Protesto anti-Temer tem clima eleitoral e confusão em SP

Flávio Costa*

Do UOL, em São Paulo

A três semanas do primeiro turno das eleições municipais, o protesto contra o governo do presidente Michel Temer (PMDB) neste domingo (11) na avenida Paulista, em São Paulo, recebeu a presença de dois candidatos à Prefeitura da capital: o atual prefeito, Fernando Haddad (PT), que tenta a reeleição; e Luiza Erundina, candidata do PSOL.

A passeata também ficou marcada por uma confusão entre a PM (Polícia Militar) e manifestantes, que chegaram a 60 mil, segundo a organização. Já a PM estimou em 8 mil pessoas o número de presentes.

Cris Faga/Fox Press Photo/Estadão Conteúdo
A candidata do PSOL à Prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina, participa de ato contra o governo

"São Paulo vai protagonizar a saída para aos vários problemas criados por este governo golpista", disse Erundina, que foi bastante aplaudida. "Não vamos sair das ruas até cair o último golpista deste país. Amanhã vai cair o [Eduardo] Cunha, pode começar a chorar", afirmou. A Câmara deve votar nesta segunda-feira (12) o pedido de cassação do mandato de Cunha (PMDB-RJ), acusado de envolvimento no escândalo da Petrobras.

Haddad chegou por volta das 16h40 ao ato. "Temos que defender os direitos sociais previstos na Constituição", disse o prefeito.

Ao discursar, Haddad começou com "Primeiramente...", ao que o público respondeu com "fora, Temer". "E segunda?", perguntou Haddad, para ouvir, em resposta, "fora, Cunha". "O que está em jogo são as conquistas de 1988. Estamos lutando por um Brasil democrático. Não vamos sair das ruas enquanto nossos direitos estiverem sendo ameaçados", disse o prefeito.

Amanda Perobelli/Estadão Conteúdo
Fernando Haddad participa de ato contra Michel Temer

A manifestação contou ainda com militantes de PT, PSOL, PSTU, PCdoB e PCO, alguns deles com bandeiras dos partidos e das campanhas. Entre os políticos, estão presentes Ivan Valente (PSOL), vice na chapa de Erundina; o presidente do PT, Rui Falcão; o ex-senador e candidato a vereador em São Paulo, Eduardo Suplicy (PT), e os senadores Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e Lindbergh Farias (PT-RJ).

"A pressão das ruas tem que ser seguida por uma pressão do voto. É preciso derrotar os candidatos golpistas. Aqui em São Paulo, os três que lideram as pesquisas são da turma do Temer", disse Rui Falcão, sem citar nomes.

Segundo a última pesquisa Datafolha, divulgada na sexta-feira (9), Haddad tem 9% das intenções de voto, contra 7% de Erundina. Celso Russomanno (PRB) lidera a corrida, com 26% das intenções.

Três são presos

O ato, que vinha transcorrendo de maneira pacífica, teve confusão por volta das 17h. A Polícia Militar abordou manifestantes que, segundo major Teles, que comandava o policiamento, estavam mascarados e portando objetos suspeitos, como facas, bolas de gude e soco inglês. Dois acabaram detidos -- um homem e uma jovem, que seria menor de idade.

Rafael Stedile/Futura Press/Estadão Conteúdo
PM prende manifestante durante protesto contra governo Temer em São Paulo

Outros manifestantes tentaram impedir as prisões e houve confronto. Um homem com camisa do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) foi ferido na cabeça, mas conseguiu escapar do cerco policial. Outro que vestia uma camisa preta e portava mochila foi preso. Na confusão, a PM jogou spray de pimenta nos ativistas, que revidaram atirando garrafas de cerveja nos policiais.

As três pessoas foram conduzidas ao 78º DP, delegacia localizada nos Jardins. "Tenho certeza de que elas não fazem parte dessa manifestação, e a gente está aqui para garantir que a manifestação transcorra tranquilamente", disse o major Teles.

