Ninguém escapa do engarrafamento olímpico do Rio. (Nem as autoridades)

Rebecca R. Ruiz e Ken Belson*

No Rio de Janeiro

  • Jeffrey Furticella/The New York Times

    Carros oficiais usados na Olimpíada do Rio de Janeiro

    Carros oficiais usados na Olimpíada do Rio de Janeiro

É assim que as autoridades olímpicas esperam que funcione nos jogos de verão: elas saem de seu hotel ou de uma instalação esportiva e um veículo oficial da Olimpíada --geralmente um Nissan Versa decorado com o colorido logotipo dos Jogos do Rio-- as está esperando para levá-las ao próximo destino.

Mas nem sempre é assim que funciona aqui, o que causa tensão nas relações entre altas autoridades olímpicas e o grupo responsável pela execução do evento. Não tem havido carros suficientes à espera, e muitos motoristas designados para conduzir as autoridades não conhecem o caminho para alguns locais.

"Quando você está acostumado a ter as coisas assim que pede, é uma adaptação ouvir que vai demorar mais 15 minutos", disse Anna Roch, uma voluntária de Londres que passa os dias na frente do Hotel Windsor Marapendi, à beira-mar, onde estão hospedados membros do Comitê Olímpico.

A Olimpíada trouxe atletas de classe internacional ao Rio. Ela também trouxe problemas de transporte de classe internacional. Estes podem ser vistos nas ruas, onde o tráfego gerado pelos Jogos transformou trajetos de 30 minutos em jornadas que duram horas. Eles também estão em qualquer lugar onde autoridades olímpicas desejem um meio de transporte.

"Mais que nos outros Jogos, você tem de prever mais tempo para o transporte", disse Patrick Baumann, um membro do comitê olímpico da Suíça que recentemente, quando desejava um carro para ir ao centro de tênis, caminhou na chuva porque não havia veículos disponíveis. "Não vou esperar. Posso andar. É um bom exercício físico."

Com agendas cheias de reuniões, conferências e recepções, nem todas as autoridades estão projetando a calma pragmática de Baumann.

"Todo mundo está com pressa", disse Roch, notando que a maioria das pessoas do Hotel Olímpico estava indo para outros hotéis. "Você se lembra daqueles onde você grita e se lembra dos que lhe dão tíquetes."

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Para as autoridades globais, os atrasos resultaram em uma boa dose de resmungos.

Mario Andrada, um porta-voz do Comitê Organizador dos Jogos do Rio, disse que seu grupo está tentando melhorar a situação depois de receber queixas de membros do Comitê Olímpico.

"Meio que deixamos a bola cair no início", disse Andrada. "Você pode deixar a bola cair em várias áreas que ninguém percebe, mas não no transporte."

Andrada acrescentou sobre as autoridades olímpicas: "Trinta segundos, 40 segundos e já é: 'Onde está meu carro?'"

Segundo Andrada, os organizadores nos últimos dias tentaram contratar mais motoristas pagos, em vez de usar voluntários, que não foram confiáveis nos turnos, muitas vezes atrapalhados por seus próprios problemas de transporte. Em outras palavras, a Olimpíada criou tais problemas de tráfego que alguns responsáveis por oferecer transporte não conseguem chegar ao trabalho.

Na tarde de segunda-feira (15) --com uma semana e meia de Jogos--, Roch disse que faltaram carros diante do Hotel Olímpico, com seis ou sete pessoas na fila em certo ponto, esperando de 10 a 15 minutos.

Os problemas, entretanto, não foram apenas uma questão de quando os veículos vão chegar. "Muitos motoristas não sabem aonde vão", disse Roch.

Ademir Xavier, o motorista designado para Tony Estanguet, vice-presidente da Federação Internacional de Canoagem, disse que estava difícil navegar pelo tráfego olímpico.

Faixas especiais para as autoridades, marcadas com linhas verdes luminosas, permitem que os carros oficiais andem mais rápido, mas essas faixas não percorrem toda a cidade, nem chegam à avenida muito congestionada à beira-mar onde ficam os hotéis olímpicos.

Xavier, um assistente social que decidiu ser motorista para ganhar um dinheiro extra, disse que certo dia levou duas horas para voltar do local das provas de canoagem ao Hotel Olímpico.

Mas quando estacionava e esperava por Estanguet, disse ele, podia passear pela calçada da praia ou navegar na internet com seu celular.

Enquanto isso, Andrada disse que o Parque Olímpico foi projetado tendo em mente o transporte público, não necessariamente veículos privados.

"Chegar lá de táxi é complicado", disse Andrada no parque. "E sair de lá de táxi é um pesadelo."

Os moradores não são muito simpáticos. Chegar a qualquer lugar nesta cidade extensa sempre foi um desafio. Mas a rígida segurança e as faixas olímpicas especiais criaram bloqueios significativos, desvios e pistas fechadas.

O que me deixa realmente furiosa é que mesmo com oito anos de preparativos os organizadores planejaram para ser assim, sabendo como impactaria uma grande parte da força de trabalho local" Tatiana Lima, 37, uma estudante de doutorado que trabalha na ilha do Fundão, na zona norte do Rio

Uma autoridade do governo foi vaiada depois que disse a torcedores para saírem dos locais olímpicos mais cedo para garantir que chegariam ao metrô antes do encerramento, à 0h. Uma ilustração foi divulgada nas redes sociais mostrando veículos rodando em círculos, nas formas e cores dos anéis olímpicos.

"O transporte público, tivemos alguns problemas nas sessões tarde da noite, especialmente durante a natação, porque era muito tarde", disse Andrada, afirmando que o transporte público é responsabilidade do governo.

Mas mesmo agora que a natação terminou "o transporte continua um problema", em vários meios, disse Andrada na terça-feira.

Lima disse que seu percurso de 10 km, que geralmente leva cerca de meia hora, aumentou para mais de duas horas desde que começou a Olimpíada. Ela encontrou uma rota alternativa que corta o percurso pela metade, mas exige tomar dois ônibus e um metrô.

O transporte é um desafio em todas as Olimpíadas, com redes de rotas de ônibus aleatórias e faixas VIP criadas para levar e trazer milhares de pessoas dos locais esportivos. O temor de congestionamentos épicos, como em Los Angeles em 1984 e Londres em 2012, leva alguns moradores a deixar a cidade, o que diminui a superlotação para os que ficam.

Mas o congestionamento no Rio foi diferente. Para evitar as estradas, muita gente improvisou. Alguns membros da equipe olímpica holandesa, por exemplo, têm usado bicicletas para evitar o trânsito.

O prefeito decretou vários feriados extras para manter as pessoas fora das ruas, mas alguns trabalhadores, sem suportar os tempos de viagem mais longos, deixaram totalmente de ir aos empregos.

Os moradores se defendem como podem. Marcos Bokel, um analista de tecnologia que vive na Barra da Tijuca, perto do Parque Olímpico, estava no tráfego "anda-e-para" na segunda-feira a caminho do trabalho na zona sul, em Botafogo.

Seu ônibus se arrastava por Copacabana por causa da competição de natação de longa distância. Ele levou 90 minutos para percorrer 3 quilômetros.

"Eu pensei em descer e caminhar hoje", disse, rindo. Mas com a temperatura ao redor de 32ºC Bokel não quis chegar ao escritório suado e cansado.

"As pessoas no ônibus ficam muito irritadas, queixando-se da demora", disse ele, acrescentando que os engarrafamentos o obrigaram a chegar atrasado ao trabalho quatro vezes desde que os Jogos começaram. "É um clima de muita ansiedade."

* Jean Kaiser colaborou na reportagem.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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