Demitida da Odebrecht, ex-secretária diz ser discriminada na busca de emprego

Depoimento a Daniela Garcia

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    Ana Lúcia Leopoldino foi demitida em dezembro de 2015

    Ana Lúcia Leopoldino foi demitida em dezembro de 2015

"Amigos, enquanto o emprego fixo não vem estou trabalhando informalmente com passadora de roupa em domicílio, acompanhamento de idosos e crianças em seu dia a dia, idas a consultas médicas, etc. Agradeço repassarem a seus contatos". Ex-secretária executiva trilíngue da Odebrecht, Ana Lúcia Leopoldino, 55, divulgou o anúncio por meio do Facebook e Whatsapp em 28 de março deste ano.

Desempregada há um ano e quatro meses, a carioca está perdendo as esperanças de voltar a trabalhar na função que desempenhava na empreiteira, envolvida no escândalo de corrupção investigado pela Operação Lava Jato.

Eu tenho uma história limpa. Mas parece que quem passou nessa empresa tem um carimbo na testa: você veio do antro.

Ana Lúcia, que deixou a Odebrecht em 2 de dezembro de 2015, está dentre os milhares de demitidos pela empreiteira, entre 2014 e 2016. Desde que se tornou alvo da Operação Lava Jato, o grupo demitiu 95 mil pessoas, somente entre funcionários diretos e terceirizados, de acordo com o jornal "Estado de S.Paulo". Segundo o levantamento, a companhia sofreu um corte de vagas de 54%. Em dezembro de 2013, eram 175 mil empregados, que passaram a ser 80 mil em dezembro de 2016. 

Ana Lúcia trabalhou na Odebrecht por cinco anos e diz que nunca desconfiou que a empresa estivesse envolvida num esquema de corrupção. "Eu jamais vi mochila de dinheiro passando. Nós [funcionários] não tínhamos alcance do que estava acontecendo, por motivos óbvios. Não era para peão [saber]".

Apesar de não estar na mira das investigações, a carioca diz ser vítima de preconceito na busca por emprego. "Estamos sofrendo discriminação. A gente percebe no semblante do entrevistador o 'não'. E o 'não' vem exatamente porque viemos da Odebrecht".

Veja os principais trechos do depoimento de Ana Lúcia ao UOL.

*

Só senti o impacto da Lava Jato, quando as demissões começaram a acontecer com mais frequência. Eu ficava sabendo no cafezinho, conversando com os colegas ou lia na internet que milhares estavam sendo demitidos ao redor do mundo.

Fui demitida em 2 de dezembro de 2015 juntamente com outros funcionários. Na época, eu tinha o cargo de secretária-executiva de uma presidência no Rio de Janeiro. 

A empresa sempre foi excelente como chefia, como liderança. Eu sempre fui bem tratada, bem paga, e mesmo no momento da demissão, os direitos foram bem cumpridos. Mas nada disso paga o que estou vivendo agora. Eu tenho uma história limpa. Mas parece que quem passou nessa empresa tem um carimbo na testa: você veio do antro.

Eu estou quase há um ano e meio fora do mercado de trabalho. Sou uma secretária sênior. Falo três idiomas: inglês, francês e espanhol. Tenho uma vasta experiência no que faço. No entanto, não consigo emprego. Eu sei que o país inteiro está em crise.

Mas nós, que fomos demitidos da Odebrecht, estamos passando por uma crise dupla. Uma vez que estamos sendo discriminados ostensivamente pelas empresas que possuem vagas que poderiam ser ocupadas por nós. 

O que está acontecendo é que pessoas inocentes estão recebendo o mesmo carimbo que os culpados receberam da Justiça.

Preconceito nos processos seletivos

Nas poucas entrevistas a que compareci, fica muito claro que sou boa profissional, com ótimo currículo. Mas, no último momento, a gente percebe no semblante do entrevistador o "não". E o "não" vem exatamente porque viemos de onde viemos, da Odebrecht. Conversando com ex-colegas, chegamos a uma conclusão: estamos sofrendo discriminação, preconceito, quando nada vimos, nada fizemos.