Entre as pessoas que foram abordadas pela PM, em frente ao Parque Trianon, estava uma adolescente de 17 anos. "A PM nos abordou com violência, a gente recebeu empurrão, levou nossos documentos. Eu consegui escapar", disse ao UOL a jovem, integrante de um grupo de performance chamado "Artivismo".

Amanda Perobelli/Estadão Conteúdo
Ativistas favoráveis a uma intervenção militar e manifestante anti-Temer entraram em confronto

Em outro ponto da avenida Paulista, ativistas favoráveis a uma intervenção militar, que estavam em uma tenda em frente à Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e participantes da passeata contrária a Temer entraram em confronto. Os manifestantes trocaram socos e pontapés durante a breve confusão.

Críticas a Temer

O ato foi marcado por várias críticas a medidas anunciadas recentemente pelo governo Temer, como o possível aumento da jornada de trabalho de 8 horas para 12 horas -- proposta já negada pelo governo.

"É preciso derrotar a pauta que prevê a ampliação da jornada de trabalho, revogação dos benefícios previdenciários e o projeto que enfraquece a Petrobras. Não podemos permitir que continue a repressão à liberdade de expressão. Os movimentos tendem a crescer ampliando a rejeição internacional ao golpe também", disse Falcão.

Suplicy, muito assediado durante o ato, disse que entregou na manhã deste domingo uma carta a um segurança da casa de Temer em SP. Na carta, Suplicy e outros candidatos a vereador pedem que o presidente Temer realize uma consulta popular sobre a continuidade de seu governo ainda neste ano.

A manifestação tinha cerca de 1.000 presentes por volta das 16h, segundo a Polícia Militar, e 60 mil às 18h, segundo a organização. O ato foi organizado pela Frente Brasil Popular junto com a Frente Povo Sem Medo, ambas formadas por movimentos sociais. O protesto seguiu pela avenida Brigadeiro Luís Antônio até o Monumento às Bandeiras, na entrada do parque Ibirapuera, onde chegou por volta das 18h30.

Uma nova manifestação foi marcada para o próximo domingo, às 14h, também na avenida Paulista.

Flávio Costa/UOL
Faixa da CTB critica proposta do governo Temer que aumentaria jornada semanal para até 80 h

Entre os gritos de guerra dos manifestantes, pode ouvir-se "nenhum direito a menos!", "Ole, ole, ole/Fora Temer" e "Ole, ole, olá, Diretas Já". Os manifestantes também pediram "fora, Cunha" e "Cunha na cadeia", em referência ao ex-presidente da Câmara.
 

Manifestantes

Flávio Costa/UOL
A educadora ambiental Dora Lima foi à avenida Paulista protestar

A educadora ambiental Dora Lima, 61 anos, foi uma das manifestantes que foram à avenida Paulista. Ela diz participar de todos os atos contra a atual gestão. "Vivemos uma ditadura disfarçada e com o apoio dos Estados Unidos", afirma. Ela se declarou contra a realização de uma eleição presidencial antecipada este ano. "Eleição custa muito caro. Dilma tem que voltar e terminar seu mandato."

Marcus Kollbrunnir, 48, militante do PSOL, aproveitou para vender broches na manifestação. Ele oferece os pequenos a R$ 2 e grandes, a R$ 3. Além dos broches com a frase "fora, Temer", há outros com o símbolo do PSOL, contra a Rede Globo e a favor das causas feminista e LGBT -- além dos que trazem o rosto de personagens históricos (Karl Marx, Che Guevara, Frida Kahlo) e dos quadrinhos (Mafalda). Mas o campeão de vendas é o que defende a saída do presidente. "Chego a vender mais de 100 bottons (broches) 'Fora Temer', é sempre o mais vendido. Houve passeata em que vendi 500. Hoje está mais fraco porque ainda não tem tanta gente", diz. "Todo dinheiro arrecadado vai para o nosso movimento."

Flávio Costa/UOL
Broche "fora, Temer" é o mais vendido em protesto contra o governo na Paulista

Colaborou Bernardo Barbosa

Snap do UOL acompanha novo dia de protestos contra Temer em SP

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