Com crise, jovens voltam a valorizar estabilidade da geração X

Anamaíra Spaggiari

Anamaíra Spaggiari

Especial para o UOL
  • Evelson de Freitas/Folhapress

A nova geração de jovens que está entrando no mercado de trabalho sabe que ao escolher a organização em que deseja atuar e qual vaga irá ocupar pode, e deve, levar em consideração: o seu propósito, o que gosta de fazer e o que quer gerar de valor. Tal decisão sobre a carreira é essencial no processo de construção de uma trajetória profissional que traga felicidade e que gere impacto.

Na contramão disso, a crise econômica tem colocado em xeque essa forma de fazer carreira. A escassez de oportunidades representa uma força contrária, que pode levar o jovem a abdicar de motivações pessoais para escolher seu emprego só com base nas oportunidades que aparecerem.

Um desequilíbrio nas curvas de oferta e de demanda é gerado pela crise: as oportunidades de trabalho ficam menores, há demissões em massa e também o congelamento de vagas para corte de custos.

O Brasil atingiu 12 milhões de desempregados em setembro de 2016, segundo o IBGE. Dentre os jovens de 18 a 24 anos, o índice de desemprego era de 24,1% em maio, e em novembro chegou a 25,7%, tendo aumentado ainda mais se comparado às demais faixas etárias.

Quem entrar agora no mercado de trabalho irá sofrer com salários menores e, mesmo para quem já tem seu emprego garantido, as oportunidades de crescimento e de movimentação lateral estão sendo afetadas.

Vários dos ajustes salariais ficaram abaixo do valor da inflação, diminuindo o poder de compra. Dados do Dieese mostram que, até 2014, mais da metade dos reajustes superavam a inflação, enquanto que, no primeiro semestre de 2016, 39% ficaram abaixo da inflação e 37% mantiveram o seu patamar.

O lado do jovem

Esse cenário deixa o universitário que está entrando no mercado de trabalho em alerta, com muito medo de não conseguir um emprego e de não construir a carreira que tanto sonhou. Sem muitas opções, resta agarrar-se à oportunidade que aparece, mesmo que ela não lhe traga realização pessoal e não faça sentido para a sua trajetória profissional.

Se negar uma oportunidade agora, não se sabe em quanto tempo pode surgir outra. O SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) estima que um desempregado leva, em média, oito meses para conseguir se recolocar no mercado. Para não entrar nessa estatística, muitos jovens acabam se candidatando a dezenas de vagas ao mesmo tempo, várias delas sem nenhum alinhamento com seu perfil.

Assim, muitos reclamam que nem respostas recebem e que, quando há um retorno, se frustram ao receber "não" atrás de "não", o que só aumenta o medo e a ansiedade. Há quem cogite sair do Brasil para trabalhar com subempregos, enquanto outros mergulham em mais capacitações, como cursos, pós-graduações e mestrados.

O pior cenário é ficar sem emprego e sem experiência, tendo que, quando a economia se reerguer, enfrentar a concorrência por vagas com os recém-formados. Isso tudo pode acarretar num desenvolvimento profissional tardio e mais lento.

Com a frustração, os jovens tendem a assumir um comportamento mais conservador para suas carreiras, buscando aquela segurança que a geração X tanto prezava. O concurso público, antes rejeitado por muitos da geração Y, pode retomar a sua onda de interesse.

Porém, onde existem ameaças e desafios também há oportunidades, principalmente, para os universitários. Empresas e indústrias trocam profissionais mais experientes e caros por estagiários e recém-formados, já que estes últimos representam um custo menor.

Para o jovem que já está empregado, o cenário é um pouco mais ameno, mas ele tem menos chances de promoção e de acesso a benefícios. São inúmeras as empresas que já estão trocando o plano de saúde por um mais simples. Com os cortes, o trabalhador que fica tende a acumular funções.

Pelo lado negativo, isso representa uma sobrecarga de trabalho. Já o positivo é que há uma menor chance de ser demitido e há a oportunidade de assumir mais responsabilidades com funções que seriam exercidas por pessoas mais experientes, podendo acelerar seu desenvolvimento. O jovem que passar por situações difíceis estará pronto para enfrentar desafios complexos.

O lado das organizações

Já o mercado tende a se manter mais conservador e a tomar decisões com menos riscos. Investir na formação de um jovem inexperiente, que possui menos autonomia e nunca enfrentou momentos de crise, não é uma decisão fácil, mesmo que a mão de obra seja mais barata. Um conflito de escolha para a empresa.

A crise também pode trazer externalidades positivas. Com demissões em massa, congelamento de posições e corte de custos, o número de vagas disponíveis diminui drasticamente. A empresa fica na confortável posição de escolher um candidato melhor para a vaga a um custo mais baixo.

A tendência é que haja um aumento na retenção dos funcionários, ainda que os índices de felicidade possam diminuir. Uma pesquisa da Hays, de 2015, mostra que 74% dos funcionários procuravam um novo emprego para 2016, mesmo quando as empresas registraram um índice de 27% de rotatividade, ou seja, podemos ter muita gente insatisfeita, mas sem pedir demissão. A escolha de abrir mão de um emprego seguro para buscar outro é um risco grande.

Os funcionários também ficam mais flexíveis e dispostos a assumir novas tarefas fora de seu escopo, sujeitando-se a aceitar mudanças que, em um momento estável, não concordariam. A pesquisa da Hays mostra também que 86% aceitariam uma proposta para trabalhar fora do país e que 77% mudariam de Estado por causa do emprego.

Dicas para o jovem construir uma carreira de impacto

1) Qualificar-se ainda mais. É sempre bom lembrar que inglês e nível superior completo já não são diferenciais. Pós-graduação ou cursos online são boas oportunidades para quem pode investir nos estudos –e nem sempre é preciso dinheiro;

2) Não esperar uma oportunidade de emprego para ganhar experiência. Por meio de trabalhos voluntários e de projetos paralelos, encontre experiência prática. Isso não só servirá para adicionar um item ao seu currículo, como também para desenvolver habilidades e adquirir conhecimento;

3) Desenvolver competências para lidar com ambientes em crise, ou seja, aprender a trabalhar sob pressão, ter foco em resultado, lidar com o acúmulo de responsabilidades e desenvolver flexibilidade para mudanças recorrentes. A resiliência passa a ser um atributo essencial;

4) Não são os volumes de aplicações e de processos seletivos que te levarão a conseguir um emprego. Isso pode até fazer você perder tempo, foco e aumentar sua insegurança. É mais importante ser assertivo e buscar um em que haja um matching, isto é, que haja uma combinação entre o que você sabe fazer bem e a função daquela vaga;

5) Olhar para todo o mercado e procurar as empresas que estão crescendo mesmo com a crise, ou então para as que acabaram de realizar fusões ou aquisições. Existem várias delas no mundo empreendedor das startups;

6) Para quem conseguiu um emprego, mas que ainda não é aquele dos seus sonhos, é preciso ficar atento para explorar as possibilidades de desenvolvimento, entregando resultados e não deixando de se preparar e de buscar a oportunidade que mais quer –uma futura promoção, uma mudança de área ou a vaga em outra empresa.

Um cenário difícil está desenhado para a maioria dos jovens. Para enfrentá-lo e conquistar uma carreira de impacto, é primordial que eles não se coloquem como um problema social e que lutem para tornar realidade aquilo sempre ouviram: que o jovem representa o futuro do Brasil.

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Anamaíra Spaggiari

27 anos, é coordenadora de educação da Fundação Estudar

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