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Desenganado, médico curado do ebola nos EUA teve delírio e perda de memória

O médico Ian Crozier, que contraiu ebola em Serra Leoa e foi tratado em Atlanta nos EUA, está curado da doença, não antes de travar uma luta de dias pela sobrevivência - Nick Cote/The New York Times
O médico Ian Crozier, que contraiu ebola em Serra Leoa e foi tratado em Atlanta nos EUA, está curado da doença, não antes de travar uma luta de dias pela sobrevivência Imagem: Nick Cote/The New York Times

Denise Grady

Em Phoenix

08/12/2014 14h17

O prontuário do caso de ebola era uma leitura desagradável, mas Ian Crozier não conseguia parar de ler. Poucos dias após o primeiro sintoma, uma dor de cabeça, o paciente estava lutando por sua vida. Ele tornou-se delirante, seu batimento cardíaco ficou irregular, seu sangue fervilhava com o vírus e seus pulmões, fígado e rins começaram a falhar.

“Parece horrível”, disse Crozier.

E era dele mesmo. Crozier, de 44 anos, contraiu a doença em Serra Leoa enquanto tratava de pacientes de ebola no hospital do governo em Kenema. Ele foi levado para o Hospital Universitário de Emory, em Atlanta, no dia 9 de setembro, o terceiro americano com ebola a ser levado para lá por via aérea da África Ocidental.

Ele teve uma longa e agonizante doença, com 40 dias de internação e momentos sombrios, quando seus médicos e sua família temiam que ele fosse sofrer danos cerebrais ou morrer. Sua identidade foi mantida em segredo a seu pedido, para proteger a privacidade de sua família.

Agora, pela primeira vez, ele está falando. A razão, segundo ele, é para agradecer ao hospital Emory pelo cuidado extraordinário que recebeu e chamar a atenção para a epidemia. Ele e sua família concederam suas primeiras entrevistas para o “The New York Times”, e deram permissão para que seus médicos fossem entrevistados.

Seu relato oferece vislumbres das dificuldades e perigos que confrontam os médicos e enfermeiros que se voluntariaram para lutar contra uma epidemia que já causou a morte de mais de 330 profissionais de saúde --na maioria africanos-- e da necessidade desesperada que o levou à linha de frente. Crozier contou sobre três irmãos, de apenas 4, 5 e 11 anos de idade, que lutaram por suas vidas em sua enfermaria em Kenema. Pouco tempo depois, ele estava em uma sala de isolamento no Emory, quase morto, com sua mãe lendo poesia para ele pelo interfone.


Crozier, de fala mansa e amável, agora está se recuperando em Phoenix, onde moram seus pais e sua irmã. Mas a doença teve um custo. Ele, que pesava 100 kg com 1m95 antes de pegar ebola, perdeu 15 quilos, na maior parte de massa muscular. Ele se cansa facilmente, mas começou um duro programa de fisioterapia para reconstruir os músculos perdidos.

“Ian foi, de longe, o paciente mais doente com ebola que nós cuidamos no Emory”, disse Jay B. Varkey, especialista em doenças infecciosas.

Os médicos dizem que sua recuperação lhes ensinou que tratamentos agressivos, até mesmo medidas extremas de suporte à vida, como respiradores e máquinas de diálise, podem salvar alguns pacientes com ebola. Bruce S. Ribner, que chefia a equipe do Emory, disse que, até recentemente, não se entubava nem se fazia diálise em pacientes com ebola porque quando chegam a ficar tão doentes é porque vão morrer.

“Uma das coisas que Ian nos ensinou foi que, adivinhem, você pode ficar doente o suficiente para precisar das intervenções e ainda assim pode sair do hospital”, disse Ribner. “Eu acho que o caso dele enviou uma mensagem para os nossos colegas ao redor do mundo”.

Momentos de alegria na crise

Crozier nasceu em Bulawayo, na Rodésia (atual Zimbábue), mas sua família se mudou para os Estados Unidos quando ele tinha 10 anos, e ele se tornou um cidadão americano. Ele estudou medicina na Universidade de Vanderbilt, com uma bolsa de estudos, e especializou-se em doenças infecciosas.

Ele sempre era atraído de volta para a África. Quando o ebola eclodiu na África Ocidental, ele estava morando em Uganda, tratando pacientes com HIV e treinando médicos do Instituto de Doenças Infecciosas em Kampala. Ele queria ajudar.

“Todos que estavam na África e não estavam na África Ocidental podiam pensar que estavam perdendo o bonde, perdendo algo extraordinário”, disse ele. “E minhas habilidades atendiam as necessidades”.

Crozier fechou contrato com a Organização Mundial de Saúde --somente as despesas, sem remuneração-- e em agosto estava em Kenema. Ele planejava ficar três ou quatro semanas.

