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Motociclistas brasileiros chegam ao Peru após sete dias retidos no Equador

Bruna Barbosa Pereira

Colaboração para o UOL, em Cuiabá

18/10/2019 10h16

Durante sete dias no Equador, os motociclistas Claudinei Batista, 42, e Rodolfo de Medeiros, 38, precisaram enfrentar barreiras de indígenas que protestavam, entre outros fatores, contra o fim de subsídios de combustível no país. Lanças, pagamento de pedágios a cada 10 km, fome e estradas alternativas fizeram parte da rotina dos brasileiros. Na última segunda-feira, (14), os amigos conseguiram chegar ao Peru e pretendem pilotar as motos até Imbituba, em Santa Catarina.

Os amigos partiram da Flórida, nos Estados Unidos, no dia 10 de setembro, mas não imaginavam que passariam pelo Equador no auge de um caos político. Quando chegaram ao país, na segunda-feira (7), as motocicletas de Batista e Medeiros já não tinham mais gasolina.

Brasileiros enfrentaram protestos, pedágios e caminhos alternativos no Equador - Arquivo pessoal
Brasileiros enfrentaram protestos, pedágios e caminhos alternativos no Equador
Imagem: Arquivo pessoal

"Na cidade vizinha, na Colômbia, também já não tinha mais gasolina por conta das manifestações no Equador. Fizemos os trâmites de imigração, mas, na hora de passar pela aduana, fomos surpreendidos por caminhonetes repletas de indígenas, os carros cantavam pneu, batiam em outros veículos. Conseguimos escapar por pouco", contou.

Sem combustível para continuarem seguindo viagem, os amigos se viram presos no Equador. No primeiro dia, eles conseguiram comprar gasolina com ajuda de um morador local, que conseguiu combustível com outra pessoa que estava armazenando em casa. Para três litros, cada um dos viajantes precisou desembolsar R$ 50.

Com as motos abastecidas, Batista contou que a única possibilidade no momento seria a entrada no Equador. Decidiram ficar na aduana até por volta das 19h, quando o dia começou a escurecer e eles aproveitaram para tentar seguir viagem. Após cerca de 2 km, encontram a primeira barreira.

"Queriam furar o pneu da moto, diziam: 'não passa, regressa'. Mesmo dizendo que éramos brasileiros, ordenavam que voltássemos", disse.

Claudinei Batista durante travessia de barco em viagem no Equador - Arquivo pessoal
Claudinei Batista durante travessia de barco em viagem no Equador
Imagem: Arquivo pessoal

Batista afirmou que os indígenas que protestavam no local estavam "hostis e agressivos" e, por conta disso, ele e Medeiros decidiram voltar para a aduana. Porém, quando chegaram no departamento de imigrantes, o local já estava fechado. "Era um mato sem cachorro, nem para um lado, nem para o outro."

A única solução para os viajantes foi contratar um morador local para ajudá-los a seguirem viagem por rotas alternativas, passando por rios e regiões rochosas. Mesmo com o auxílio, eles conseguiram avançar apenas cerca de 100 km. Como as barreiras estavam cada vez mais difíceis de serem atravessadas, decidiram passar a noite em um hotel.

No estabelecimento, conheceram policiais da cidade, que os orientaram a viajar durante a noite. No dia seguinte, decidiram adotar a estratégia e conseguiram passar por cerca de cinco barreiras. No mesmo dia, porém, os motociclistas foram surpreendidos com uma barreira em que havia indígenas armados e tiveram que voltar para a cidade onde estavam hospedados.

"A princípio vieram com lanças, meio agressivos, começamos a falar que éramos brasileiros. Pediram nossa colaboração e deixaram seguir viagem", contou Batista.

Três dias sem comer e pneu furado

Por conta do conflito político, Batista contou que as lojas e restaurantes das lojas não estavam funcionando. No dia 10 de setembro, novamente eles conseguiram pagar um morador local para mostrar trilhas para que conseguissem deixar o Equador.

De acordo com ele, alguns indígenas colocavam fogo em pontes da cidade, fazendo que os viajantes precisassem atravessar rios de canoa junto com a moto. A situação, que começava a se agravar cada vez mais, começou a deixar os motociclistas assustados.

Em um dos dias de viagem pelas florestas do Equador, Batista acabou não percebendo que o pneu da moto dele estava furado. Como não havia estabelecimentos abertos na região, a única opção de ambos foi seguir até Quito, capital do país.

"Parei em um lugar para achar uma loja, uma senhora me disse para eu sair que a roubariam. Um motoqueiro tentou ajudar, mas eles iam me cercando, não conseguíamos mais nos mover de tanto arrastão para fechar as ruas. Ficamos em um hotel bem simples e foi mais um dia sem comer", lembrou.

Em um momento de desespero e medo de que a situação não se resolvesse tão logo quanto haviam imaginado, os motociclistas começaram a pedir ajuda em grupos formados por motoqueiros em grupos de WhatsApp. Dessa forma, Batista acabou conseguindo uma pessoa que lhe cederia o pneu.

No dia 13 de setembro, Claudinei pegou a moto do amigo emprestada e foi até Quito para tentar buscar o pneu, sem sucesso, já que as vias, até mesmo alternativas, estavam bloqueadas por homens armados com lanças. Naquele dia, o governo do país também havia determinado um toque de recolher às 15h. O motociclista decidiu retornar para o hotel.

Amigos motociclistas passaram pelo Equador em meio a protestos - Arquivo pessoal
Amigos motociclistas passaram pelo Equador em meio a protestos
Imagem: Arquivo pessoal

No mesmo dia, o governo do Equador acabou cedendo às reivindicações quanto ao valor dos combustíveis na região. Batista contou que, mais do rapidamente, ele e o amigo pegaram as motos e deixaram o Equador.

Desde segunda (14), os amigos estão no Peru. Eles já passaram por Estados Unidos México, Belize, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Porto Rico, Panamá, Colômbia e Equador. Nos próximos 15 dias, os amigos ainda devem passar pela Bolívia, Chile e Argentina antes de chegarem a Santa Catarina.

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