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Nos EUA, sobreviventes de tiros em escolas têm dificuldade para vencer medo

Jardim feito em homenagens as vítimas do tiroteio em massa na escola Marjory Stoneman Douglas  em Parkland, na Flórida - Eve Edelheit/The New York Times
Jardim feito em homenagens as vítimas do tiroteio em massa na escola Marjory Stoneman Douglas em Parkland, na Flórida Imagem: Eve Edelheit/The New York Times

Patricia Mazzei e Miriam Jordan

Em Parkland, Flórida (Estados Unidos)

31/03/2019 04h01

Kelly Plaur ainda tem pesadelo quase todas as noites. De manhã, ela os conta para a mãe, e o tema geralmente é o mesmo: o horror que ela presenciou na escola secundária Marjory Stoneman Douglas no ano passado, quando um atirador disparou em sua sala de aula, matando dois estudantes e ferindo outros quatro.

Algumas semanas atrás, Plaur, 18, teve de se retirar do programa de treinamento de paramédicos que havia começado, depois que foi dominada pela ansiedade ao transportar uma vítima de tiro. A simples visão de alguns tipos de persianas a deixa nervosa, lembrando-a dos buracos de bala que perfuraram as persianas de sua classe no dia da chacina.

"Pequenas coisas que eu não imaginava me provocam isso", disse ela.

Para jovens como Plaur, mais de um ano depois do massacre que deixou 17 mortos na escola em Parkland, na Flórida, a vida continua abalada por memórias traumáticas, um subproduto duradouro da epidemia nacional de violência armada. Para muitos, as preocupações surgiram novamente na semana passada, quando dois adolescentes que frequentavam a Stoneman Douglas se suicidaram com poucos dias de diferença. Então, na segunda-feira (25), o pai de uma menina morta no tiroteio de 2012 em Newton, em Connecticut, também morreu em um aparente suicídio.

Especialistas advertem que as motivações por trás do suicídio são complexas, e as mortes recentes continuam sendo investigadas. Mas as três perdas muito divulgadas em dez dias em duas cidades definidas pela tragédia expõem as dolorosas feridas emocionais que podem persistir muito depois que o tiroteio terminou.

Anos mais tarde, muitos sobreviventes de chacinas dizem que continuam lutando. Ruídos fortes os fazem dar pulos. Os sons de tiros voltam nos sonhos. Falar sobre violência armada pode causar espasmos súbitos.

Eles enfrentam esses "flashbacks" geralmente sozinhos. Logo depois dos ataques, escolas e comunidades se unem e oferecem reconforto, aconselhamento e terapia. Os estudantes sentem um casulo de empatia de colegas e professores. Todo mundo pergunta se eles estão bem.

Então o tempo passa.

Hollan Holm tinha 14 anos em 1º de dezembro de 1997 quando um colega estudante abriu fogo em um círculo de oração na escola secundária Heath em West Paducah, no Kentucky. Três estudantes morreram e cinco outros ficaram feridos, inclusive Holm. A bala raspou sua cabeça, mas não penetrou. Ele desenvolveu extrema sensibilidade a certos sons, como fogos de artifício e balões estourando. Mas não aceitou aconselhamento, convencido de que devia apenas tocar sua vida.

Hoje com 36 anos, Holm ainda evita se sentar de costas para a entrada de uma sala. Na igreja, segundo disse, ele fica "superconsciente" de pessoas que não reconhece. Quando entra em qualquer espaço, ele tende a realizar uma avaliação de ameaças no entorno. No ano passado, 21 anos depois do tiroteio, ele consultou durante vários meses um especialista em trauma.

"Você não pode deixar o tiroteio definir sua vida inteira", disse ele. "Mas você não consegue esquecer."

Cada pessoa lida com o trauma de um modo diferente. Fatores como idade, proximidade do atirador, ou se a pessoa foi ferida ou viu alguém receber um tiro influenciam a capacidade de recuperação.

