Apesar dos descaminhos, o feminismo ainda é libertador

Maria Lygia Quartim de Moraes

Maria Lygia Quartim de Moraes

Especial para o UOL

Será que as brasileiras têm o que comemorar neste 8 de março? Vivemos tempos difíceis, de uma profunda crise política que não só põe em risco inúmeras conquistas sociais como vem acompanhada pela intolerância e violência como formas de sociabilidade.

O que nós, brasileiras, temos para comemorar neste 8 de março? A pressão da bancada evangélica para aprovar leis que criminalizem ainda mais as mulheres que recorrem ao aborto? Leis cuja consequência não será coibir a interrupção da gravidez, mas aumentar os preços e os riscos dos abortos clandestinos?

E o que pensar das deputadas que querem impedir a pílula do dia seguinte para os casos de estupro, sob o argumento espúrio de que é abortiva?

É claro que, se tomarmos como ponto de partida o Ano Internacional da Mulher – decretado pela ONU em 1975 e respeitado pela ditadura militar (1964-85)–, os avanços foram muitos. Sem dúvida, é longa a lista das conquistas resultadas das luta feministas. A começar pela Constituição de 1988, que igualou os direitos de ambos os gêneros no interior da família: o homem deixou de ser o "chefe da família" e a mulher "sua principal colaboradora", conquistando uma posição de igualdade em termos de direitos civis.

Ao longo do último século, as feministas tiveram de construir teorias e discursos para enfrentar os preconceitos vigentes sobre o sexo frágil. Nas universidades, houve o boom dos estudos sobre a mulher, hoje entendidos como estudos de gênero. Nos anos 1980 e 1990 foram criados organismos oficias para a defesa dos direitos femininos, outra reivindicação importante do movimento feminista.

Mas foi um equivoco achar que instituições dependentes dos governos pudessem representar os interesses das mulheres: afinal, tudo depende do partido no poder. E a maior parte delas transformou-se em instituições burocráticas, muitas vezes cabides de emprego.

Porém, apesar dos descaminhos, para mim o feminismo continua sendo um projeto de novas relações entre mulheres e homens, um projeto libertador. E, o que é mais importante, o feminismo continua sendo uma estratégia política, não um fim em si mesmo, nessa longa batalha transgeracional para desconstruir todas as formas de biologização das diferenças sociais.

Por outro lado, o momento atual comprova a existência de um feminismo espontâneo, fruto de uma nova geração de brasileiras, que utilizam blogs e fanzines para organizar grupos de protesto pontuais, como esse de resistência ao assédio no metrô.

As jovens brasileiras também têm se movimentado contra as tentativas reacionárias do Congresso com respeito aos direitos das mulheres e dos homossexuais. Meninas que nunca leram nenhuma teoria, mas não aguentam mais serem abusadas, dizem "chega, fim do abuso".

A questão é que nem todas as mulheres se sentem confortáveis com o modelo dito feminino. E não apenas isso. Grande parte das mulheres, no mundo inteiro, tem alguma queixa com relação às discriminações que sofrem. É como a luta de classes: enquanto alguém explorar o outro, haverá uma possibilidade de revolta, de contestação.

Assim, acho que toda mulher deveria ser feminista. Afinal, por que uma mulher estaria de acordo em ganhar menos e ser vítima de ataques sexuais? Mas, se a palavra te assusta, não a use. Contudo, continue lutando pela sua dignidade na relação entre homens e mulheres.

Hoje, nossa tarefa mais urgente é enfrentar a maré conservadora  que se alastra –encabeçada pelo Congresso BBBB (Bíblia, Banco, Boi e Bala)–  e tenta impedir qualquer menção ao "gênero" na educação, proíbe o aborto para vítima de estupro e a pílula  do dia seguinte. Entretanto, ao mesmo tempo, impede taxações sobre grandes fortunas e lucros bancários.

A situação é de tamanha gravidade que, sem ainda terem conquistado, por exemplo, a igualdade de salário e o direito ao aborto, as brasileiras correm o risco concreto de perder algumas de suas mais importantes conquistas. Que as novas gerações de brasileiras, feministas ou não, continuem atentas contra o retrocesso, caso contrário o dia da mulher vai se tornar mais uma celebração vazia.

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Maria Lygia Quartim de Moraes

É professora do departamento de sociologia da Unicamp, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, colaboradora da revista Margem Esquerda - Ensaios Marxistas, da Boitempo e autora do prefácio do livro Reivindicação dos Direitos da Mulher

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