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Como Bolsonaro, Kirchner e Maduro atacaram "IBGEs locais" por cenário ruim

Ronen Zvulun/Reuters
Imagem: Ronen Zvulun/Reuters

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

04/04/2019 04h00

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) atacou nesta semana a metodologia de cálculo do desemprego usada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que registrou crescimento pela segunda vez seguida. Críticas semelhantes às do presidente brasileiro foram feitas pelo venezuelano Nicolás Maduro e pelo casal Kirchner em seus mandatos na Argentina --no caso dos presidentes vizinhos, houve ainda interferência direta nos institutos de pesquisa.

O caso venezuelano tem consequências até os dias de hoje. Há anos, Maduro deixou de divulgar dados estatísticos do país, mergulhado em uma profunda crise socioeconômica.

O site do INE (Instituto Nacional de Estatísticas) tem números até o ano de 2013 --o mesmo em que Hugo Chávez morreu e Maduro assumiu a Presidência. Atualmente, o raio-x da crise na Venezuela é feito por meio de estatísticas realizadas por organismos internacionais, instituições privadas, universidades, de forma completamente independente, e por políticos opositores.

Nicolás Maduro reunido com governadores e militares no Palácio de Miraflores, em Caracas - Presidência da Venezuela - Presidência da Venezuela
Nicolás Maduro reunido com governadores e militares no Palácio de Miraflores, em Caracas
Imagem: Presidência da Venezuela

A briga de Maduro contra os números continua firme: além de impedir a divulgação de dados oficiais, ele questiona, por exemplo, dados da ONU (Organização das Nações Unidas) de que 2,3 milhões de venezuelanos tenham deixado o país. Segundo ele, seriam bem menos: cerca de 800 mil pessoas.

Mesmo sem divulgar índices oficiais de inflação e de PIB (Produto Interno Bruto) desde 2015, Maduro ainda rebate as previsões do FMI (Fundo Monetário Internacional), com projeção da inflação a 10.000.000% em 2019, e da Assembleia Nacional, de maioria opositora, que estima em 2.295.981,8% a inflação nos últimos 12 meses (de acordo com os dados de março).

Segundo o FMI, depois de uma década, o governo venezuelano enviou dados oficiais de sua economia para o organismo. Os números mandados em dezembro ainda estão sob análise. O país não recebe uma equipe da instituição financeira há quase 15 anos.

Mas a crítica dos chavistas a dados internacionais não começou com Maduro. Ainda em 2010, sob o governo de Chávez, o ex-presidente do INE Elías Eljuri questionou a metodologia internacional com a qual o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) era calculado, afirmando que a posição venezuelana seria muito melhor do que a apresentada pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Na ocasião, segundo Eljuri, a Venezuela ocuparia o 53º lugar, e não o 73º --hoje, o país está em 78º no ranking.

Na Argentina, o ataque ao Indec (Instituto Nacional de Estatística e Censos) começou no governo de Néstor Kirchner, em 2007, quando o órgão adotou uma nova metodologia na medição de preços. A mudança desencadeou suspeitas sobre a credibilidade de dados e índices oficiais, entre eles a inflação, o desemprego e a pobreza. Hoje, sabe-se que os dados foram manipulados durante toda a era Kirchner, que inclui também o mandato de Cristina, e é impossível saber as estimativas reais.

Cristina Kirchner, presidente da Argentina, ao lado do marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, depois da cerimônia de posse em Buenos Aires, na Argentina, em dezembro de 2010 - Daniel Darrás/Télam/AFP - Daniel Darrás/Télam/AFP
Cristina Kirchner, ex-presidente da Argentina, ao lado do marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, depois da cerimônia de posse em dezembro de 2010
Imagem: Daniel Darrás/Télam/AFP

Nesse período, consultorias privadas divulgavam os números mais próximos da realidade. Os dados divulgados pelo Indec passaram a ser considerados mais confiáveis durante a gestão de Mauricio Macri, a partir de 2016. A oposição também faz a divulgação de índices paralelos --é o IPC Congresso, que usa como base os números de consultorias privadas.

Para efeito de comparação, em 2014, Cristina Kirchner anunciou a inflação em 23,9%, enquanto o IPC Congresso e economistas estimaram o índice em 38,5%.

Em 2016, no primeiro ano de Macri, a inflação anunciada no país foi de 40%, a segunda maior da América Latina, depois da Venezuela, e a pior da Argentina em 25 anos. No ano anterior, com um mês de governo, Macri decidiu anunciar como oficiais os números da inflação da cidade de Buenos Aires (30%) enquanto o Indec passava por um processo de normalização.

No Brasil, PT também criticou métodos de medição

Em 2014, um ano eleitoral, a então senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) criticou a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), que tratava do mercado de trabalho. Na ocasião, ela questionou a metodologia da pesquisa, em relação ao uso de dados de renda domiciliar per capita. A interrupção da divulgação da Pnad Contínua chegou a ser anunciada, mas o IBGE acabou voltando atrás.

No mesmo ano, Dilma Rousseff (PT) veio a público para defender o IBGE após um erro na checagem dos números, que teria superestimado o peso das regiões metropolitanas na Pnad sobre desigualdade no Brasil.

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