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Para Ricupero e Amorim, reputação do país no exterior é pior com Bolsonaro

Evento Renascença como os embaixadores Celso Amorim e Rubens Ricupero e mediação da professora Suhayla Khalil - Reprodução/Youtube/Diplomacia para Democracia
Evento Renascença como os embaixadores Celso Amorim e Rubens Ricupero e mediação da professora Suhayla Khalil Imagem: Reprodução/Youtube/Diplomacia para Democracia

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

08/09/2020 17h19

A condução da política externa brasileira na gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem criado uma reputação "muito pior" do país do que já foi no passado, avaliam os embaixadores Celso Amorim e Rubens Ricupero. Segundo eles, é preciso evitar que a tendência se confirme nos próximos anos.

"Depende de nós evitarmos que o futuro seja pior que o presente e pior que o passado", afirmou Ricupero durante evento de lançamento do Programa Renascença hoje. O documento, lançado pelo Instituto Diplomacia para Democracia, foi composto a partir de sugestões de outros diplomatas, servidores públicos e especialistas na área de relações internacionais para "recuperar" a reputação do Itamaraty.

"Você tem uma série de coisa atualmente que formam, no seu conjunto, um verdadeiro pesadelo", avaliou o ex-chanceler Celso Amorim no debate mediado pela professora Suhayla Khalil, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. "A possibilidade de pensar numa diplomacia pós-Bolsonaro eu já acho uma coisa extraordinária e muito positiva."

"Nós estamos vivendo agora um momento de destruição, como o próprio governo não se cansa de dizer. O próprio presidente já disse várias vezes que a missão dele é desconstruir o que tinha sido feito no passado. O nosso dever é resistir a essa obra de destruição, mas, ao mesmo tempo, lançar os fundamentos de uma construção futura", analisou Ricupero, que já foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na ONU e ministro do Meio Ambiente durante o governo Itamar Franco.

Uma das questões apontadas pelos diplomatas como prejudiciais para a política externa brasileira foi a decisão de declarar diplomatas venezuelanos 'persona non grata' na última sexta-feira.

Amorim, que foi chanceler durante três governos e ministro da Defesa durante o governo Dilma Rousseff, ressaltou a quebra de decoro diplomático em atitudes como essa. "Se você tem uma rixa com um país, uma rixa grave, o país te agrediu ou tomou uma medida extrema, declara-se 'persona non grata'. Pode-se declarar duas, três pessoas como sinal. Mas não entendo quando você declara todas as pessoas, inclusive oficiais de chancelaria ou pessoas de menor relevo político 'persona non grata' como o governo acabou de fazer com a Venezuela."

E relembrou que mesmo em épocas de conflito mundial não se usou termos para atacar outros países, como ocorre agora com o "comunavírus". "Nunca vi, nem no período pior da guerra fria, ou mesmo no Brasil depois de 64 durante uma guinada à direita, usarem expressões do tipo do 'comunavírus'."

"O governo usou esse estratagema de declará-los 'personas non gratas' e espero que isso não esconda alguma coisa mais sinistra, uma ação por exemplo de querer prendê-los ou processá-los ou coisas desses tipo, o que é bem possível", completou Rubens Ricupero, reforçando que atitudes assim ferem interesses do próprio Brasil "em nome de um governo que nunca existiu desse Juan Guaidó".

Ricupero elogiou o trabalho dos diplomatas para propor as mudanças futuras. "Esse movimento dos jovens diplomatas é um excelente exemplo concreto nessa direção. Talvez até o mais visível que eu tenha detectado até agora."

O embaixador ressalta que a ideia deveria ser expandida para outras áreas do governo, como saúde e educação. "Eu diria que a gente não deveria restringir apenas à área de política externa."

"Eu acho que uma das coisas que nós estamos precisando no Brasil, em todas as áreas, mas certamente na área da política internacional, é uma recuperação da razão", disse Amorim. "Gostaria de elogiar a coragem dos jovens diplomatas. Espero que sejam tão cuidadosos quanto corajosos".

O documento é uma versão zero com dez objetivos gerais e 100 metas específicas de sugestões para implementação na política externa e se propõe a ser uma "construção coletiva de política externa humanista, democrática e laica, baseada na Constituição Federal."

Entre os objetivos estão: a redução das desigualdades; promoção da equidade, da justiça e do respeito à diversidade; desenvolvimento sustentável; diálogo com a sociedade; integração regional; participação soberana; universalismo, diversificação e defesa da paz tratamento digno a usuários e funcionários, entre outros.

O documento cita:

  • a cooperação internacional, em especial junto à OMS, em termos de saúde;
  • a retomada do apoio ao Pacto Global para Migração, cuja participação do Brasil foi revogada pelo governo Bolsonaro;
  • a nomeação de chanceleres mulheres feministas;
  • o fortalecimento do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura;
  • o fortalecimento de parcerias para o financiamento de ações de adaptação;
  • e a mitigação à mudança do clima, incluindo o Fundo Amazônia; entre outros.

O Instituto escolheu a data de hoje para lançar o documento devido ao aniversário de 198 anos da independência do Brasil, comemorados ontem. "O bicentenário da independência, em 2022, efeméride que faz lembrar a importância da construção da soberania e do projeto nacional, constitui oportunidade para revisitar conceitos", diz o programa.

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