Estudantes usam celulares para registrar despedidas e terror durante ataque a escola

Audra D. S. Burch e Patricia Mazzei

Em Parkland, Flórida (EUA)

  • Michele Eve Sandberg/ AFP

    Estudantes reagem após ataque a tiros em escola da Flórida, nos EUA

    Estudantes reagem após ataque a tiros em escola da Flórida, nos EUA

Uma estudante apertou o botão de filmar enquanto era levada para fora da escola pelos policiais. No trajeto, a câmera de seu telefone, balançando, passou por vários corpos espalhados pelo chão. Em outro vídeo do celular, dezenas de tiros eram ouvidos não muito longe. "Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!", gritava um estudante.

Assim como muitos distritos escolares, o do condado de Broward permite que os alunos do secundário levem celulares à escola, desde que não interfiram com as atividades na classe.

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Na quarta-feira (14), muitos estudantes da Escola Secundária Marjory Stoneman Douglas se agarraram a seus celulares enquanto um atirador de 19 anos, Nikolas Cruz, percorreu o lugar e matou 17 pessoas. Eles usaram os telefones para informar seus pais aterrorizados sobre o que estava acontecendo. E também para fazer um registro visual de um crime terrível.

Sarah Crescitelli, aluna do primeiro ano do ensino médio, estava em uma aula de teatro ensaiando para uma apresentação do musical "Yo, Vikings" quando os tiros começaram. Escondida em um quarto de depósito com mais 40 alunos, ela digitou uma mensagem para sua mãe, Stacy, no que ela pensou que seria a última vez.

"Se eu não sair desta", escreveu, "eu te amo e agradeço tudo o que fez por mim."

Joe Raedle/Getty Images/AFP
"Se eu não sair desta, eu te amo e agradeço tudo o que fez por mim", escreveu Sarah Crescitelli à mãe, Stacy, durante o ataque

Alguns vídeos alarmantes sobre a chacina foram enviados via mensagens de texto, enquanto outros rapidamente chegaram ao Twitter, onde provocaram advertências de "material delicado".

Um vídeo mostra os policiais com as armas apontadas, entrando depressa numa sala de aula cheia de estudantes apavorados. Os policiais disseram aos jovens para levantarem as mãos. Um deles gritou: "Larguem seus telefones! Larguem seus telefones!"

"A comunidade mais segura do país" 

Parkland é o tipo de comunidade para onde jovens pais afluentes se mudam para que seus filhos tenham parques verdejantes e calçadas limpas. Quase todo mundo conhece alguém no colégio Stoneman Douglas, onde joga o time Eagles.

Um famoso ex-aluno da MSD, como a escola é conhecida, é Anthony Rizzo, jogador de beisebol nos Chicago Cubs. O delegado Scott Israel, que estava informando aos jornalistas sobre a tragédia no interior da escola, tem trigêmeos que se formaram na MSD, onde praticavam futebol, lacrosse e atletismo. Israel disse que um de seus policiais soube que o filho dele tinha se ferido no ataque.

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O deputado estadual Jared Moskowitz, que se formou na MSD em 1999, tem seu filho de 4 anos em uma pré-escola na mesma rua.

O colégio, com mais de 3.000 alunos, é quase uma cidade dentro da cidade, com corredores espaçosos e um pátio aberto. Ele leva o nome de Marjory Stoneman Douglas, famosa ambientalista que fez cruzada contra a pavimentação da zona de charcos Everglades.

"É surreal", disse Moskowitz. "As pessoas não vêm para Parkland para abrir uma empresa. Elas vêm para criar uma família. Elas vêm a Parkland para mandar seus filhos a uma escola classe A. Elas querem viver na comunidade mais segura do país." 

Um dia que começou com "vida"

Toda manhã no colégio Stoneman Douglas começa com uma afirmação, que é lida pelo interfone. Na quarta-feira, a afirmação começava com a palavra "vida".

"A vida me sustenta de todas as maneiras possíveis", foram as primeiras palavras que os alunos ouviram naquele dia.

O anúncio continuou falando sobre o Dia de São Valentim [celebrado como Dia dos Namorados nos EUA e na Europa] e que "todo mundo merece um relacionamento seguro e saudável".

O clube de astronomia anunciou que comemorava o Mês da História Negra na noite de quinta-feira com uma apresentação do filme "Estrelas Além do Tempo". Mas o evento foi adiado, como todos no colégio, que chamou psicólogos especializados em traumas.

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O teste que não era

Melissa Falkowski dava uma aula de jornalismo quando o alarme de incêndio disparou, por volta das 14h30. Ele tinha sido ativado pouco antes de os tiros começarem, talvez pelo atirador, numa tentativa de semear confusão. 

E foi a segunda vez que o alarme tocou na quarta-feira. 

"Todo mundo está preocupado, porque já tivemos um hoje", disse ela. "É raro, mas não impossível, porque às vezes alguém queima alguma coisa na aula de culinária e ele pode disparar três vezes no mesmo dia."

Também haviam tido um teste algumas semanas antes: um teste de atirador ativo, do tipo que muitas escolas fazem hoje.

Treinada, Falkowski seguiu o protocolo do alarme de incêndio e mandou seus alunos saírem da classe e se dirigirem ao local de encontro predefinido. Um segurança da escola lhe disse: "Não, é um código vermelho. Voltem". 

Na aula de geometria, Gabriella Figueroa, 16, do terceiro ano, estudava bissetrizes quando o alarme tocou. Quando ela se aproximou das portas de saída, escutou os primeiros tiros e correu de volta para a classe.

"Eu tremia e rezava: 'Deus, por favor, me tire daqui'", disse ela. 

Falkowski levou 20 alunos para um armário reservado para material de fotografia. Alguns começaram a soluçar, mas a maioria ficou em silêncio, digitando no escuro. O lugar ficou tão quente que eles tiveram de abrir um pouco a porta, de vez em quando, para poderem respirar.

Finalmente, depois de 35 minutos, ouviram barulhos no interior da classe, e então uma voz: "Aqui é a polícia. Tem alguém aqui?"

O tiroteio havia acontecido em outro prédio. Nenhum deles escutou os tiros. 

A maioria das 17 crianças e adultos que morreram ainda não foram identificadas pelas autoridades. Uma das complicações, segundo o delegado, era que as identidades dos estudantes estavam em suas mochilas, que tinham sido deixadas para trás na correria. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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