Muitas vezes você anda no processo seletivo. Vai uma, duas, três vezes a empresa, subindo de nível de entrevistador. Você chega a conversar com que seria o seu chefe como se fosse para uma finalização, praticamente. E aí dizem: "Na semana que vem, ligamos para gente combinar a contratação com você".

Aí, na semana que vem não acontece nada. Você cerimoniosamente aguarda. Na outra semana, você manda um e-mail, e a pessoa não responde. Na terceira semana, você dá uma ligada. Aí a pessoa fala: "olha, acabou que a vaga foi preenchida por outras pessoas que também estavam no processo. Mas você é ótima. Gostamos muito de você. Seu currículo está aqui conosco".

Você percebe nitidamente que houve um "não", em função da sua origem.

Secretariei algumas das pessoas que vemos hoje passando na TV nos noticiários e, que para mim, sempre foram pessoas de um comportamento exemplar, educadas, corretas.

Jamais vi mochila passando para cima ou para baixo ou jamais suspeitei de qualquer coisa. Eu e todos os meus ex-colegas, nós éramos operários de uma empresa. Nós não tínhamos alcance, conhecimento do que estava acontecendo, por motivos óbvios. Era uma coisa grande demais. Não era para peão.

É necessário que se tire esse estigma dos ex-funcionários dessa empresa. Nós nunca desconfiamos de nada. A vida lá passava normal.

Nós estamos hoje supercapacitados e ao mesmo tempo sem ter para onde ir.

Merecemos ter as mesmas oportunidades que as outras pessoas têm, apesar da crise. Nós não podemos ser condenados pelos erros alheios dos quais nós não tínhamos a menor noção. Eu nunca percebi nada. Até porque eles eram mestres, sabiam fazer bem feito há décadas. Então, não era para gente perceber mesmo. Passava incólume. 

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Enganada como cidadã e funcionária

Me sinto feita de palhaça. Quando você está ciente do que está fazendo é uma opção de vida. Mas quando você é usada de forma ilegítima você se sente mortalmente ferida. Me sinto ofendida e enganada como cidadã e funcionária.

O trabalho honesto que eu fazia levou indiretamente a tudo isso. Levou a miséria da população brasileira, inclusive, a minha miséria.

Eu passei a viver de empréstimos do meu padrasto. Tenho no banco só R$ 6.000. Deve ser o suficiente para levar a vida de uma forma bem espartana nos próximos três meses. Tentei já vender meu carro, que é o meu único bem. Mas não recebi nenhum telefonema. Acho que ninguém está tendo dinheiro assim como eu.

Busca de novas opções de trabalho

Foi então que decidi encaminhar um anúncio, pelo Facebook e Whatsapp, me oferecendo de passadeira, babysitter [babá] ou cuidadora de idosos.

São serviços que eu poderia prestar com diárias, sem ter vínculo, e que eu poderia ficar ainda livre para fazer entrevistas de emprego. Mas até hoje não tive nenhum contato. Acho que as pessoas ficam constrangidas de me indicar para uma função que consideram como menor. 

Me pergunto como estarão as outras pessoas desempegadas como eu. Porque não tenho que pagar material escolar ou remédio para crianças. Só sou eu. Tenho meus filhos criados.

Se soubesse lá atras que isso [esquema de corrupção] acontecia, eu teria saído da Odebrecht e teria conseguido emprego, porque ainda não havia crise. Lamento muito ter feito parte dessa teia por tanto tempo. Tenho muita vergonha.

*

Outro lado

Procurada pela reportagem sobre a situação de Ana Lúcia, a Odebrecht respondeu apenas sobre a questão do número atual de funcionários. A empresa informou ter sofrido nos últimos três anos impacto tanto da crise econômica como da Lava Jato.

O grupo confirmou que encerrou o ano de 2016 com cerca de 80 mil integrantes, uma queda de 38% no seu quadro de pessoal em relação ao ano anterior. 

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