A situação era muito mais desesperadora do que ele tinha imaginado --as imagens, os sons, os cheiros, o fluxo constante de mortos. Muitas vezes, havia de 60 a 80 pacientes, às vezes mais, casos suspeitos e confirmados, de todo o país. Eles chegavam de dia e à noite.

O sangue, fezes e vômito estavam sempre presentes, embora os serventes limpassem o chão com cloro várias vezes ao dia. Havia um coro de pacientes delirantes com olhos vermelhos e estranhamente vagos, gritando “Doutor! Doutor!”, sem parar. Alguns estavam doentes demais para se limparem ou se alimentarem, e nunca havia funcionários suficientes para cuidar deles. Um paciente podia estar em um leito e um cadáver no leito ao lado, esperando para ser desinfetado, ensacado e levado embora.

“Essas enfermarias de isolamento são lugares horríveis”, disse Crozier.

Mas havia momentos de graça. As mães que perderam seus bebês alimentavam as crianças que ficavam órfãs ou sozinhas.

“Os pais sem filhos cuidavam das crianças sem pais”, disse ele.

O equipamento de proteção necessário para entrar na enfermaria --capuz, máscara, bota de borracha, óculos de proteção, luvas duplas, macacão impermeável-- era sufocante. Ninguém pode usá-lo por mais de uma hora sem se tornar perigosamente superaquecido. Crozier ia para a enfermaria duas ou três vezes por dia, pelo tempo que podia suportar. Quando ele saía para se refrescar, derramava o suor de suas botas.

Uma noite, três jovens irmãos foram trazidos. Todos estavam infectados. A mãe havia morrido e o pai era ausente.

“Eu não achei que eles fossem sobreviver”, disse Crozier.

O mais velho, Victor, 11, era o que estava mais doente. Crozier, que também era o mais velho dos quatro filhos em sua família, viu um pouco de si mesmo em Victor. O menino havia assumido o papel de pai, e mesmo quando estava deitado em um colchão no chão, sujo por vômito e diarreia, os mais jovens, Shaku e Ibrahim, não o deixavam.

“Era um grupinho de irmãos”, disse Crozier. Às vezes, o médico tinha vontade de arrancar o seu equipamento de proteção e abraçá-los.

A última coisa que fazia à noite era se certificar de que eles e as outras crianças tivessem comido.

Todas as manhãs, quando voltava para a enfermaria, achava que encontraria um ou mais dos irmãos mortos. Mas eles sempre o surpreendiam.

“Eles meio que se apoiaram entre si”, disse ele.

Os irmãos recuperam-se o suficiente para correr em volta da ala com outras crianças --incluindo dois meninos chamados Sucesso e Coragem-- brincando, rindo e fazendo bagunça, disse Crozier.

“Em um lugar tão sombrio, eram pequenos momentos de alegria”, disse ele.

Os irmãos sobreviveram, mas outros como eles não.

Luta pela sobrevivência

Muitos enfermeiros locais haviam contraído ebola e morrido em Kenema. Voluntários de outros países também se infectaram, e Crozier organizou os voos de evacuação médica para vários deles. Ele nunca imaginou que se tornaria um passageiro naquele avião.

Na manhã de sábado, 6 de setembro, durante a ronda pela enfermaria, ele apresentou febre e dor de cabeça. Ele se isolou em seu hotel, esperando que estivesse com malária. Uma colega trouxe o material para que Crozier pudesse colher seu próprio sangue e fizesse o exame para ebola.

Ela ligou para ele na manhã seguinte, chorando: seu teste de ebola dera positivo.

Ele não tinha ideia de como havia se infectado.

O avião foi buscá-lo na segunda-feira. A Organização Mundial de Saúde pagou pelo voo e pela assistência médica. Nem a OMS nem o Emory quiseram fornecer uma estimativa de custos, mas um porta-voz do Emory reconheceu que o tratamento de pacientes de ebola é muito caro.

Crozier tirou fotos de si mesmo durante o voo, enquanto seu rosto inchava e desenvolvia uma erupção cutânea. Talvez fosse uma maneira de se desligar do medo, disse ele.

“Eu já tinha visto sete, oito, nove, dez pessoas morrerem por dia daquilo”, disse ele, acrescentando: “Se eu tivesse ficado em Kenema, teria morrido em uma semana.”

Ele não tem nenhuma lembrança das três semanas após chegar ao Emory. A unidade de isolamento havia sido construída 12 anos antes, a pedido dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, que fica a menos de dois quilômetros de distância.

Varkey, o especialista em doenças infecciosas, disse que havia sinais de alerta de que Crozier poderia ficar gravemente doente. A carga viral no sangue era extremamente elevada, mais do que cem vezes maior do que a dos outros pacientes que o Emory havia tratado. E ele estava delirando, um sinal de encefalite. Os médicos não sabem por que alguns pacientes ficam muito mais doentes do que outros. A idade de Crozier pode ter atrapalhado: pessoas com mais de 40 anos tendem a ter resultados piores do que as mais jovens.