"A reação aguda imediata pode se resolver com o tempo; os sintomas podem diminuir", disse Rochelle Hanson, psicóloga especializada em tratamento de traumas na Universidade Médica da Carolina do Sul.

"O que nos causa preocupação são pessoas que três ou quatro meses depois ainda sentem sintomas relacionados ao trauma. Essas despertam o alarme", disse Hanson, que também é diretora de treinamento no Centro Nacional de Recursos contra Violência em Massa e Vitimização.

Os tiroteios em escolas podem afetar centenas ou milhares de pessoas ao mesmo tempo, incluindo estudantes, professores, pais e pessoal de emergência. Em Parkland, só a Stoneman Douglas tem mais de 3.000 alunos.

"É difícil levantar da cama e voltar à escola todos os dias", disse Alex Wind, 18, aluno do último ano. O prédio do primeiro ano, onde ocorreu o tiroteio, continua isolado por cercas. "É difícil passar por ali todos os dias."

Logo depois de uma tragédia, as escolas inundam os campi com conselheiros, cães terapeutas e atividades para ajudar as crianças a enfrentar o fato. Mas se as vítimas estiverem em choque pode ser cedo demais para processar o que elas sofreram. Quando o choque se dissipa, talvez os serviços não estejam mais facilmente disponíveis.

"É como num furacão: todo mundo quer ajudar assim que acontece", disse Sarah Franco, diretora-executiva de uma instituição no sul da Flórida que tem um novo centro de saúde e bem-estar em Parkland. "Hoje, um ano depois, temos de recuar um pouco e ver como estamos nos saindo. As pessoas estão acessando todos esses serviços? E a resposta é não, não estão."

Os aparentes suicídios de Sydney Aiello, 19, formando de Stoneman Douglas, e Calvin Desir, 16, aluno do segundo ano, levou os líderes locais a abrir às pressas o centro, que é financiado por uma verba do Departamento de Justiça e deveria iniciar seus trabalhos dentro de um mês. Programas semelhantes foram implementados depois dos tiroteios em escolas de Columbine, no Colorado, e Newton, onde Jeremy Richman, 49, que perdeu sua filha de 6 anos, Avielle, em 2012, foi encontrado morto na segunda-feira (25).

Nesse dia, o centro de Parkland abriu em um centro comercial próximo à Stoneman Douglas. Folhetos junto à porta de entrada instruíam os pais a perguntar aos filhos se pensaram em suicídio recentemente e, principalmente, se chegaram a planejar como poderiam se matar, um sinal de alto risco.

"Queríamos saber se eu poderia conseguir terapia ou algo para me ajudar", perguntou uma menina, junto com a mãe.

Buscar ajuda pode ser um passo difícil para os sobreviventes. Lisa Hamp, hoje com 32 anos, estava numa aula de computação em seu segundo ano na Virginia Tech quando um atirador invadiu o prédio. Depois, quando ela foi escoltada em segurança para fora, ela lembrou: "Eu vi tudo, os cadáveres".

Tendo saído fisicamente ilesa de um tiroteio que deixou 32 pessoas mortas no campus, Hamp achou que não precisava ocupar o tempo dos conselheiros em saúde mental. Ela formou uma hierarquia em sua mente dos que mereciam ajuda: primeiro as pessoas que tinham perdido entes queridos, seguidas dos feridos.

"Nós nos colocamos, os sobreviventes que não ficaram feridos, em último lugar", disse ela. "Pensamos que devemos apenas aguentar e seguir em frente."

Plaur, a jovem que recentemente deixou seu curso de paramédica, disse que um conselheiro na Stoneman Douglas lhe disse pouco depois do tiroteio que ela teria de "superar isso". Pareceu desinteresse, disse ela, e contribuiu para que fosse terminar o colegial em outra escola.

Em breve Plaur poderá experimentar a terapia, segundo disse.

"Agora estou pronta", afirmou.