Alan Marques/Folhapress

Processo de impeachment

Dilma ironiza denúncia sobre cabeleireiro e desafia restrição de voos oficiais

Flávio Ilha*

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

Durante evento em Porto Alegre (RS), a presidente afastada, Dilma Rousseff, ironizou as notícias de que teria utilizado dinheiro proveniente da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras, quando ela era a presidente do Conselho de Administração da estatal, para pagar despesas pessoais. A informação foi veiculada pelo jornal O Globo nesta sexta-feira.

Dilma aproveitou para dizer que vai continuar viajando pelo país, apesar do pedido da Casa Civil do governo interino para que seus deslocamentos oficiais sejam limitados ao trecho Brasília-Porto Alegre, onde tem residência fixa. "Eu vou viajar. Vamos ver como vai ser", disse. O GSI (Grupo de Segurança Institucional), que cuida da segurança da presidente, informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que irá acatar a determinação do ministério.

Cabelereiro

Sobre a acusação de que teria usado dinheiro de propina oriunda da compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, pela Petrobras, a presidente afastada ironizou. 

"É uma estratégia para atingir a minha imagem, dizendo que o dinheiro da Petrobras pagou as contas do meu cabelereiro. A vantagem é que eu tenho todos os comprovantes de que paguei as passagens e o serviço dele, que custou R$ 5 mil, com meu dinheiro. Mas o mais interessante não é isso. Ligam o cabelo com Pasadena, que foi em 2006. Mas eu fui conhecer o cabeleireiro apenas quatro anos depois. Como é que pode isso?", disse a presidente afastada.

"Tenho certeza de que vão tentar me incriminar de qualquer jeito. Vai ser muito difícil. Até o casamento de minha filha foi investigado. Mas eu jamais utilizei dinheiro público para pagar qualquer coisa na minha vida. Já procuraram de tudo quanto é jeito", discursou. 

Durante a tarde, a presidente afastada informou por meio do seu blog que vai tomar as "medidas legais" contra as afirmações do jornal, que considerou "difamatórias e injuriosas".

Restrição de voos

Dilma desafiou o governo, que chamou de "interino, provisório e ilegítimo", a manter a restrição de voos oficiais apenas ao trajeto Brasília -- Porto Alegre.

"É um escândalo, é gravíssimo. A troco de quê? Eu não posso pegar um avião de carreira porque a Constituição não me permite. Isso é temor das ruas, da imensa reação que se alastrou pelo Brasil. Eu vou viajar. Vamos ver como vai ser", assegurou, em ato de lançamento do livro "Resistência ao Golpe 2016" na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul.

Dilma diz Casa Civil de Temer quer proibi-la de viajar pelo país

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Mais tarde, numa manifestação de rua, Dilma voltou a se referir à tentativa de cercear seus deslocamentos oficiais. "Eles não querem que eu fale, aqui nesta praça e em outras praças do Brasil, que está acontecendo um golpe. Um golpe dado com mãos de veludo, na calada da noite, por parasitas corruptos que querem reduzir as conquistas sociais deste país. Mas eu vou continuar viajando", garantiu.

Dilma disse ainda que, se a restrição a seus deslocamentos for mantida, estará caracterizado o que chamou de "caráter autoritário" do governo provisório. "Vivemos em uma democracia e temos o direito de expressar as nossas opiniões, de ir e vir e de andar por todo este país. Eles hoje têm medo de vocês, medo imenso de vocês. É por isso que não querem que eu viaje pelo Brasil. Mas nós vamos resistir", discursou para uma multidão na Esquina Democrática, no centro da capital gaúcha. 

A presidente também voltou a denunciar a ilegalidade do impeachment e atribuiu as iniciativas de afastá-la da presidência ao que chamou de "ansiedade pelo parlamentarismo".

Dilma citou o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e atribuiu a ele a condução do governo do vice Michel Temer. "A agenda atual ganhou uma hegemonia de direita explícita, controlada e exercida pelo ex-presidente (da Câmara) afastado, mas em atividade intensa, o senhor Eduardo Cunha. Ele indicou não só líder do governo provisório e ilegítimo, mas talvez a maior parte dos ministros interinos, provisórios e ilegítimos. Prática que beira uma espécie de organização para cometer delitos e praticar irregularidades", definiu.

"O Parente é serpente"

Itamar Aguiar/Agencia Freelancer
A presidente afastada, Dilma Rousseff, participa do lançamento do livro "A Resistência ao Golpe de 2016", em Porto Alegre (RS)
Também se referiu de forma irônica ao presidente da Petrobras, Pedro Parente, que tomou posse na quinta-feira (2). "O Parente é serpente, falou que tinha que desmontar o pré-sal. Nunca vi empresa de petróleo não querer petróleo. Não acho que o petróleo seja uma das grandes riquezas desse país", afirmou em tom jocoso. E completou: "Essa questão é extremamente grave. Teremos de nos unir, porque vai exigir de nós muita capacidade de luta".

Dilma se referia a uma comédia do cineasta italiano Etore Scola em que uma família se autoaniquila devido à possibilidade de receber uma herança.

A presidente afastada chegou à Assembleia gaúcha às 16h25 e foi saudada com gritos de "Dilma, guerreira da pátria brasileira" por cerca de 550 pessoas que conseguiram acesso ao teatro Dante Barone, no prédio da Assembleia. Outras 150 pessoas ficaram no saguão assistindo à cerimônia por um telão.

O livro, que reúne mais de 80 artigos de juristas, professores, artistas e intelectuais, está sendo lançado por Dilma em várias capitais brasileiras. Uma das autoras, a filósofa Katarina Peixoto, disse que a obra pretende denunciar o "caráter arbitrário" do afastamento da presidente.

O ex-governador e ex-ministro Tarso Genro, que assina um dos artigos do livro, disse que a oposição se valeu de um argumento de grande apelo popular, que é a corrupção para depor um governo constitucional e impor uma agenda liberal ao país.

"Fizeram uma confederação de denunciados, de processados, de investigados. Uma confederação de corruptos para depor a presidente. Mas esse movimento teve uma vantagem: tirou de dentro do nosso governo a pior parte", discursou.

A presidente chegou ainda na sexta-feira à noite em Porto Alegre. Pela manhã, Dilma andou de bicicleta na orla do Guaíba por volta das 9h. Devido ao frio – fazia menos de 9ºC no momento em que a presidente saiu para pedalar – o exercício foi feito mais tarde do que o habitual.

Dilma deve permanecer em Porto Alegre até domingo.

* Colaborou Flávio Costa, em São Paulo

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