Sucessor de Barusco na Petrobras é alvo de nova fase da Operação Lava Jato

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

A PF (Polícia Federal) deflagrou nesta terça-feira (28) a 39ª fase da Operação Lava Jato. Chamada de "Paralelo", ela evidencia "a sofisticação dos esquemas de lavagem de dinheiro utilizados para o pagamento de propina decorrente de contratos da Petrobras", segundo a força-tarefa da Lava Jato.

O alvo principal da nova etapa é Roberto Gonçalves, ex-gerente-executivo de Engenharia da Petrobras, preso pela manhã em Boa Vista (RR). A Justiça Federal expediu um mandado de prisão preventiva (sem prazo) contra Gonçalves. Ele teria sido destinatário de mais de US$ 5 milhões.

O juiz Sergio Moro, da 13ª Vara da Justiça Federal, em Curitiba, também expediu outros cinco mandados de busca e apreensão no Rio.

Segundo o delegado da PF Igor Romário de Paula, embora Gonçalves tenha residência no Rio, o fato de ele ter sido preso em Boa Vista, onde tem familiares, não indica que estivesse se escondendo ou planejando fugir.

Gonçalves sucedeu a Pedro Barusco no cargo de gerente na Petrobras. Barusco, que atualmente cumpre prisão domiciliar, foi um dos primeiros a fechar acordo de delação na Lava Jato, ainda em 2014. Ele se comprometeu a devolver US$ 97 milhões aos cofres públicos.

Em setembro do ano passado, Gonçalves foi indiciado pela PF por corrupção, fraude a licitação e organização criminosa. Em novembro de 2015, ele já havia sido preso no âmbito da 20ª etapa da Lava Jato. Segundo a força-tarefa, na época, o "arcabouço probatório era bem menor".

Ueslei Marcelino/Reuters
Pedro Barusco foi um dos primeiros a fechar acordo de delação, em 2014

De acordo com o MPF (Ministério Público Federal), Gonçalves teria recebido US$ 1,2 milhão em propinas em pagamentos feitos por Ricardo Pessoa, diretor da UTC Engenharia, e Mario Goes, operador financeiro e intermediário entre executivos e agentes públicos, segundo os procuradores. Pessoa e Goes confirmaram o repasse em depoimentos à Lava Jato.

De acordo com informações obtidas pela Lava Jato, uma apuração interna da Petrobras considerou Gonçalves responsável por "parte das irregularidades encontradas nas licitações e contratos do Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro), como a contratação direta, em 2011, do consórcio TUC, formado, dentre outros, pela Odebrecht e pela UTC Engenharia", disse o MPF.

Movimentações no exterior

Na Suíça, Gonçalves também é investigado. Segundo as autoridades do país, foram identificadas cinco contas bancárias no país relacionadas ao ex-gerente.

"Uma delas está registrada em nome da offshore Fairbridge Finance AS, que tem Roberto Gonçalves como beneficiário final", segundo o MPF.

Apenas em 2011, essa conta recebeu cerca de US$ 3 milhões de outras offshores, estas ligadas ao departamento de propinas da Odebrecht.

Outra conta, da offshore Silverhill Group Investment Inc. --que também tem Roberto Gonçalves como beneficiário final--, recebeu, somente em 2014, mais de US$ 1 milhão provenientes da conta em nome da offshore Drenos Corporation, vinculada a Renato Duque, ex-diretor da Petrobras.

A conta de Duque foi "abastecida por valores oriundos da conta em nome da offshore Opdale Industries, que tem por beneficiário final Guilherme Esteves de Jesus, acusado de ter intermediado propinas em contratos da Petrobrás para o Estaleiro Jurong", de acordo com o MPF.

16.nov.2015 - Geraldo Buniak/AG/Estadão Conteúdo
O ex-gerente da Petrobras Roberto Gonçalves já havia sido preso em novembro de 2015

Gonçalves, segundo documentos obtidos pelas autoridades suíças, transferiu, em abril de 2014, parte do saldo da conta da Fairbridge Finance SA para outras na China e nas Bahamas.

"Essa conduta demonstra, além da reiteração de crimes de lavagem de dinheiro, o propósito de impedir o bloqueio dos ativos criminosos e frustrar a aplicação da lei penal", diz o MPF, que considera que, "apesar da tentativa de esconder o patrimônio, ainda foi possível o sequestro de mais de US$ 4 milhões de conta ligada a Roberto Gonçalves".

Segundo os procuradores, a prisão de Gonçalves foi pedida em função da prática de várias condutas de ocultação de dinheiro ilícito por Roberto Gonçalves, com nível significativo de sofisticação, é indicativo de "prática criminal em série, de caráter habitual".

Outros mandados

A Justiça também expediu cinco mandados de busca e apreensão contra Miguel Júlio Lopes e Gildo Justino do Prado, sócios da corretora de valores Advalor. De acordo com a Lava Jato, eles estariam ligados a esquemas de lavagem de dinheiro e ao pagamento de vantagens indevidas a funcionários da Petrobras, como Gonçalves.

Goes, Barusco e Eduardo Musa, ex-gerente da área Internacional da Petrobras, "afirmaram que se valeram dos serviços da Advalor para receber vantagens indevidas provenientes de contratos da Petrobras", segundo o MPF.

Entre 2010 e 2014, a Advalor movimentou mais de R$ 6 milhões de Barusco, Gonçalves, Goes, além do ex-funcionário da Petrobras Celso Araripe e do ex-executivo da Odebrecht Rogério Araújo.

"Assim, as medidas de busca e apreensão representam o aprofundamento das investigações, com vistas à coleta de provas sobre essas movimentações financeiras", diz o MPF.

Segundo a PF, a 39ª fase chamar-se Paralelo é "uma simples alusão à atuação clandestina à margem dos órgãos de controles oficiais do mercado financeiro por parte dos investigados".

O UOL entrou em contato com a Advalor, mas o atendente informou que não havia ninguém disponível para apresentar um posicionamento da empresa a respeito da operação desta terça.

A defesa de Roberto Gonçalves disse que foi surpreendida com a prisão. "Meu cliente estava visitando parentes em Boa Vista, Roraima", disse o advogado James Walker Júnior. "Ainda não tivemos acesso aos autos e a todo conteúdo que motivou o decreto prisional". Walker irá a Curitiba para conversar com seu cliente.

A reportagem aguarda o posicionamento da defesa do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco.

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