Rússia usa mídia em ofensiva contra a Europa e refugiados

Isabelle Mandraud

  • Efe

    O presidente da Rússia, Vladimir Putin, discursa na abertura da COP-21, em Paris, em novembro de 2015

    O presidente da Rússia, Vladimir Putin, discursa na abertura da COP-21, em Paris, em novembro de 2015

Moscou faz o retrato de uma União Europeia desestabilizada pelos refugiados e ataca a Alemanha

Uma Europa mergulhada na insegurança e dirigentes incapazes de remediar a situação, isso quando não mentem deliberadamente com fins eleitoreiros. É esta a visão apresentada pela mídia pública russa, que dedica boa parte de suas notícias à crise migratória na Europa, promovendo quase que exclusivamente os movimentos de extrema-direita.

Desde os incidentes ocorridos na noite de Ano-Novo na cidade alemã de Colônia, quando várias mulheres foram agredidas por imigrantes e requerentes de asilo, a Alemanha tem sido particularmente visada por essa campanha agressiva, mas não só. Todos os países da Europa estão na mira.

Enquanto dezenas de milhares de sírios voltam a correr para a fronteira da Turquia para fugir dos bombardeios russos no norte de seu país, denunciados pelos ocidentais, Moscou tem aumentado a pressão ao retratar uma Europa desestabilizada. Todas as redes russas estão mobilizadas, incluindo emissoras de TV, agências, sites, bem como suas sucursais em Londres, Paris ou Viena, para divulgar em vários idiomas uma "versão" deturpada dos acontecimentos.

O tom das "notícias" sobre a Áustria, a Suécia e Bruxelas é sempre o mesmo, e as manchetes são perniciosas. "Viena: um imigrante estupra uma criança de dez anos em uma piscina"; "Jornalista belga é agredida durante uma reportagem em Colônia"; "A Áustria não vai deportar um candidato ao asilo que estuprou uma mulher de 72 anos"; "Os promotores suecos não serão obrigados a denunciar as agressões sexuais cometidas por refugiados"...

No dia 16 de janeiro, o Perviy Kanal, principal canal russo, dedicou, em seu noticiário da noite, uma longa matéria a Lisa F., uma jovem berlinense de 17 anos de origem russa que foi "sequestrada e estuprada" por estrangeiros. A reportagem começava com "a nova ordem que se instaurou na Alemanha", onde, "segundo testemunhos, os imigrantes começaram a estuprar menores de idade".

Os investigadores alemães e a Procuradoria de Berlim desmentiram essas informações, apresentando uma queixa contra o jornalista, mas essa versão foi sustentada pelo próprio ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov. E, longe de voltar atrás, a emissora fez um apelo para que os jornalistas alemães demonstrassem "solidariedade" para com seu colega russo, "o primeiro a falar" sobre esse caso.

Angela Merkel na mira

As agências próximas do Kremlin, dedicadas sobretudo a uma audiência estrangeira, não ficaram para trás, mirando em primeiro lugar a chanceler Angela Merkel, que teria perdido todo o controle da situação e estaria levando o país à beira do caos com sua política descuidada. "A crise dos refugiados está atingindo um ponto crítico", afirmou a agência de notícias Sputnik, refletindo uma "ampla parte da opinião pública" segundo a qual a dirigente alemã estaria mostrando um "imperialismo moral" e estaria fazendo uma "penitência pelos pecados históricos da Alemanha".

As manifestações do movimento alemão anti-imigração Pegida ("Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente") estão sendo acompanhadas de perto, e suas declarações sobre "as mentiras" e as "dissimulações" da polícia são abundantemente divulgadas. Esse tratamento diferenciado não se atém ao noticiário. Para o Kremlin, Merkel é antes de tudo a líder de uma Europa contrária à anexação da Crimeia e que impôs sanções à Rússia em razão do conflito sangrento no leste da Ucrânia.

"Putin está usando a crise dos refugiados para enfraquecer Merkel", escreveu Judy Dempsey, analista da fundação Carnegie Europe, que vê uma "correlação direta" entre o apoio do líder do Kremlin a seu aliado sírio Bashar al Assad e a queda de popularidade da chanceler alemã em seu país. "Quanto mais a guerra na Síria dura, mais ela enfraquece Merkel, e uma Merkel enfraquecida significa uma Europa também enfraquecida e dividida", afirma Dempsey.

A França também não foi poupada. A manifestação de 6 de fevereiro organizada, apesar de sua proibição, pelo microscópico braço francês do Pegida, que teve a participação do general Christian Piquemal, ex-comandante da Legião Estrangeira, e sobretudo os processos que se seguiram foram alvo de um fluxo ininterrupto de "notícias". Na segunda-feira, a agência Russia Today literalmente inundou suas redes com a "prisão" do general Piquemal, cujo comparecimento imediato diante de um tribunal foi adiado em razão de seu estado de saúde.

"Essa prisão suscitou uma torrente de reações nas redes sociais, uma vez que grande parte dos internautas a condenou veementemente", afirmou a agência pró-Kremlin, antes de mostrar alguns minutos mais tarde "as reações de políticos de direita escandalizados".

"Nenhuma alternativa possível"

Os depoimentos e os tuítes coletados, na verdade, vinham todos de representantes da Frente Nacional ou próximos dela, como Robert Ménard, Gilbert Collard, Stéphane Ravier, com exceção de Thierry Mariani, deputado dos franceses residentes no exterior, membro do partido Les Républicains e grande amigo da Rússia de Vladimir Putin.

"É um tema que permite insistir na instabilidade do mundo, nos perigos que haveria em se desejar mudanças bruscas ou mais pluralismo e que provoca a vontade de se fechar", analisa o cientista político russo Kirill Rogov. "A imagem de um Ocidente instável é muito importante para a propaganda putiniana por dois motivos: mostrar que o governo está conduzindo uma política positiva e que não há nenhuma alternativa possível."

Os resultados, aliás, não demoraram. Segundo uma pesquisa do instituto Fundação Opinião Pública, publicada no dia 8 de fevereiro, 59% dos russos acreditam que a Europa não deveria mais aceitar os refugiados, contra 34% em setembro de 2015, e 75% acham que o fluxo de refugiados pode afetar a Rússia.

Tradutor: UOL

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