O que o discurso de Trump revela sobre a "identidade dos brancos" nos EUA?

Nicholas Confessore

  • Damon Winter/The New York Times

    Simpatizantes participam de campanha de Donald Trump, em Sacramento, Califórnia

    Simpatizantes participam de campanha de Donald Trump, em Sacramento, Califórnia

O canto tem início em um auditório de faculdade em Washington, enquanto admiradores de uma personalidade conservadora na internet buscavam abafar um manifestante negro. Ele ecoa pelo ginásio de um colégio na região central de Iowa, enquanto estudantes brancos provocavam os torcedores e jogadores latinos de uma equipe rival. É gritado por um motociclista solitário, enquanto parte de um posto de gasolina no Kansas após uma discussão com um latino e seu amigo muçulmano.

Trump

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Em incontáveis choques de cor e credo, o nome de Donald Trump evoca uma mensagem facilmente compreensível de hostilidade racial. Desafiando as convenções modernas de linguagem e civilidade política, Trump rompeu fronteiras que há muito restringiam a discussão pública de raça entre os americanos.

Trump atacou mexicanos como sendo criminosos. Pediu a proibição de imigrantes muçulmanos. Ele se perguntou em voz alta por que os Estados Unidos não "permitem a entrada de pessoas da Europa".

Seus comícios vibram com queixas que só seriam expressadas de forma privada: sobre a "correção política", sobre a casa de fazenda no fim da rua lotada de diaristas, sobre quem é realmente culpado pela morte de um adolescente negro em Ferguson, Missouri. Em um país onde os cidadãos mais ricos e mais influentes ainda são na maioria brancos, Trump está dando voz ao espanto e raiva dos brancos que não se sentem poderosos ou privilegiados.

Mas ao fazê-lo, Trump também abriu a porta para afirmações da identidade branca e ressentimento, de uma forma não vista tão escancaradamente na cultura americana em mais de meio século, segundo aqueles que monitoram os padrões de tensão racial e antagonismo na vida americana.

Em campi universitários engajados em debates sem perdão em torno de linguagem e inclusão, alguns estudantes abraçam Trump como forma de se rebelarem contra as regras intrincadas que cercam o privilégio e microagressão, provocando os mantenedores dessas regras."

Ty Wright/The New York Times
Donald Trump (com caneta na mão) acena para simpatizantes durante campanha

Entre os brancos mais velhos incomodados pelos novos vizinhos de língua espanhola, ou com suspeita da fé dos inimigos mais amargos de seu país, seu nome é um chamado às armas.

Pela internet, Trump é invocado por seguidores anônimos brandindo expressões de ódio e antissemitismo, surpreendentemente amplificado neste mês quando Trump tuitou uma imagem do rosto de Hillary Clinton com pilhas de dinheiro e uma estrela de seis pontas, que muitos viram como sendo a Estrela de Davi.

"Acho que o que realmente nos perturba é a popularização dessas ideias realmente ofensivas", disse Jonathan Greenblatt, diretor nacional da Liga Antidifamação. "Está sendo permitido que algumas das piores ideias ingressem na conversa pública de formas que não víamos na memória recente."

Trump se recusou a ser entrevistado para este artigo e seu porta-voz se recusou a comentar.

Do lado de fora de uma antiga fábrica de aviões em Bethpage, Nova York, não distante de uma área de açougues halal (de acordo com a lei islâmica) e restaurantes indianos agora conhecida como Little India (Pequena Índia), uma dona de casa de Long Island, que disse se chamar Kathy Reb, explicou como assistiu a mudança do aspecto de seu subúrbio fora da cidade de Nova York.

"Todos se mantêm em seus grupos", ela disse, "de modo que os brancos também o fazem".

O ressentimento entre os brancos parece ao mesmo tempo velho e característico deste momento. Ele é moldado pela realidade da mudança demográfica, por uma década e meia de guerra no Oriente Médio, pelo desconforto com o ativismo agora confiante e confrontativo dos jovens negros, furiosos com a violência policial. Ele se mistura com patriotismo, orgulho, medo e um senso de que uma América sem eles em seu centro não é mais a América.

Nos meses desde que Trump deu início à sua campanha, o percentual de americanos que dizem que as relações raciais estão piorando aumentou, chegando quase à metade em uma pesquisa em abril pela "CBS News". O aumento mais acentuado foi entre os republicanos: 60% disseram que as relações raciais estão piorando.

Ao tornar mais disseminada a afirmação explícita da identidade branca e suas queixas, Trump mobilizou o mundo marginal dos nacionalistas brancos e dos autodescritos "realistas raciais". Eles o saúdam como um companheiro de viagem que fez com que milhões de americanos brancos abraçassem intuitivamente seus ideais: de que raça importa tanto para as pessoas brancas quanto para todas os demais. Segundo esses ativistas, ele libertou os americanos para dizerem o que realmente acreditam.

