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Países que caçam baleias derrubam proposta de zona de proteção no Atlântico

James Forte/National Geographic Creative
Imagem: James Forte/National Geographic Creative

Portoroz, na Eslovênia

25/10/2016 10h04

Os países baleeiros derrotaram nesta terça-feira uma nova tentativa das nações do hemisfério sul de criar um santuário no Atlântico para proteger as baleias da caça comercial que quase provocou a extinção da espécie no século 20.

Uma proposta da Argentina, Brasil, Uruguai, Gabão e África do Sul, que precisava de 75% dos votos para ser aprovada, recebeu apenas 38 votos a favor de um total de 64 na 66ª reunião da Comissão Baleeira Internacional (CBI), realizada em Portoroz, Eslovênia.

As organizações de defesa do meio ambiente criticaram a nova derrota de uma iniciativa que já havia sido rejeitada em anos anteriores.

"Com todos os problemas enfrentados atualmente pelas populações de baleias devastadas pela pesca comercial, está claro que precisam de uma zona de proteção onde possam não apenas sobreviver, como também voltar a recuperar-se e desenvolver-se", disse o especialista em cetáceos do Greenpeace, John Frizell.

"O mais decepcionante é que todos os esforços em última instância são derrotados por membros da CBI que estão a milhares de quilômetros de distância, nem sequer no hemisfério sul, alguns inclusive no outro extremo", completou.

Os países que defenderam a proposta têm investimentos na área do turismo vinculados à observação de baleias. Japão, Noruega e Islândia lideraram a oposição à medida.

A ideia consistia em criar um santuário de 20 milhões de quilômetros quadrados para espécies de baleias ameaçadas de extinção pela caça destinada à exploração de sua carne, óleo e gordura ao longo do século 20.

A iniciativa foi apresentada pela primeira vez em 2001 e desde então foi rejeitada de maneira regular nas reuniões da CBI.

Os países que defendem a medida afirmam que 71% das três milhões de baleias caçadas no mundo entre 1900 e 1999 foram vitimadas no hemisfério sul.

Cachalotes e baleias fin, azuis, jubarte e minke foram as espécies mais afetadas, de acordo com os promotores da iniciativa.

Várias espécies apenas começam a se recuperar graças à proibição mundial imposta há 30 anos da caça comercial das baleias, que, no entanto, contempla exceções.

De acordo com texto da proposta rejeitada, a criação de um santuário teria promovido "a biodiversidade, a conservação e a utilização não letal dos recursos baleeiros no oceano Atlântico Sul".

"É muito decepcionante que, mais uma vez, a proposta de santuário no Atlântico Sul tenha sido derrubada com um arpão", lamentou Matt Collins, do International Fund for Animal Welfare.

"Um santuário nesta região teria fornecido proteção a uma ampla gama de espécies de golfinhos e baleias", disse.

Apesar de não existirem informações sobre a caça no Atlântico Sul atualmente, o representante do Brasil na CBI, Hermano Ribeiro, disse à AFP que o santuário teria representado "certo tipo de segurança".

"Quem pode nos garantir que, se uma espécie em particular começar a desaparecer (em outras regiões), os baleeiros, por razões científicas, não virão ao Atlântico Sul? Queremos evitar isso".

De acordo com alguns cálculos, a indústria de observação de baleias gera dois bilhões de dólares por ano e emprega 13.000 pessoas ao redor do mundo.