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Após 30 anos, Bolsonaro romperá tradição se faltar à posse de Fernández

Bolsonaro afirmou diversas vezes que preferia a reeleição de Macri, o que não ocorreu - JORGE SILVA / Reuters
Bolsonaro afirmou diversas vezes que preferia a reeleição de Macri, o que não ocorreu Imagem: JORGE SILVA / Reuters

Luciana Taddeo

Colaboração para o UOL, em Buenos Aires

09/12/2019 13h28Atualizada em 09/12/2019 18h16

Resumo da notícia

  • Desde a volta da democracia, presidentes brasileiros foram a todas as posse dos pares argentinos eleitos por voto popular
  • Bolsonaro deve ser o primeiro a romper essa tradição em 30 anos
  • A Argentina é um dos principais destinos das exportações brasileiras
  • Mas Bolsonaro afirmou em diversas ocasiões que preferia a reeleição de Macri
  • "Sinal muito ruim", diz analista argentino

A se confirmar a sua ausência em Buenos Aires amanhã, Jair Bolsonaro (sem partido) será o primeiro presidente brasileiro em 30 anos a não comparecer à posse de um par argentino eleito pelas urnas.

Após afirmar que Bolsonaro não participará da cerimônia de posse de Alberto Fernández nesta terça (10), o governo brasileiro decidiu mandar o vice-presidente, Hamilton Mourão (PRTB) à Argentina.

Mais cedo, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que o país seria representado pelo embaixador brasileiro em Buenos Aires, Sérgio Danese.

Em Brasília pela manhã, questionado por jornalistas sobre a ausência na posse, Bolsonaro disse que "nosso comércio com a Argentina continua sendo da mesma forma, sem problema nenhum, não vai se mexer em nada".

Mas analistas ouvidos pela reportagem em Buenos Aires falam em "sinal ruim" e situação inédita.

Alberto Fernández, presidente eleito da Argentina - Luis Cortes/Reuters
Alberto Fernández, presidente eleito da Argentina
Imagem: Luis Cortes/Reuters

Brasil mandou presidentes às últimas posses

Desde o retorno da democracia em ambos os países, os presidentes brasileiros foram a todas cerimônias de posse dos pares argentinos eleitos pelo voto popular:

  • 1989: José Sarney (no então PMDB) foi à posse do peronista Carlos Menem;
  • 1995: Menem, reeleito, teve Fernando Henrique Cardoso (PSDB) na cerimônia;
  • 1999: Fernando De la Rúa, do partido União Cívica Radical, viu FHC na sua cerimônia de juramento.
  • 2003: o peronista Néstor Kirchner toma posse; Luiz Inácio da Lula da Silva (PT) comparece;
  • 2007: Cristina Kirchner, peronista, é eleita, e Lula de novo está na posse;
  • 2011: Cristina é reeleita, e Dilma Rousseff (PT) vai à cerimônia
  • 2015: Mauricio Macri, do partido Proposta Republicana, não peronista, vence e Dilma vai à posse.

O único hiato se deu em 2002, mas o cenário político era diferente.

No fim de 2001, De la Rúa renunciou em meio à crise econômica, e três interinos passaram pelo poder em 11 dias. Em janeiro de 2002, o peronista Eduardo Duhalde assumiu às pressas como presidente provisório após ser eleito pelo Congresso — e não por voto popular, e não houve presidente brasileiro na cerimônia.

Ministro de Bolsonaro iria à posse

Divulgação
Imagem: Divulgação

Há cerca de um mês, o governo brasileiro havia afirmado que o ministro da Cidadania Osmar Terra (MDB) seria enviado para a posse de Fernández.

Ontem, no entanto, o jornal argentino Clarín afirmou que Bolsonaro cancelou a ida de Terra após o presidente da Câmara de Deputados do Brasil, Rodrigo Maia (DEM), ter se reunido com seu par argentino, Sergio Massa, e com o presidente eleito, Alberto Fernández,

Segundo a publicação, Bolsonaro teria se incomodado com a presença de dois legisladores "de esquerda" na comitiva que foi à Argentina.

