Na linha de frente dos protestos na Venezuela, voluntários da Cruz Verde lutam para salvar vidas

Megan Specia

  • Ariana Cubillos/AP

    Voluntários da Cruz Verde atuam durante protesto em Caracas, na Venezuela

    Voluntários da Cruz Verde atuam durante protesto em Caracas, na Venezuela

Um adolescente fica caído no chão após um confronto com a polícia.

"Médico, médico!", grita um jovem através da espessa nuvem de gás lacrimogêneo em um protesto em Caracas, na Venezuela. 

Os médicas que ele estava chamando, conhecidos como a Cruz Verde, se tornaram uma figura regular nos confrontos violentes entre manifestantes da oposição e forças do governo. Mais de 90 pessoas já morreram desde que as manifestações começaram em abril, e os médicos voluntários se viram cuidando de uma série de ferimentos, desde arranhões até grandes feridas na cabeça.

Um vídeo mostrou voluntários da Cruz Verde se aglomerando em torno do adolescente ferido, Neomar Lander, 17, e levando-o para fora dos confrontos.

Lander mais tarde morreu.

Mas os organizadores do grupo dizem que eles tratam dezenas de pacientes diariamente e acreditam que os primeiros cuidados que proporcionam têm sido cruciais para salvar vidas. O quase colapso da economia venezuelana devastou instalações médicas e linhas de suprimento, limitando a capacidade de ação dos serviços de emergência estatais nos protestos, segundo o grupo.

O grupo voluntário de jovens médicos e estudantes de medicina se tornou um símbolo de como os venezuelanos estão tentando suprir funções governamentais cruciais. 

Federica Davila, estudante de medicina que ajudou a fundar a Cruz Verde, afirmou que os manifestantes cercam os voluntários antes de cada protesto, cantando e rezando por proteção para eles.

"É uma experiência incrível porque começamos caminhando com a equipe e enquanto caminhamos as pessoas começam a bater palmas e chorar", diz Davila. 

Davila e um grupo de estudantes de medicina da Universidade Central da Venezuela se organizaram em 2014 para responder a manifestações da oposição, quando viram a necessidade de voluntários além das tradicionais ambulâncias.

"Um grupo de amigos decidiu que queria ajuda", disse Davila. "Que maneira melhor do que fazer o que sabemos e praticar todos os dias?"

Ariana Cubillos/AP
Voluntários da Cruz Verde retiram jovem ferido de protesto em Caracas

Ela disse que o cruz do grupo é uma referência ao símbolo já conhecido de primeiros socorros, mas que os membros escolheram o "Verde" como nome para se diferenciar da Cruz Vermelha Internacional. 

Eles são organizados e metódicos quando chegam a cada protesto, diz Davila, estabelecendo diversas "zonas" de onde podem avaliar as pessoas precisando de atendimento. 

"Caminhamos junto com os manifestantes, formando uma fila", disse Davila. "Cada líder do grupo tem uma bandeira, para que as pessoas possam nos localizar se precisarem de atenção médica."

O grupo não tem alinhamento político com nenhum partido, apesar de que algumas autoridades o vejam como parte da oposição. Os voluntários às vezes se veem em desacordo com a polícia e os membros da Guarda Nacional empregados nos protestos.

Fernando Llano/AP
Voluntário da Cruz Verde fazem fila às margens de protesto em Caracas

Ela diz que algumas autoridades os deixam ajudar os outros "mas outros são muitos violentos e nos fazem sair".

Segundo Davila, no início dos protestos, os voluntários tinham de usar as unhas para retirar detritos dos ferimentos. "Não tínhamos nada, nem mesmo gaze."

O grupo agora tem caixas para doações em espaços públicos em diversas partes do país, e apoio dentro da Venezuela e internacional tem deixado os suprimentos cheios.

Muitos dos voluntários são estudantes na faixa dos 20 anos. Dezenas são médicos qualificados que se juntaram a eles _cerca de 200 em Caracas. Eles têm grupos menores que participam de protestos ao redor do país. 

Mas participar das manifestações é perigoso, e diversos dos médicos ficaram feridos. Ao menos um foi morto durante o voluntariado.

Paúl René Moreno, 24, morreu ao ser atingido por um veículo blindado em um protesto na cidade de Maracaibo, em maio.

Durante seu funeral, seus colegas colocaram seus capacetes brancos e verdes sobre o caixão.

Com as manifestações crescendo e se tornando mais frequentes, os riscos para os médicos também aumentaram. 

"É muito difícil sair pelas ruas, e no momento em que você ajuda essas pessoas, você também está em risco", diz Davila. "Você está exposto também. Você está no meio do fogo cruzado."

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