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Vaticano rejeita terapia de conversão gay pela primeira vez, diz site

Segundo site espanhol, Roma informou aos bispos do país que a prática não conta com respaldo eclesial. - Getty Images
Segundo site espanhol, Roma informou aos bispos do país que a prática não conta com respaldo eclesial. Imagem: Getty Images

Colaboração para o UOL

15/07/2021 20h33

Em um ato inédito, o Vaticano desautorizou o grupo católico civil da Espanha "Verdad y Libertad", amplamente vinculado com práticas conhecidas popularmente como "terapias de conversão homossexual". De acordo com a revista espanhola "Vida Nueva", a Santa Sé teria orientado os bispos do país para que informassem a associação de que estes procedimentos não contam com o respaldo da Igreja Católica.

Essa é a primeira vez que o Vaticano se manifesta diante desse tipo de prática, também conhecida como "Terapia de Reorientação Sexual", e que promete "tratamento" e "cura" da homossexualidade. Em 2013, a AMM (Associação Médica Mundial) condenou as terapias de conversão como "violações dos direitos humanos", considerando-as incompatíveis com a ética da ação médica.

A mensagem ao episcopado espanhol teria sido enviada por meio da Congregação para o Clero e foi uma das últimas decisões tomadas pelo cardeal italiano Beniamino Stella, até então prefeito da Congregação. Stella foi aposentado em junho pelo papa Francisco e substituído pelo sul-coreano Lazzaro You Heung-sik.

O grupo 'Verdad y Libertad" atua, principalmente, na cidade espanhola de Granada, onde mora o pediatra Miguel Ángel Sánchez Cordón, conhecido como o promotor da plataforma. Desde 2013, quando a prática começou a ser oferecida, jovens e adultos de todas as regiões da Espanha teriam se deslocado para lá em busca de uma possível "cura".

Segundo as apurações feitas pela revista "Vida Nueva", a decisão do Vaticano veio depois de uma exaustiva investigação em diferentes fases e que teria confirmado a participação de padres, religiosos e leigos católicos nas ações promovidas pela instituição que atua na Espanha.

A Santa Sé apresentou o seu relatório final sobre o caso durante a Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Espanhola, que aconteceu entre 17 e 23 de abril de 2021. Na ocasião, Roma teria pedido que os bispos não referendassem, não recomendassem e nem participassem dos tratamentos executados pelo grupo, "devido à metodologia e ao objetivo perseguido", afirma a "Vida Nueva".

A preocupação do papa com a "cura gay"

Em 2019, durante encontro com a ativista britânica gay Jayne Ozanne, que trabalha ativamente para acabar com a "terapia de conversão" na Inglaterra, o papa Francisco ouviu as aflições dos cristãos homossexuais e, segundo Ozanne, teria manifestado preocupação com a controversa prática.

No mesmo ano, em um discurso à AIDP (Associação Internacional de Direito Penal), Francisco falou sobre as ameaças ao bem comum que incluem o ressurgimento de "emblemas e ações típicas do nazismo", e citou as perseguições contra as "pessoas de orientação homossexual".

Para o papa, esses atos "representam o modelo negativo por excelência da cultura do descarte e do ódio".

Sinais divergentes sobre os direitos LGBTQIA+

Especialmente ao longo dos últimos meses, o Vaticano e o papa Francisco têm enviando diferentes sinais no que diz respeito ao posicionamento da Igreja Católica em relação aos direitos da comunidade homossexual, gerando muitas vezes confusão e frustração entre conservadores e progressistas católicos.

Em março desse ano, através de um documento assinado pela Congregação para a Doutrina da Fé, instituição encarregada de preservar o dogma católico, a Santa Sé esclareceu que, para a doutrina da Igreja, a homossexualidade é "um pecado" e que, portanto, padres e religiosos não podem abençoar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O documento lembrou que "Deus nunca cessa de abençoar seus filhos", mas "não abençoa e não pode abençoar o pecado". O texto foi publicado com o conhecimento do papa Francisco, cuja posição sobre a homossexualidade é menos contundente.

Em junho, apenas três meses depois do documento da Doutrina da Fé, Francisco enviou uma carta ao famoso padre jesuíta americano James Martin, para agradecê-lo por seu trabalho pastoral com a comunidade LGBTQIA+, por ocasião do webinar "Outreach 2021", realizado em apoio à causa.

No texto da mensagem, escrita pelo próprio papa em espanhol, o Pontífice afirmou que "Deus se aproxima com amor de cada um de seus filhos, de cada um e de todos eles. Seu coração está aberto a todos e a cada um deles. Ele é Pai".

Na mesma semana, a Santa Sé se envolveu em uma polêmica com o governo italiano ao se opor diplomaticamente a um projeto de lei em curso no Parlamento da Itália que tem como objetivo combater a homofobia e transfobia no país. Para o Vaticano, a lei iria privar os católicos de sua liberdade de expressão.

Na ocasião, o primeiro-ministro da Itália, Mario Draghi, disse em uma sessão do Senado que o país é "um Estado laico" e que seu Parlamento "é soberano".

Alguns dias depois, o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, precisou se explicar, e afirmou que a Santa Sé não pediu o fim do projeto de lei e que não tem nada contra os direitos dos homossexuais, apenas expressou suas preocupações por meio dos canais diplomáticos habituais.

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