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O que está acontecendo na Bolívia? Os dias e as horas antes da queda de Evo

Bolivianos enchem as ruas de La Paz após a renúncia do presidente Evo Morales e do vice-presidente Álvaro García Linera - Reuters
Bolivianos enchem as ruas de La Paz após a renúncia do presidente Evo Morales e do vice-presidente Álvaro García Linera
Imagem: Reuters

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

11/11/2019 12h27Atualizada em 12/11/2019 11h14

Resumo da notícia

  • Evo Morales renunciou à Presidência da Bolívia no domingo
  • Boliviano já enfrentava protestos por acusação de fraude eleitoral
  • Oposição acusou Evo de manipular o resultado; ex-presidente denunciou "golpe de Estado em curso"
  • No domingo, a OEA pediu novas eleições, e as Forças Armadas, a renúncia de Evo

Evo Morales renunciou à presidência da Bolívia na tarde do último domingo (10). Depois de quase 14 anos no poder, o boliviano, que já enfrentava protestos públicos por acusação de fraude eleitoral, levou um ultimato das Forças Armadas e da oposição. Após deixar o poder, ele foi para o exílio no México.

Os protestos começaram depois das eleições nacionais de 20 de outubro, que declararam Evo eleito para o quarto mandato com vitória em primeiro turno. De um lado, a oposição acusava Evo de manipular o resultado; do outro, o presidente denunciava um "golpe de Estado em curso".

No domingo, a OEA (Organização dos Estados Americanos) e as Forças Armadas entraram na história e Evo renunciou. Veja o que se sabe sobre a disputa pelo poder na Bolívia:

Plebiscito

No poder desde janeiro de 2006, Evo Morales promove em fevereiro de 2016 um plebiscito popular para alterar o Artigo 168 da Constituição boliviana de 2009, que permitia apenas uma reeleição para o chefe do Poder Executivo. Dessa forma, ele poderia concorrer ao quarto mandato consecutivo em 2019. O "Não", que vetava a alteração, ganhou com 51% dos votos.

O recurso

Um grupo de parlamentares do MAS (Movimento Para o Socialismo), de Evo, entram com um recurso no Tribunal Constitucional da Bolívia em setembro de 2017 pedindo a suspensão do Artigo 168 com base no Pacto de San José sobre direitos humanos, que prega que não há limites para uma pessoa se candidatar a um cargo público.

Tribunal decide a favor de Evo

Sob o argumento de que a Constituição boliviana estabelece primazia de acordos internacionais sobre a própria, o Tribunal Constitucional decide em novembro de 2017 que o resultado do plebiscito seria uma restrição aos direitos de Evo e permite que ele participe de mais pleitos. A oposição acusa o tribunal de não respeitar os resultados do referendo.

Perpetuação no poder

Em campanha pelo quarto mandato a partir de setembro de 2019, Evo enfrenta oito candidatos. Dentre eles, o favorito é o ex-presidente Carlos Mesa, da FRI (Frente Revolucionária de Esquerda), político de centro-esquerda que ocupou a presidência entre 2003 e 2005. A oposição segue acusando Evo de tentar se perpetuar no poder.

A eleição

É realizada a eleição em 20 de outubro de 2019. Para não haver segundo turno, o primeiro colocado teria de ter 50% dos votos mais um ou pelo menos 40% e mais de dez pontos percentuais à frente do segundo. Como a votação é manual (com cédulas em papel), existem os resultados estimados, divulgados previamente pelo TSE (Tribunal Supremo Eleitoral), e o resultado final, consolidado.

À noite, com quase 84% das urnas apuradas, a estimativa era a de que haveria segundo turno entre Evo e Mesa. Ao final do domingo, o TSE interrompe a divulgação dos resultados.

A divulgação é retomada na tarde da segunda com pouco mais de 95% das urnas apuradas. Agora, no entanto, Evo teria 46,4% contra 37,07% de Mesa, o que indica que seria preciso ver até o último voto se haveria ou não segundo turno. O candidato da oposição começa a denunciar fraude eleitoral.

Primeiras manifestações

Em 22 de oututubro, manifestantes queimam sedes regionais do TSE em três cidades bolivianas. Em meio aos protestos, organizações civis de oposição convocam "greve geral".

Evo: "golpe"

Evo diz em 23 de outubro que um "golpe de Estado" estava em andamento por parte da direita e do empresariado boliviano. As manifestações continuam.

Resultado e mais protestos

Sai em 25 de outubro o resultado oficial consolidado da eleição: Evo vence no primeiro turno com 47,08% dos votos contra 36,51% de Mesa. Entidades internacionais se opõem ao resultado e se dizem a favor de um segundo turno. No país, os protestos continuam.

Auditoria rejeitada

Evo solicita auditoria da OEA sobre a apuração dos votos. A proposta é rejeitada pela oposição, mas a auditoria é iniciada.

Luis Fernando Camacho começa a despontar entre os manifestantes. Advogado de extrema-direita, ele não é oficialmente ligado a nenhum partido, mas, em meio a citações da Bíblia, ele começa a fazer contagem regressiva para a saída de Evo do poder em seu Twitter no dia 4 de novembro.

Neste mesmo dia, o helicóptero de Evo sofre uma pane e ele tem de fazer um pouso de emergência. O presidente volta a falar em articulação de um golpe de Estado e pede apoio das Forças Armadas.

Instituições atacadas

Protestos contra e a favor do governo continuam por todo o país em 9 de novembro. Sedes de prefeituras, tribunais e da polícia são atacadas. As casas da irmã de Evo, Esther Morales Ayma, em Oruro, no interior do país, e de três governadores são incendiadas.

O dia da queda, 10 de novembro

Manhã

OEA divulga com antecedência o relatório da auditoria das eleições, em que recomenda a anulação dos resultados do dia 20 de outubro e a realização de um novo pleito eleitoral. Evo aceita o resultado e convoca novas eleições presidenciais.

Tarde

As Forças Armadas e a polícia juntam-se aos manifestantes e, por meio do comandante-em-chefe, Williams Kaliman, pedem a renúncia imediata de Evo. Em La Paz, o presidente do TSE e seu vice são presos por fraude eleitoral.

Evo voa da capital para Cochabamba, seu reduto eleitoral, e, ao final da tarde, decide renunciar à presidência ao lado de seu vice, Álvaro García Linera, para "pacificar o país". Em seu discurso, acusa um golpe "cívico-político-policial".

Como havia prometido, Camacho entra na sede do governo boliviano, em La Paz, para entregar a carta de renúncia para Evo assinar, mas ele já não estava mais no local. Nas redes sociais, viralizou uma foto do opositor ajoelhado à frente de uma bandeira da Bolívia sob uma Bíblia aberta.

Noite

No Twitter, Evo afirma que os "golpistas destroem o Estado de Direito" e afirma que foi expedido um mandado de prisão ilegal contra ele. A renúncia gerou repercussão no Brasil e nos países vizinhos.

Asilo no México

Evo recebeu asilo político do México e viajou para o país da América do Norte na noite de segunda (11). Os mexicanos consideram que a "vida e a integridade" correm perigo.

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