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"PM mantém tradição da ditadura de torturar", diz irmão de guerrilheira

Giuliander Carpes

Do UOL, no Rio

29/10/2013 18h37

A Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro derrubou, nesta terça-feira (29), a versão da ditadura sobre episódio conhecido como a Chacina de Quintino, ocorrida em março de 1972. Segundo o registro no Dops (Delegacia de Ordem Política e Social), três militantes da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) teriam sido mortos porque reagiram quando as forças policiais estouraram o aparelho subversivo.

Mas investigação da comissão chegou à conclusão de que Lígia Maria Salgado Nóbrega, Maria Regina Lobo Leite Figueiredo e Antônio Marcos Pinto de Oliveira, que nem sequer possuíam armas no local da ação, foram assassinados.

O irmão de Lígia, que estava grávida, deu um dos depoimentos mais emocionantes da audiência pública desta terça na comissão. Francisco Nóbrega é médico e estava estudando nos Estados Unidos à época. Ele conta que tentou demover a irmã de permanecer na luta armada porque temia que ela não fosse sobreviver.

“Era difícil, a gente tinha essa dúvida se ela tinha caído resistindo ou havia sido capturada. É bom saber melhor dessa história e divulgar isso tem esse caráter de tentar evitar que se repita. Porque a Polícia Militar ainda mantém esta tradição da ditadura de torturar”, afirma Francisco. “Agora é tarde demais para ficar apontando culpados. Mas é bom lembrar que as pessoas sendo consideradas fora da lei também têm o direito de serem presas e tratadas com dignidade.”

“Sabia que era uma morte anunciada. Em alguns poucos momentos que tive contato com ela, falei que ela não tinha escapatória. Tentei convencê-la a deixar a luta armada. Era um grupo ínfimo perto da repressão. E a repressão já não queria nem prender e torturar mais, queria eliminar”, lembra Francisco.

“Falei para ela que ia chegar o dia que saberíamos que ela caiu morta, talvez torturada. Mas ela sempre foi muito serena. Tinha uma determinação totalmente inabalável. Não aceitava. A solidariedade dela com aqueles que já tinham caído era imensa. Em um certo sentido, eu me preparei”, lamenta o médico.

A explicação da chacina permaneceu obscura por quatro décadas. Há indícios que ainda precisam ser confirmados pela perícia de que alguns dos baleados tenham sido torturados.

Lígia foi a primeira dos três a ser morta. Segundo o relato de vizinhos do condomínio de número 8985 da avenida Suburbana (hoje avenida Dom Hélder Câmara), ela chegou a sair da casa onde ficava o aparato subversivo com as mãos na cabeça para se entregar, mas foi metralhada. Os outros dois foram pegos tentando pular o muro detrás da casa. James Allen, companheiro de Lígia e líder da VAR-Palmares, conseguiu fugir.

Francisco lamenta ainda não ter conseguido ser frio o suficiente para avaliar os ferimentos de Lígia durante o reconhecimento do corpo. “Era uma situação meio constrangedora porque eu estava sendo acompanhado por militares. Há aquele impulso de querer fazer um exame mais técnico. Mas aí vem a emoção do momento e só pude notar aqueles ferimentos à bala no braço e ficar chocado. Foi uma coisa breve, perguntaram se era ela mesmo e era.”

Outros familiares de mortos na chacina também tiveram problemas com a polícia. Fátima Setúbal, irmã de Antônio Marcos, mal conseguiu enterrar o militante. “O enterro de Marcos foi feito com a presença de policiais que nos xingavam. Quando a minha mãe começou a rezar, eles chegavam armados e falavam que não podia rezar ou falar alto. Aquilo foi o que mais me marcou”, disse ela.

A Comissão da Verdade também analisou laudos do Instituto Médico Legal (IML) e o depoimento do médico legista Valdecir Tagliare, que assinou a certidão de óbito das vítimas. Segundo o documento do legista, houve esmagamento total das mãos e parte dos braços, o que comprovaria os golpes causados "por armamento pesado".

O perito da polícia civil Mauro Yared fará uma nova perícia para a Comissão Nacional da Verdade, para onde o caso será encaminhado na sequência. Segundo ele, já foi possível avaliar que os mortos não estavam armados porque não havia nenhum vestígio de pólvora em suas mãos.

Yared ficou impressionado com as fotos dos corpos. "Em 20 anos de profissão, já analisei mais de mil corpos. Alguns gostaria de não ter analisado porque são de uma violência bárbara. A condição dos corpos dos três militantes mortos na Chacina de Quintino são ainda piores do que aqueles que eu já tinha visto até hoje", afirmou o perito.  

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