemisféricas estão congeladas até 8 de novembro de 2020 [data das próximas eleições nos EUA]. Nada vai acontecer. Não vai ter nova iniciativa para Américas, nova Alca [Área de Livre Comércio das Américas], novo acordo.

Como, então, aproveitar oportunidades?

Essa metamorfose da China, de ela não apenas ser uma gigante comercial, mas uma superpotência econômica em todos os setores, oferece muitos capitais disponíveis para o Brasil. O Brasil é, para a China, uma das poucas fronteiras móveis para investimentos em logística, estoque de alimentos, transporte ferroviário.

Podemos tirar vantagem de nosso papel de grande produtor de alimentos para viabilizar coisas como aumentar a densidade da malha rodoviária no Brasil. Tem muito capital estacionado no mundo à procura de boas oportunidades, muitos na China ou no Oriente Médio. É um cenário bacana aí.

Ficou tão caro produzir na China hoje --estão sofisticando sua economia, os salários estão crescendo-- que os chineses estão mudando uma parte importante de sua produção manufatureira para sua vizinhança geoeconômica. Mandam suas indústrias para Vietnã, Índia, Mianmar, Malásia, Paquistão. E o efeito colateral é que esses países, que têm rendas per capita baixíssimas, de US$ 2.000, US$ 2.500, começaram a comer mais e a investir em infraestrutura. Nós nos acostumamos à narrativa de que o ciclo das commodities aconteceu por causa da China e acabou.

Eu estou vendo um outro ciclo de commodities de longa duração como resultado dessa reorientação do Greenwich econômico do Atlântico para o Pacífico, resultante também desse processo de metamorfose chinesa
Marcos Troyjo

Olha só: 1,4 bilhão de chineses, 1,3 bilhão de indianos, 250 milhões de indonésios e mais um contingente importante no Vietnã e Paquistão. É uma região do mundo, com metade da população mundial e que vai crescer mais de 5% ao ano durante os próximos 15 anos. É uma locomotiva de crescimento em que o Brasil precisa atrelar o seu vagão, que vai gerar os excedentes de crescimento que o Brasil precisa, viabilizar a sofisticação da economia brasileira, aumentar nosso investimento em pesquisa e inovação.

O crescimento do sudeste asiático resultante da metamorfose chinesa vai gerar um aumento de valor e volume em setores de commodities agrícolas e minerais em que o Brasil tem vantagens comparativas. É uma superoportunidade. Não tem problema nenhum você ser um grande exportador de commodities desde que você use uma parte importante dos recursos para sofisticar sua economia em outros setores. Precisamos aproveitar essa boa janela de oportunidades.

É possível prever quem vai ganhar as eleições de 2018?

O Brasil vai se alinhar a uma tendência internacional de votar num candidato de centro-direita. Eu torço por um "outsider", não alguém fora da política, mas o contrário do "insider": usar a política industrial e comercial para beneficiar seu grupo, seu quadro de alianças. O "outsider" pode ser da política, mas é alguém macroeconomicamente responsável, que vai avançar fazer nos ajustes modernizantes para o Brasil ser um país competitivo, alguém popular, mas não populista.

Pode ser o governador [de São Paulo, Geraldo] Alckmin [PSBD], o ministro [da Fazenda, Henrique] Meirelles [PSD], o [presidente da Câmara], Rodrigo Maia [DEM-RJ], pode ser o [apresentador de TV] Luciano Huck, o governador do Espírito Santo [Paulo Hartung, do MDB].

E quem não ganhará?

Quem apostar na combinação de protecionismo, populismo e experimentalismo macroeconômico.

Lula e Bolsonaro?

Vai depender de que Bolsonaro e de que Lula. Se fosse o Lula de 2003 e 2006, talvez fosse uma boa, mas o problema é que as condições são diferentes. Se ele for presidente da República, quem vai aceitar ser presidente do Banco Central dele? Ou ministro da Fazenda?

Que forças, para além do sindicalismo, estão com Lula, não importa a latitude moral? Que outras alianças ele vai construir com a sociedade? O Lulinha "paz e amor" não consegue se reproduzir ao longo do tempo.

Bolsonaro admitiu que usou auxílio-moradia mesmo tendo imóvel próprio. Questionado pela "Folha" sobre o caso, respondeu que usava o apartamento para "comer gente". Foi acusado de ter funcionária fantasma e o crescimento de seu patrimônio está em xeque. Ele resiste a uma eleição?

Usar auxílio-moradia ou qualquer outra verba pública para outro fim que não aquele para o qual se destina é incorreto e ilegal. Ele tem de ter patrimônio compatível com os rendimentos dele. Vai depender muito do que mais for se descobrir. Nesse momento, a tendência é acharmos que ele é uma das figuras que critica outros políticos de estrutura partidária mais estabelecido,  mas ele próprio não respeitou preceitos que se imagina de bom decoro.

Marina Silva tem condições de vencer? E, se isso acontecer, de fazer essas mudanças que o senhor julga necessárias?

Ela tem um atrativo importante, da honestidade, credibilidade, moralidade, a defesa ambiental, mas só isso não será suficiente para ganhar as eleições. Quais são as ideias econômicas da Marina, seu plano para a segurança pública, o que ela diz a respeito de costumes do Brasil? Economia de baixo carbono, mas você vai fazer isso com o quê?

O Brasil poupa 16% do seu PIB, tem um problema fiscal gravíssimo. Ela vai herdar inflação, desemprego e taxa de juros em baixa, mas ainda assim não é suficiente para fazer uma reconversão importante do modelo brasileiro. Como mudar do modelo industrial para um intensivo em tecnologia limpa?

É uma pessoa honesta, extraordinariamente bem-intencionada, a maior projeção dela é no período eleitoral. Não creio que ela tenha densidade hoje para construir pontes com o Congresso para fazer uma agenda reformista de muito curto prazo e aproveitar esse período dos primeiros cem dias. É um pouco a lição do [presidente da França, Emmanuel] Macron, que atacou de frente a questão tributária, a questão trabalhista na França logo no começo.

 

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