Seus familiares e sua namorada estavam aterrorizados, assistindo a ele piorar. Eles não podiam entrar no quarto; só podiam vê-lo através de uma janela e conversar com ele por um interfone. Sua temperatura era de 40 graus Celsius. Suas mãos tremiam violentamente. Ele passava cada vez mais tempo dormindo ou afundado em delírio, sua mente ainda em Kenema.

A família tinha sido avisada que o ebola muitas vezes provoca diarreia intensa, e que os pacientes podem perder de sete a dez litros de líquido por dia, e Crozier estava chegando a esse estágio. Os médicos iam administrar líquidos e sais para prevenir a desidratação que mata muitos pacientes de ebola. A família pensava que, se ele conseguisse ultrapassar essa fase, ia começar a melhorar.

Ao contrário, ele piorou. Na sexta-feira ele estava lutando para respirar, com o peito arfando. Seus parentes sofriam de ver. Na manhã de domingo, ele foi colocado em um respirador artificial.

“Aquilo parecia significar que estava nas fases finais”, disse sua irmã, Anne.

Uma enfermeira, Will Pooley --que também tinha sido infectada em Kenema e cuja evacuação Crozier tinha supervisionado-- voou da Inglaterra para o Emory e doou várias unidades de plasma. Os sobreviventes têm anticorpos que podem ajudar a combater o vírus, e uma série de pacientes recebe essas transfusões.

Os níveis do vírus de Crozier começaram a cair, mas os rins falharam, e ele foi conectado a uma máquina de diálise. Ele inchou com 9 quilos de excesso de líquido, e tudo o que seus parentes podiam ver através da janela eram tubos, máquinas e um rosto inchado que mal reconheciam. Os batimentos cardíacos de Crozier estavam anormais. Os médicos alertaram talvez ele não fosse sobreviver.

Ele ficou no respirador por 12 dias e em diálise por 24. Os membros da sua família liam para ele os e-mails de amigos, tocavam sua música favorita e repetiam para ele que ele ficaria bem. Eles deram às enfermeiras dezenas de fotos da família para que elas as pregassem na parede.

Sua mãe, Pat, passava a maioria das noites no hospital. Ela conversava com o filho, cantarolava para ele e todos os dias lia um poema que seu irmão no Zimbábue, o poeta e romancista John Eppel, havia escrito para ele. O poema lembrava de Crozier como um menino careca, de cabeça grande, travando uma guerra de sementes de cinamomo, “a criança que eu carreguei em meus ombros para cima e para baixo pelas estradas de terra”.

Pat Crozier tinha sido uma enfermeira-parteira, e portanto estava dolorosamente consciente dos sinais de deterioração da saúde do filho.

“A parte realmente difícil foi pensar que ele ia morrer e que eu não ia poder tocá-lo antes de ele deixar a terra”, disse ela. “Ele iria em um saco plástico para o CDC para a pesquisa ou seria incinerado rapidamente”.

Voltando do abismo

Ele começou a se recuperar fisicamente. Mas havia sinais ameaçadores de que poderia ter sofrido danos cerebrais: seus olhos vagavam em direções diferentes, e ele levou muito tempo para acordar quando sua sedação foi retirada.

“Eu pensei que íamos ter que levá-lo para um lar de idosos como uma pessoa com deficiência cognitiva”, disse Colleen Kraft, uma das médicas da equipe. Ela disse que o duro percurso a deixara “psicologicamente pessimista” e que ficou hesitante em tratar mais pacientes com ebola, por medo de que pudessem estar tão doentes quanto Crozier.

Quando ele finalmente abriu os olhos, no final de setembro, poucos dias depois de completar 44 anos, ele olhou ao redor da sala como um bebê recém-nascido, segundo sua irmã, Anne. Ela falou suavemente através do interfone, como se ele fosse uma criança. Sua voz, assegurando-lhe que estava tudo bem, é a primeira coisa da qual ele se lembra.

No início, ele teve problemas para conversar. Mas questionou os médicos sobre seus exames laboratoriais, então sua família sabia que sua mente estava intacta.

Há lesões e cicatrizes em suas retinas, e não está claro se estão melhorando ou piorando. Embora as pessoas ao seu redor não notem, ele disse que sua mente não está trabalhando tão rápido quanto deveria, e às vezes tem problemas para se lembrar da palavra que quer dizer.

“É um temor”, disse ele. “Será que vou ser eu mesmo de novo, completamente?”

Crozier espera voltar para a África Ocidental até fevereiro ou março para ajudar a tratar mais pacientes com ebola. Acredita-se que os sobreviventes são imunes à cepa que os infectou, por isso ele acha que está protegido.

“Ainda há muito a ser feito”, disse ele.