Os líderes parlamentares que viajaram foram Aguinaldo Ribeiro (PP), líder da maioria na Câmara, Baleia Rossi (MDB), Paulo Pimenta (PT), Elmar Nascimento (DEM) e Orlando Silva (PC do B).

"Sinal muito ruim", diz analista

"É um sinal muito ruim. Dá a impressão de que Bolsonaro não está muito interessado no Mercosul e que talvez só se mantenha no bloco pela possibilidade da ratificação do acordo com a União Europeia", diz o analista Francisco de Santibañes, membro do Conselho Argentino de Relações Internacionais.

Segundo ele, "é um gesto político muito preocupante", já que "as bases da estabilidade na região em grande medida são consequência da aliança estratégica entre Argentina e Brasil desde o início da década de 80".

Como exemplo, cita que à época, planos nucleares deixaram de ser administrados pelos militares e passaram para a órbita civil.

A postura de Bolsonaro, segundo ele, é similar à de outros "líderes conservadores populares", como o norte-americano Donald Trump e o primeiro-ministro do Reino Unido Boris Johnson, que "desconfiam das organizações ou acordos internacionais porque lhes tira autonomia e margem de manobra".

Ex-embaixador argentino fala que Bolsonaro quer fixar "limite"

Para o ex-embaixador da Argentina no Brasil durante o kirchnerismo, Juan Pablo Lohlé, diretor do Cepei (Centro de Estudos Políticos Estratégicos Internacionais), a decisão reafirma a dureza da posição de Bolsonaro em relação a Fernández e sua vice, Cristina Kirchner.

"Não mandar representantes quando há uma relação bilateral tão forte é querer fixar um limite em relação a políticas anteriores do Brasil em relação à Argentina", diz Lohlé.

Ele pontua que visitas como a de Maia são comuns, mas que Bolsonaro pode ter interpretado como uma atuação divergente ao Itamaraty comandado pelo ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo.

O sociólogo Ariel Goldstein, autor do livro Bolsonaro: La democracia de Brasil en Peligro diz que o distanciamento, "sem coincidências e pontos em comum" entre os dois países, é inédito na relação bilateral e complementa:

"Não é uma questão menor para Fernández ter começado assim a relação com o principal parceiro comercial da Argentina".
Ariel Goldstein

Argentinos já faltaram à posses no Brasil

Se os brasileiros sempre vão às posses de presidentes argentinos, a recíproca não foi verdadeira.

Macri, por exemplo, não compareceu na posse de Bolsonaro em janeiro, quando estava de férias na Patagônia argentina. E Cristina Kirchner não participou da cerimônia de Dilma Rousseff, em 2015, por uma fratura no tornozelo.

Para De Santibañes, a ausência de Macri na posse de Bolsonaro também "foi um gesto político", para se diferenciar do brasileiro - cujo perfil conservador não é popular na Argentina -, mas isso não se tornou um problema devido às visões comerciais parecidas.

"Agora é mais complicado porque as visões não coincidem, então a diplomacia tem um papel ainda mais importante para acordos básicos e evitar conflitos desnecessários", defende.

Já Lohlé afirma que a partir de agora a política e a economia não devem convergir, e a política comercial bilateral "vai estar determinada pelo comércio e não pela política".

Por outro lado, o maior protecionismo mundial e a guerra comercial entre China e Estados Unidos, com possíveis impactos na região, reforçam a necessidade de diálogo e são um incentivo para conscientizar sobre a importância do Mercosul, segundo De Santibañes.

"É cada vez mais importante que Argentina e Brasil coordenem sua política exterior para não ficarem envolvidos no conflito, que pode nos prejudicar. Atuar de forma conjunta para negociar ou assumir posturas favorece interesses dos dois", avalia, esclarecendo: "Não precisa haver amizade, mas sim diálogo para evitar a falta de entendimento".

Para a Argentina, será necessária paciência para tentar manter a relação estratégica. "É o melhor para os dois países", conclui.

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