"A discussão que os americanos brancos nunca querem ter é esta questão de identidade: quem somos?", disse Richard Spencer, 38 anos, um escritor e ativista cuja organização sem fins lucrativos em Montana é dedicada a "herança, identidade e futuro das pessoas de origem europeia" nos Estados Unidos. "Ele está trazendo a política de identidade das pessoas brancas para a esfera pública de uma forma que ninguém fez.

Nas redes sociais, a fronteira entre Trump e os supremacistas brancos facilmente fica indistinta. Ele retuitou mensagens de apoio de contas racistas ou nacionalistas no Twitter para seus 9 milhões de seguidores. No ano passado, ele retuitou um gráfico com estatísticas fictícias de crime alegando que 81% das vítimas de homicídio brancas em 2015 foram mortas por negros. (Não havia nenhuma estatística disponível para 2015 àquela altura; o número de fato para 2014 era 15%, segundo o FBI, a polícia federal americana.)

Na verdade, a presença de Trump no Twitter é firmemente entrelaçada com hordas de contas, em sua maioria anônimas, que exploram ataques racistas e antissemitas. Quando a Little Bird, uma empresa de mineração de dados das redes sociais, analisou uma semana de atividade de Trump no Twitter, ela descobriu que quase 30% das contas retuitadas por Trump seguiam por sua vez uma ou mais das 50 contas populares que se autoidentificam como sendo de nacionalistas brancos.

Trump rebate aqueles que o acusam de abraçar ou facilitar o racismo. "Sou a pessoa menos racista que existe", ele declarou em dezembro em uma entrevista à rede de televisão "CNN".

Stephen Crowley/The New York Times
O republicano Patrick J. Buchanan faz campanha em Washington, em outubro de 1995

Outro republicano já soou alarmes no passado a respeito da globalização, imigração descontrolada e o risco de obsolescência da cultura euro-americana. Mas em suas duas disputas pela indicação republicana, aquele candidato, Patrick J. Buchanan, venceu em um total de quatro Estados. Trump venceu em 37.

As campanhas de Buchanan de 1992 e 1996 foram repudiadas como um beco sem saída político e intelectual para os republicanos.

"Eu disse: 'Olhem, somos o partido branco'", disse Buchanan em uma entrevista, lembrando de seus ataques ao multiculturalismo e imigração. "'Se isso continuar, seguiremos o caminho do (extinto Partido) Whig.' Todos disseram: 'Que coisa terrível de se dizer'."

Buchanan fez campanha tendo como fundo o domínio político e cultural dos brancos nos Estados Unidos. Mas nos anos que se seguiram, o número de imigrantes vivendo nos Estados Unidos ilegalmente dobraria e depois triplicaria, antes de estabilizar sob o governo Obama em torno de 11 milhões. A desindustrialização, movida em parte pelo comércio global, devastaria as fortunas econômicas de homens brancos acostumados a ter uma renda decente mesmo sem um diploma universitário.

"Foram as mudanças que ocorreram que criaram o eleitorado nacional para Donald Trump", disse Buchanan.

Para muitos americanos, a eleição do presidente Barack Obama sinalizou um momento transcendente na complicada história racial do país. Mas para alguns brancos, a eleição do primeiro presidente negro do país também foi um símbolo poderoso do declínio de sua primazia na sociedade americana.

O trabalho de Michael I. Norton, um professor da Escola de Negócios de Harvard, sugere que os brancos passaram a ver o preconceito contra os brancos como mais predominante do que o preconceito contra os negros. Em programas de rádio e na "Fox News", as queixas de intolerância são rotineiramente rejeitadas como mero golpe, negros fazendo uso da "carta racial" ou sendo eles mesmos racistas.

Michael Tesler, um cientista político da Universidade da Califórnia, em Irvine, usou perguntas de pesquisa sobre desigualdade racial para classificar as pessoas como "conservadoras raciais" ou "liberais raciais". Durante os dois mandatos de Obama, Tesler descobriu que os liberais raciais aceleraram sua migração para o Partido Democrata. Quando a campanha de 2016 teve início, o Partido Republicano se transformou, usando a frase de Tesler, no partido do conservadorismo racial.

Poucos políticos estavam mais bem preparados que Trump para explorar essas mudanças. Apesar do racismo aberto contra os negros permanecer um dos tabus mais poderosos na política americana, os americanos se sentem mais livres para expressar preocupações com os imigrantes ilegais e/ou não gostar do Islã, como mostram levantamentos. Nas mãos de Trump, as duas ideias se mesclam: durante a presidência de Obama, ele se tornou o mais proeminente "birther" dos EUA, aqueles que questionam a cidadania americana de Obama e que sugerem que ele pode ser um muçulmano.

Trump "está expressando uma mensagem antioutro, que Obama é estrangeiro, o que se mistura com ser negro e com as percepções de que é muçulmano", disse Tesler. "É um discurso que abrange tudo para expressar a oposição etnocêntrica a Obama, sem dizer que você é contra ele por ele ser negro."

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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