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Pesquisadores acreditam que há 7.000 pacientes enterrados em área de ex-manicômio nos EUA

Rogelio V. Solis/AP
Imagem: Rogelio V. Solis/AP

Sarah Mearhoff

Em Starkville (Mississipi, EUA)

23/05/2018 16h46

As caixas empilhadas no laboratório da antropóloga Molly Zuckerman contêm ossos inteiros --um crânio, uma mandíbula ou uma perna. Outros contêm apenas sacolas plásticas com fragmentos ósseos que Zuckerman descreve como "grãos". Estes restos mortais estão entre os cerca de 7.000 corpos que foram enterrados em um antigo manicômio do Mississippi, um local que hoje fica no campus do Centro Médico da Universidade do Mississipi, em Jackson.

Pesquisadores planejam exumar os corpos, criar um memorial e estudá-los para entender como doentes mentais e outras pessoas marginalizadas devem ser tratadas atualmente.

"Estes ossos podem nos dar uma compreensão muito rica, contextualizada, detalhada e pessoal de como a saúde mudou ao longo do tempo e como a saúde das pessoas foi influenciada por fatores estruturais, como pobreza, racismo e marginalização", disse Zuckerman, que comanda o laboratório na Universidade Estadual do Mississipi em Starkville.

O Asilo Lunático do Estado do Mississipi --mais tarde renomeado Hospital Insano do Estado do Mississipi-- funcionou de 1855 a 1935 e abrigou até 35 mil pacientes de todo o Estado. Pacientes que morreram enquanto institucionalizados foram enterrados lá, se parentes não reclamaram seus corpos.

Embora os pesquisadores tenham informações limitadas sobre os que foram enterrados no local, Zuckerman afirma que muitos deles sofriam de sífilis e sintomas mentais ligados à doença em um momento anterior ao reconhecimento dos antibióticos como uma cura eficaz. As condições dos outros variaram de esquizofrenia a depressão pós-parto, em uma era em que a saúde mental não era bem compreendida. As origens raciais e econômicas parecem ter variado.

Fragmentos de ossos de pacientes de manicômio no Mississipi - Rogelio V. Solis/AP - Rogelio V. Solis/AP
Fragmentos de ossos de pacientes de manicômio no Mississipi
Imagem: Rogelio V. Solis/AP

Restos mortais foram encontrados no campus da universidade desde a década de 1990. Mas, durante uma pesquisa de 2012 para a construção de estradas planejadas, os arqueólogos fizeram a descoberta surpreendente de que há pelo menos 3.000 corpos enterrados --e possivelmente até 7.000. Um grupo de sete universidades do Mississipi e do Texas criou um consórcio para analisar os restos mortais.

Até agora, foram exumados restos mortais de 66 pessoas, e tudo está armazenado no laboratório da antropóloga. Zuckerman disse que ossos foram guardados em caixas individuais, com o devido respeito. Suas sepulturas não identificadas e a falta de objetos pessoais eram práticas funerárias comuns na época, afirmou.

Entre os ossos encontrados, há um crânio humano quase completo que seria de uma paciente jovem, segundo afirma a professora assistente Anna Osterholtz, apontando para três lesões no crânio que teriam sido provocadas por impactos traumáticos. Um é tão grave que Osterholtz acredita que o golpe poderia ter causado danos cerebrais permanentes. Não está claro se o golpe veio antes ou depois que a paciente ter sido internada.

Um dos alunos de pós-graduação de Zuckerman inspecionou o crânio para encontrar evidências de pelagra ou de deficiência de vitamina B, que seriam possivelmente resultado de uma dieta de milho, gordura e melaço, condição pode causar sintomas semelhantes aos da demência. Os ossos podem mostrar também evidências de doenças crônicas. A sífilis, por exemplo, em seus estágios finais, pode causar pequenos tumores cerebrais que resultam em crateras no crânio.,

Antropóloga Molly Zuckerman mostra caixas onde estão armazenados os restos mortais de 66 pacientes de área de ex-manicômio nos EUA - Rogelio V. Solis/AP - Rogelio V. Solis/AP
Antropóloga Molly Zuckerman mostra caixas onde estão armazenados os restos mortais de 66 pacientes de área de ex-manicômio nos EUA
Imagem: Rogelio V. Solis/AP

Identificar os pacientes, no entanto, será muito difícil. Os caixões recuperados não estão marcados. Os antropólogos conseguiram registros dos pacientes, mas não há um mapa para relacionar os registros aos túmulos. A análise de DNA é cara e as cadeias de DNA podem se degradar após décadas no subsolo.

A antropóloga afirma que estudar como os doentes mentais foram tratados na época ajudará os pesquisadores a entender como melhorar o tratamento para as populações marginalizadas de hoje, sejam elas afetadas por doenças mentais, racismo, sexismo ou pobreza.

"A única maneira pela qual você pode realmente justificar a pesquisa com restos humanos --por causa de quão eticamente carregada é a questão dos restos humanos-- é se você gerar informações úteis e benéficas para as populações modernas e futuras", disse Zuckerman.