MPF vai investigar empresário apontado como operador de Aécio Neves

Leandro Prazeres e Flávio Costa

Do UOL, em Brasília

  • Rafael Andrade/Folhapress

    O empresário Alexandre Acciolly, amigo de Aécio Neves

    O empresário Alexandre Acciolly, amigo de Aécio Neves

O empresário e compadre do senador Aécio Neves (PSDB-MG) Alexandre Acciolly será investigado pelo MPF (Ministério Público Federal) depois que a PF (Polícia Federal) interceptou ligações entre o tucano e um homem que, segundo relatório da Operação Patmos, é apontado como Acciolly. A informação foi confirmada por fontes ligadas à investigação. 

O empresário já havia sido citado por um delator da Odebrecht como dono de uma conta em Cingapura na qual teriam sido feitos depósitos de propina destinados a Aécio.

Durante as investigações da Operação Patmos, a PF interceptou ligações telefônicas entre o senador afastado Aécio Neves e um homem que a PF diz acreditar que seja o empresário Alexandre Acciolly.

A PF afirma que interceptou três ligações feitas por Aécio, a partir de um celular pertencente a um assessor do senador. Uma ligação foi feita à irmã dele, Andrea Neves, que foi presa durante a deflagração da Operação Patmos. "As outras duas são para o mesmo interlocutor, e cujo interlocutor era referenciado por AÉCIO NEVES como 'MORENO', contudo o interlocutor também referência (sic) AÉCIO NEVES como 'MORENO'", lê-se no relatório da PF.

As duas conversas aconteceram entre os dias 29 e 30 de abril. Na primeira, Aécio chama a atenção de seu interlocutor, identificado no diálogo como "Moreno", às notícias publicadas pelo jornal "O Estado de S. Paulo" no dia 29. Accioly nega que seja ele o interlocutor (leia mais abaixo).

Em uma conversa aparentemente cifrada, segundo a PF, o tucano conversa sobre um "passeio de moto" e "motoqueiros malucos":

 
Aécio Neves: Deixa eu te falar, cara. Não sei se vai ser simples... mas eu precisava que você tentasse dar uma procurada lá na... naquele negócio do passeio de moto, sabe?
Moreno: Unhum
Aécio Neves: Naquela organização que a gente ia fazer em julho.
Moreno: Unhum.
Aécio Neves: É. Porque... você viu nos jornais hoje?
Moreno: Mais ou menos. Uma parte sim, outras... algumas outras coisas aí.
Aécio Neves: É não. É não. Tem uns negócios listados que o cara ia ser o guia, sabe? [inaudível]
Moreno: Unhum. Sei.
Aécio: Procurou para... pra fazer o roteiro, entendeu? Ainda...
Moreno: Tá.
Aécio Neves: E eu tô sem nenhuma...sabe... informação que, que por conta daquelas coisas, daqueles malucos lá, sabe?
Moreno: Unhum.
Aécio Neves: Aqueles motoqueiros malucos que falaram qualquer coisa. Em vez de chamar, eles resolveram se antecipar, sabe?
 
Aécio se despede mandando saudações às três meninas de "Moreno", que seriam suas filhas.

O relatório da PF sobre as interceptações telefônicas de Aécio Neves indica que, nas menções às notícias veiculadas no dia 29 de abril, os termos "motoqueiros malucos" e "passeio de moto" seriam alusivos à informação publicada naquele dia de que executivos da empreiteira Andrade Gutierrez teriam se adiantado a uma convocação do MPF para explicar as suspeitas de pagamento de propina referente às obras da usina hidrelétrica de Santo Antônio, em Rondônia

Para a PF, motoqueiros seriam os "delatores" e "passeio de moto" seria a delação.

Os indícios que levam a PF a crer que "Moreno" é Alexandre Acciolly estão na segunda conversa, registrada no dia 30, quando "Moreno" atende à ligação de Aécio e diz a uma criança que estava ao telefone com o "Dindo" dela.

Nesta conversa interceptada pela PF, "Moreno" também menciona parte do nome da criança que seria filha dele e afilhada de Aécio Neves.

Uma fonte ouvida pelo UOL diz que as conversas interceptadas seriam mais um elemento a apontar sobre a necessidade de se investigar a relação entre Aécio e Acciolly.

A suspeita é que Aécio teria acionado Acciolly para obter mais informações sobre os depoimentos prestados pelo dono da Andrade Gutierrez, Sérgio Andrade, e outros executivos do grupo sobre as relações da empreiteira com o senador tucano.

Um ex-executivo da Odebrecht na área de energia, Henrique Valladares, um dos delatores da Odebrecht, disse à Justiça que a companhia fez pagamentos de propina a Aécio Neves em uma conta em Cingapura apontada como sendo de Acciolly.

Em abril, quando o caso foi divulgado, o empresário divulgou uma nota à imprensa na qual ele negava ser titular de qualquer conta ou estrutura financeira em Cingapura.

"Nunca recebi depósito em favor de terceiros em conta alguma no Brasil ou no exterior. Minhas declarações de bens comprovam a licitude dos recursos que ingressaram em minhas contas e que são resultado unicamente de minhas atividades empresariais", dizia a nota.

Outro lado

Afastado de suas funções por decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), o senador Aécio Neves (PSDB-MG) divulgou um vídeo, por meio da assessoria de imprensa, no qual diz que é "vítima de uma armação" e que não ganhou dinheiro com a carreira política. 

O empresário Alexandre Accioly esclarece que não é o interlocutor do senador Aécio Neves na conversa gravada, ocorrida no dia 29/4/2017. Já na conversa do dia seguinte (30/4/2017) ele se identifica como parte do diálogo.

Ele informou, por meio de nota de sua assessoria de imprensa: "A confusão se dá porque nas duas conversas, o senador Aécio trata o interlocutor pelo apelido de 'Moreno'. É preciso esclarecer que ambos fazem parte de um grupo de cerca de dez amigos que se tratam uns aos outros pelo apelido de 'Moreno'. Isso fica claro na segunda conversa (essa sim com Accioly) quando Aécio cumprimenta: 'Fala, Moreno', e Accioly retribui: 'E aí, Moreno'".

Prossegue: "Na referida conversa do dia 29/04/2017 o interlocutor diz que está em Belo Horizonte. Há mais de cinco meses Accioly não vai à capital mineira e entre os dias 28/04/2017 a 30/4/2017 ele estava em Búzios, conforme o segundo diálogo. Essa informação pode ser facilmente comprovada pelo extrato do cartão de crédito do empresário que registra gastos em restaurantes de Búzios na noite de sexta-feira (dia 28/4/2017) e na noite de sábado (29/4/2017)".

"No final do diálogo Aécio se despede com 'um beijão em todas as três'. Accioly é casado e tem dois filhos, um menino e uma menina; o que mais uma vez comprova que não é parte da conversa", finaliza.

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