China faz reassentamento em massa de "migrantes ecológicos"

Edward Wong*

Na Vila Lago Miaomiao (China)

  • Josh Haner/The New York Times

    O médico Ma Shiliang (dir) e sua família, muçulmanos hui, na Vila Lago Miaomiao (China)

    O médico Ma Shiliang (dir) e sua família, muçulmanos hui, na Vila Lago Miaomiao (China)

Areia até o tornozelo bloqueava a porta da nova casa deles. Empurrar as bicicletas pelo quintal era como caminhar em um pântano. A parte do "lago" da Vila Lago Miaomiao era na verdade nada mais que um minúsculo oásis a mais de um quilômetro e meio das fileiras de pequenas casas de blocos de concreto.

Ma Shiliang, um médico cuja família estava entre os cerca de 7.000 muçulmanos hui trazidos pelo governo chinês de suas terras com escassez de água no noroeste do país para este lugar, disse que as autoridades prometeram que "ficaríamos ricos". Em vez disso, essas pessoas, que antes pastoreavam ovelhas e cabras em amplas colinas, agora se sentem como animais em um cercado, apáticas e incertas em relação ao seu futuro.

"Se soubéssemos como seria, não teríamos nos mudado para cá", disse Ma, 41 anos, que, passados três anos, não conseguiu arrumar emprego como médico no Vila Lago Miaomiao ou encontrar outro trabalho estável.

A China os chama de "migrantes ecológicos": 329 mil pessoas que o governo transferiu de terras afetadas negativamente pela mudança climática, industrialização, políticas ruins e atividade humana para 161 vilas construídas às pressas. Elas foram a quinta onda de um programa ambiental e de redução da pobreza que reassentou mais de 1,14 milhão de moradores da Região Autônoma de Ningxia Hui, um território de dunas, mesquitas e camelos ao longo da antiga Estrada da Seda.

Han Jinlong, o vice-diretor de migração do Escritório para o Desenvolvimento e Redução da Pobreza de Ningxia, disse que apesar das ondas anteriores não terem sido explicitamente rotuladas de migrantes ecológicos, elas foram reassentadas devido ao avanço do deserto. É o maior projeto de migração ambiental do mundo.

O que a China está fazendo em Ningxia e em algumas poucas outras províncias atingidas duramente pela seca e outros desastres naturais e causados pelo homem é um prenúncio de ações que governos de todo o mundo, inclusive dos Estados Unidos, podem vir a adotar ao lidarem com a mudança climática, que deverá deslocar milhões de pessoas nas próximas décadas.

A China tem sofrido com degradação implacável de terras e piora dos padrões climáticos, incluindo a seca no norte. Mas o reassentamento em massa traz seus próprios problemas profundos, como mostram as dificuldades enfrentadas pela família Ma e seus vizinhos.

Josh Haner/The New York Times
Vista aérea de Vila Lago Miaomiao, construída como parte do maior projeto mundial de reassentamento ecológico, na China

Em meio a um chá em sua sala de estar, Ma me contou que cada lar teve que pagar uma "taxa de reassentamento" de cerca de US$ 2.100 (cerca de R$ 6.570) e que lhes foi prometido terras nas quais poderiam plantar, já que as famílias deixaram para trás campos produtivos e animais. Mas aqueles que receberam terras tiveram que arrendá-las para uma empresa agrícola, lhes restando apenas quintais minúsculos, onde Ma cultiva algumas poucas pimentas.

A família com 11 membros deveria se espremer em uma casa de 54 metros quadrados com dois quartos. Assim como muitos dos imigrantes, Ma construiu um quarto extra com tapume de plástico no quintal para seus pais.

E as autoridades que projetaram as novas casas colocaram os vasos sanitários no mesmo ambiente que os chuveiros, uma afronta para os muçulmanos hui. Ma cavou um latrina no lado de fora, onde o quintal da frente se encontra com a estrada.

Ma não foi apenas incapaz de conseguir com que as autoridades o nomeassem como médico da vila, como desde novembro também não consegue encontrar trabalho como operário de construção, trabalho sem estabilidade e de baixa remuneração, mas o emprego mais comum para aldeões como ele. A família tem que se virar principalmente com os US$ 12 (cerca de R$ 38) por dia que sua mulher, Wang Mei, ganha em uma plantação industrial.

