Operação da PF mira presidente da Alerj e conselheiros do TCE-RJ

Do UOL, em São Paulo e no Rio*

  • Estefan Radovicz/Agência O Dia/Estadão Conteúdo

    O presidente da Alerj, deputado Jorge Picciani (PMDB), chega à sede da PF no Rio

    O presidente da Alerj, deputado Jorge Picciani (PMDB), chega à sede da PF no Rio

A Polícia Federal deflagrou, nesta quarta-feira (29), a Operação "O Quinto do Ouro", que investiga um esquema de pagamentos de propina oriunda de dinheiro desviado de contratos com órgãos públicos para agentes do Estado. Entre os alvos está o presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), deputado Jorge Picciani (PMDB), e conselheiros do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado).

Picciani, líder do PMDB local e pai de Leonardo Picciani, ministro dos Esportes, é alvo de um mandado de condução coercitiva (quando a pessoa é obrigada a depor). Ele chegou à sede da Polícia Federal, na praça Mauá, região portuária do Rio, por volta do meio-dia para prestar depoimento. Agentes da PF também fizeram buscas em sua casa e em seu gabinete na Alerj.

Já cinco dos sete conselheiros do TCE são alvos de mandados de prisão temporária (com prazo inicial de cinco dias). São eles: Aloysio Neves (atual presidente do TCE-RJ); Domingos Brazão, José Gomes Graciosa, Marco Antônio Alencar e José Maurício Nolasco. Por volta das 14h45, todos já estavam presos. Aloísio Gama, um ex-conselheiro, também é alvo de prisão temporária.

O Tribunal de Contas é o órgão responsável pela fiscalização da aplicação dos recursos públicos feitos pelo governo estadual.

Cris Torres/Governo do Estado do RJ/Divulgação
Jonas Lopes de Carvalho, ex-presidente do TCE-RJ, delatou esquema de corrupção

As investigações tiveram origem em uma delação premiada realizada entre dois investigados e a PGR (Procuradoria Geral da República). Uma delas envolve o também conselheiro Jonas Lopes de Carvalho, que é ex-presidente do TCE-RJ e denunciou um esquema de arrecadação de propina no órgão.

Na ocasião, o agora delator Carvalho era suspeito de pedir dinheiro à Odebrecht para que o TCE-RJ aprovasse o edital de concessão do Maracanã e um relatório sobre as obras da linha 4 do metrô do Rio --projetos nos quais a empresa está diretamente envolvida. Segundo a PF, a operação de hoje não é uma fase da Lava Jato. Ela é um desdobramento da "Operação Descontrole", de dezembro do ano passado. 

Hoje, a PF mobilizou cerca de 150 agentes para cumprir 43 ordens judiciais (20 mandados de busca e apreensão, 17 conduções coercitivas e as 6 prisões temporárias). As ações foram determinadas pelo ministro Félix Fischer, do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

As buscas pelos envolvidos estão ocorrendo nas cidades do Rio de Janeiro, Duque de Caxias e São João do Meriti. 

Segundo a PF, é investigada a participação de membros do tribunal, "os quais seriam responsáveis por zelar pelos atos firmados pelo Estado", no recebimento de pagamentos indevidos oriundos de contratos firmados com o Estado do Rio de Janeiro. O pagamento da propina seria em troca do favorecimento na análise de contas e contratos sob fiscalização no TCE.

"Agentes públicos teriam recebido valores indevidos em razão de viabilizar a utilização do fundo especial do TCE para pagamentos de contratos do ramo alimentício atrasados junto ao Poder Executivo do Estado do Rio de Janeiro, recebendo, para tal, uma porcentagem por contrato faturado", diz a PF em nota.

O UOL ainda não conseguiu contato com os alvos da operação.

Presidente da Alerj

Picciani foi eleito em janeiro para seu sexto mandato como presidente da Alerj, e tem sido o principal suporte do governo de Luiz Fernando Pezão para a votação de medidas anticrise. Ontem, ele esteve em Brasília, onde se encontrou com o presidente Michel Temer e diversas lideranças do PMDB.

Uma empresa de seu filho, Leonardo Picciani, ministro dos Esportes, já havia aparecido na mira da Lava Jato em um relatório de inteligência financeira feita por órgão de controle da Fazenda e é acusada por delatores de fazer parte do esquema de corrupção.

Em nota, o PMDB no Rio diz que não tem "ciência das razões que levaram à condução" de Picciani, "mas tem certeza de que ele dará todos esclarecimentos às autoridades competentes". 

Também em nota, a Alerj afirma que "está mantida a Ordem do Dia de hoje". "Os mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Félix Fischer nos gabinetes da presidência da Casa foram cumpridos normalmente pelos agentes da Polícia Federal (PF) na manhã de hoje", diz o texto.

Inspiração histórica

De acordo com a PF, o nome da operação é uma referência ao "Quinto da Coroa". Trata-se do imposto correspondente a 20% que a Coroa Portuguesa cobrava dos mineradores de ouro no período do Brasil Colônia.

"Uma das mais conhecidas formas de recolhimento ocorria mediante a obtenção de 'certificados de recolhimento' pelas casas de fundição", comenta a Polícia Federal.

A instituição lembra que, "apesar do rigor na criação de uma estrutura administrativa e fiscal, visando sobretudo a cobrança dos quintos, o imposto era desviado". Como exemplo, a PF lembra que o ouro era, por exemplo, guardado em pó em vasos de barro ou imagens sacras ocas.

*Com colaboração de Marcela Lemos, no Rio, e Nathan Lopes, em São Paulo

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