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Viver na pobreza é duas vezes mais comum entre afrodescendentes, diz estudo na América Latina

Mulher passa em frente a casa cheia de buracos de balas no Complexo do Alemão (RJ) - 25.abr.2017 - Fabio Teixeira/AFP
Mulher passa em frente a casa cheia de buracos de balas no Complexo do Alemão (RJ) Imagem: 25.abr.2017 - Fabio Teixeira/AFP

Juliana Carpanez

Do UOL, em São Paulo

22/09/2018 04h01

Um estudo divulgado recentemente pelo Banco Mundial expõe as dificuldades enfrentadas por afrodescendentes da América Latina, considerando moradia, renda, acesso a empregos e também à educação. Comparados na pesquisa a brancos e mestiços, eles são 2,5 vezes mais propensos a viver em pobreza crônica, o que indica impossibilidade de melhorar de vida.

“Nascer em uma família afrodescendente aumenta consideravelmente a chance de crescer em um ambiente pobre, dando a essas crianças um começo de vida desigual e contribuindo para cimentar uma armadilha centenária de pobreza”, resume o levantamento “Afrodescendentes na América Latina: Rumo à Estrutura de Inclusão” (em tradução livre, pois o material está disponível em inglês e espanhol).

O estudo apresentado na Costa Rica no final de agosto leva em conta censos de 12 ou 16 países (dependendo do tipo de análise) referentes a uma década: de 2005 a 2015.

Os afrodescendentes considerados no estudo representam um universo de 133 milhões de pessoas ou um quarto da população da América Latina. Cerca de 91% deles estão concentrados no Brasil e na Venezuela, enquanto os demais se espalham de forma desigual por outras nações. De acordo com o levantamento, o Brasil é o segundo país no mundo com maior população afrodescendente, ficando atrás somente da Nigéria.

“Esse relatório aponta uma conexão direta entre exclusão social e raça. Há algumas décadas muitas dessas regiões latino-americanas não tinham essas informações, pois nem se falava sobre raça. Estamos atrasados nesse quesito, mas prontos para iniciarmos essa conversa”, afirmou em entrevista por telefone Germán Freire, principal organizador do estudo. 

Afrodescendentes mais propensos a pobreza

O levantamento aponta que os afrodescendentes da América Latina são 2,5 vezes mais propensos a viver em pobreza crônica do que brancos e mestiços --“pobreza", aqui, indica domicílios com renda per capta de até US$ 5,5 (cerca de R$ 23) ao dia e "crônica" aponta que a situação não mudou durante o período considerado pela pesquisa.

Se levado em conta apenas o Brasil, a pobreza crônica atingiu 5,6% dos não afrodescendentes e 17,9% dos afrodescendentes entre 2012 e 2015 (ou 3,2 mais chances de pobreza crônica entre os afrodescendentes). No período anterior, esses percentuais eram maiores: 7,8% e 22,6%, respectivamente (2,9 mais chances). 

Apesar dessas diferenças, durante a maior parte do século 20 a associação entre raça e pobreza na região foi ignorada ou negligenciada
Estudo do Banco Mundial sobre afrodescendentes na América Latina

Se levado em conta apenas o ano de 2015 no Brasil, a pobreza atingiu 11,6% dos não afrodescendentes, 25,8% dos afrodescendentes e cerca de 20% da população total. Houve uma queda desses valores em dez anos: que eram, respectivamente, 25,3% dos não afrodescendentes, 50,9% dos afrodescendentes e pouco menos de 40% da população total no país. O levantamento pontua, portanto, uma melhora geral na renda considerando a última década. 

Diferenças também entre pretos e pardos 

Ainda no caso específico do Brasil, o Banco Mundial observa uma diferença entre aqueles que se descrevem como preto/negro ou pardo. “Apesar de os dois subgrupos terem piores resultados em relação a brancos e mestiços, há diferenças entre eles. De forma geral, aqueles que se descrevem como pretos têm renda ligeiramente mais alta que os pardos, ao contrário do que sugere muito da literatura e relações históricas entre os dois.”

Uma das hipóteses para isso, baseada em outras pesquisas, é o fato de o status socioeconômico ser cada vez menos determinante para prever a identificação racial de uma pessoa. “Isso se deve provavelmente à perseverança dos movimentos negros, que promoveram a adoção do termo negro e de políticas multiculturais baseadas em raça.” Nesse contexto, é mais provável que pessoas identificadas como pretas sejam influenciadas por políticas de movimentos sociais, conseguindo um nível maior de educação e de renda do que aquelas identificadas como pardas.

Escolas, cotas e mercado de trabalho

Na educação, as diferenças também aparecem. Cerca de 64% dos afrodescendentes completaram a educação primária na América Latina, contra 83% dos não afrodescendentes. No ensino médio, esses números caem para 30% e 46%, respectivamente. Já no ensino superior, eles representam 5% dos afrodescendentes e 14% dos não afrodescendentes.

Nesse quesito o Brasil é considerado um bom exemplo, por causa das cotas --adotadas, segundo o Banco Mundial, por 80% das universidades estaduais e 100% das federais em 2015. Em 2002, continua o estudo, apenas 2% dos estudantes de universidades públicas com idades entre 18 e 26 anos se declaravam negros, enquanto 18% se identificavam como pardos. Em 2015, os números subiram para 6,3% e 41%. 

Crianças na porta de escola municipal no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro  - 7.jul.2017 - Mauro Pimentel/UOL - 7.jul.2017 - Mauro Pimentel/UOL
Crianças na porta de escola municipal no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro
Imagem: 7.jul.2017 - Mauro Pimentel/UOL

“O país possui o conjunto mais abrangente de políticas de ação afirmativa para o ensino superior. E diversos estudos mostram que elas tiveram grande impacto na composição étnico-racial dessas instituições, ao mesmo tempo em que mantiveram ou melhoraram o desempenho dos estudantes”, afirma no material de divulgação do estudo a brasileira Flávia Carbonari, coautora do relatório. Ainda assim, ela aponta a necessidade de tratar da diferença entre o alcance educacional e a inserção no mercado de trabalho.

Desemprego dobra entre afrodescendentes

Em média, na América Latina, as taxas de desemprego envolvendo afrodescendentes são o dobro daquela envolvendo os não afrodescendentes: 13% contra 6%. O levantamento também aponta a diferença de salário. Com base no Censo Demográfico de 2010, indica que os afrodescendentes ganham cerca de 40% menos que seus colegas brancos. Entre as mulheres, o problema é pior: 46% menos que suas colegas brancas e 32% menos que colegas afrodescendentes do sexo masculino

“Essas informações são importantes para pensarmos em políticas públicas. Elas apontam quem são os agentes dessa violência da segregação, quem as sofre e quais as possibilidades para revermos esses processos. Já houve algumas mudanças importantes, que promoveram a redução pontual da desigualdade, mas elas ainda não conseguiram quebrar toda a máquina da desigualdade”, afirma Juarez Xavier, professor da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) e militante do movimento negro.