Josh Haner/The New York Times
O médico Ma Shiliang, cuja família foi reassentada de uma área que sofria com secas, na Vila Lago Miaomiao

Os irmãos de Ma e um sobrinho trouxeram um total de 38 familiares como parte do reassentamento. Mas outro irmão, Ma Shixiong, foi um dos poucos que ficaram para trás na vila de Yejiahe, a cinco horas de carro ao sul, desafiando a ordem do governo. As autoridades demoliram as casas daqueles que partiram e puniram os que permaneceram ao se recusarem a reformar suas casas ou construir cercados para os animais, também lhes negando fornecimento de água encanada e subsídios para a criação de ovelhas e gado.

Wang Lin, que também está desempregado e foi um dos oito homens com os quais conversei certa tarde, após as orações na Mesquita Ji'an de Lago Miaomiao, disse que ele e oito familiares planejam voltar para Yejiahe no ano que vem caso não encontrem trabalho.

"Ninguém voltou ainda, mas as pessoas estão falando a respeito", disse Wang Lin, 48 anos. "Podemos cultivar a terra lá. Nossas casas não estão mais lá, mas podemos cavar e construir uma casa caverna."

Josh Haner/The New York Times
Ma Meihua, mãe de Ma Shiliang, no quarto que o médico adicionou à casa de 53m2 dada pelo governo

Um terço da população de Ningxia e a maioria das pessoas reassentadas é muçulmana hui. Alguns acadêmicos ocidentais dizem que as políticas de reassentamento chinesas visam em parte controlar as populações de minorias étnicas, e que as autoridades podem citar razões ambientais como desculpa.

Apesar de remota, a área seca de Xihaigu está no radar do governo central desde pelo menos os anos 80, quando as autoridades começaram a apresentar uma série de relatórios sombrios sobre a viabilidade das terras. Uma recente estimativa por pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências e pelo Ministério de Terras e Recursos disse que a região só é capaz de sustentar 1,3 milhão de pessoas. A população em 2014 era de cerca de 2,3 milhões.

"O governo decidiu mudar as pessoas porque a terra não consegue mais alimentá-las", me disse Zhang Jizhong, vice-diretor do Escritório para o Desenvolvimento e Redução da Pobreza de Ningxia, quando me encontrei com ele e seu colega Han no escritório deles em Yinchuan, em agosto. "Os fatores estão enraizados na história, natureza e sociedade."

A estrada para a velha vila de Ma, Yejiahe, serpenteia colina acima passando por um reservatório, terras cobertas por silte amarelo, cavalos e montes de feno nos quintais das pessoas. A paisagem é ampla, arredondada e verde, muito diferente de Lago Miaomiao.

Josh Haner/The New York Times
Grupo de mulheres muçulmanas hui se prepara para trabalhar em campos de melancia na Vila Lago Miaomiao

Nós estacionamos em um cume com vista para o vale. O irmão de Ma Shiliang, Ma Shixiong, me recebeu à margem da estrada, trajando uma túnica azul e gorro. Seu rosto apresentava tantos sulcos quanto as colinas.

Ele era o homem que ficou para trás, mesmo quando seu clã estendido, incluindo seus pais idosos, migrou para o norte. Sua mulher, três de seus filhos e quatro netos também permaneceram em Yejiahe. Outros dois filhos trabalham em um restaurante em Pequim. Cerca de 300 aldeões permaneceram de uma população de cerca de 1.400 no final dos anos 90.

Por que alguns escolheram permanecer, mesmo ao custo da divisão das famílias estendidas, ficou claro assim que Ma Shixiong me conduziu por sua casa.

Em comparação ao lar de seu irmão em Lago Miaomiao, o dele mais parecia um palácio imperial. Duas salas dão para um grande pátio. As famílias de dois de seus filhos, cada uma com duas crianças, têm seus próprios aposentos. A área total é de 300 metros quadrados, o dobro do tamanho dos terrenos na nova vila.

Josh Haner/The New York Times
Vista aérea da casa de Du Jinping, que vive em Lago Swan, no deserto de Tengger, na China

Ma Shixiong disse que visitou sua família meia dúzia de vezes em Lago Miaomiao antes do pai enfermo deles falecer em fevereiro de 2015.

"Quando vi aquele lugar, aquele quintalzinho, a casinha e o banheirinho em frente à porta...", ele disse, sem concluir. "A higiene não é boa. Não é um estilo de vida muito civilizado."

"Não há terra cultivável e você precisa sair à procura de trabalho", ele acrescentou. "Como você pode se sustentar?"

Enquanto conversávamos, vizinhos começaram a se aproximar. Eles souberam que um repórter de Pequim estava na cidade. Cada um queria expressar uma queixa sobre a corrupção local. "É uma sociedade primitiva aqui porque ninguém se importa conosco", disse Ma Shixiong.

* Kiki Zhao e Sarah Li contribuíram com pesquisa.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos