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Opinião: Por que o Facebook tornou-se uma empresa comum e sórdida

Siva Vaidhyanathan

16/11/2018 04h00

Os dirigentes do Facebook não podem mais fingir que são pessoas especiais à frente de uma empresa especial. O Facebook agora virou só mais uma empresa americana comum e sórdida, dirigida por executivos comuns e sórdidos, empenhados em lobbies e propaganda corporativa comuns e sórdidos.

Graças a investigações aprofundadas feitas por uma equipe de repórteres do "The New York Times", hoje sabemos que o CEO Mark Zuckerberg passou boa parte do ano após as eleições presidenciais de 2016 alheio e indiferente ao monstro que ele havia criado. E sabemos que a diretora de operações da empresa, Sheryl Sandberg, diante de cobranças crescentes, estava tão desesperada para conter a queda no preço das ações do Facebook, que fez conchavo com algumas figuras suspeitas da política americana—inclusive uma consultoria republicana que busca sujeiras sobre adversários, e também com o líder da minoria no Senado Chuck Schumer, que interveio a favor da empresa dentro de seu partido.

Nos últimos três anos, ficou claro que o Facebook vem abusando da confiança de seus usuários, ao compartilhar dados pessoais com terceiros, como a Cambridge Analytica, abrigar involuntariamente propaganda apoiada pelos russos com o intuito de minar a democracia americana, amplificar incitações à violência religiosa e étnica em lugares como Sri Lanka e Mianmar e promover líderes autoritários e nacionalistas como Rodrigo Duterte nas Filipinas e Narendra Modi na Índia.

Enquanto essas histórias foram se acumulando e a confiança pública, se erodindo, segundo o "Times", Zuckerberg se isentava repetidamente de discussões cruciais com a equipe de segurança do Facebook e em geral agiu como se estivesse desconcertado com o questionamento sobre sua criatura. Afinal, segundo suas palavras, ele não queria somente "unir mais o mundo?"

A reportagem do "Times" deixa claro que a tática de Zuckerberg e Sandberg foi negligente e a agressiva, enquanto os problemas passavam de suas telas para as reuniões da diretoria.

Sandberg, veterana do governo Clinton e bem-conectada integrante da elite corporativa e cultural dos Estados Unidos, cobrou todos os favores que conseguiu e recorreu a alguns dos instintos mais baixos de aliados em potencial. Um fator crucial foi Sandberg ter trazido para a empresa lobistas republicanos como Joel Kaplan, visto recentemente dando apoio público ao velho amigo Brett Kavanaugh, durante suas tensas audiências de confirmação ao Supremo Tribunal.

Kaplan supostamente liderou o ataque interno para enfraquecer as denúncias do Facebook sobre a extensão dos ataques russos contra a democracia americana, por medo de irritar o presidente Trump e figurões conservadores. Sandberg apoiou Kaplan continuamente, negando ao público americano uma explicação completa sobre as tentativas de uma potência estrangeira hostil de influenciar uma eleição e, igualmente importante, a vulnerabilidade fundamental do Facebook em ser sequestrado por praticamente qualquer força determinada, ainda que pequena.

Sandberg também supostamente desencadeou uma campanha de propaganda que alavancou a máquina de memes de direita—a mesma máquina que tanto polui o Facebook com desinformação e boatos sobre a vida nos Estados Unidos. Talvez a alegação mais perturbadora na reportagem do "Times" seja de que os agentes de direita do Facebook tentaram associar alguns críticos famosos do Facebook ao investidor George Soros.

Considerando que Soros é o bicho-papão ideal em muitas das campanhas antissemitas recentes, deveríamos ficar chocados com o fato de o Facebook ter se rebaixado tanto. Enquanto se orgulhava de sua transparência e de sua preocupação com a saúde de nossas comunidades, o Facebook clandestinamente jogava com os próprios vilões que deturpam e poluem regularmente nossa cultura e nossa política.

Após meses de postergação e esquivas, e sob pressão intensa do senador Mark Warner, da Virgínia, membro sênior da minoria do Comitê de Inteligência do Senado, o Facebook finalmente revelou, no final de outubro de 2017, que a propaganda russa havia alcançado pelo menos 126 milhões de usuários americanos.

Dada a propensão da rede social em amplificar de forma algorítmica conteúdos que gerem polêmica, a professora da Universidade da Pensilvânia, Kathleen Hall Jamieson, conclui em seu novo livro "Cyberwar" que a atividade russa nas eleições de 2016 "não somente infectou a agenda dos veículos de notícias, como também mudou o equilíbrio do discurso em Estados decisivos, prejudicando a candidata do Partido Democrata".

Warner, um dos poucos nesse drama que parecem mais preocupados com o futuro da república do que com a perspectiva de contribuições de campanha do Facebook, tem sido um questionador tão consistente e firme que o líder de seu partido, Chuck Schumer, se sentiu obrigado a defender sua antiga amiga Sheryl Sandberg. Além disso, como o "Times" também aponta, a filha de Schumer é diretora de marketing do Facebook.

O "Times" relata ainda que ele Schumer disse para Warner recuar em suas cobranças à empresa. "O sr. Warner deveria estar procurando formas de trabalhar com o Facebook, aconselhou Schumer, e não de prejudicá-lo", teria declarado.

Schumer sempre foi um político movido a trocas. Mas o Facebook nem sempre foi uma simples empresa comum e sórdida. Ela se tornou isso recentemente, em grande parte como resultado da onda de problemas que tornou Zuckerberg.

Pela maior parte de sua história, o Facebook ganhou dinheiro demais para se importar com dinheiro e teve uma reputação forte demais para se preocupar com sua reputação. Era uma empresa de ouro. Enquanto Zuckerberg e Sandberg estampavam capas de revistas, o Facebook alçava voo na Bolsa e na imaginação das pessoas.

O que explica a covardia dos dirigentes do Facebook agora? Eles precisam perceber, como estudiosos das mídias sociais vêm alertando há muitos anos, que o Facebook é intencionalmente vulnerável. Todos os escândalos e crises que a empresa facilitou nos últimos anos são exemplos de que o Facebook está funcionando como deveria.

Três aspectos fazem do Facebook o que ele é (e também o tornam a plataforma ideal para trabalhar em nome de forças perigosas e violentas): escala, já que reúne posts de mais de 2,2 bilhões de pessoas em mais de cem idiomas; amplificação algorítmica, com a promoção de conteúdos radicais como discurso de ódio e teorias da conspiração em detrimento de trabalhos pensados, equilibrados e cuidadosos; e o melhor sistema de anúncio já criado. O Facebook consegue colocar propagandas na frente da pessoa que poderia responder a uma oferta de venda ou a um chamado para uma ação política e ignorar aquelas que não responderiam.

Zuckerberg e Sandberg não podem consertar o Facebook porque consertar o Facebook é descartar um ou mais desses atributos essenciais. O problema com o Facebook é o Facebook.

Estamos presos em um mundo criado pelo Facebook. Foi uma ideia terrível desde o início, mas enquanto anunciantes, autoritaristas e Chuck Schumer o protegerem, o Facebook enfrentará pouca pressão na maior parte do mundo.

Tudo que Zuckerberg e Sandberg precisam fazer é sobreviver a esse momento, gabar-se de terem feito uma boa tentativa de limpeza, e continuar com as contribuições de campanha. O Facebook vai ficar bem. A democracia, não.

Tradutor: UOL