Operação Lava Jato

Empresa que lavou dinheiro de Cabral tornou funcionário de limpeza sócio, diz MPF

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Antônio Cruz/Agência Brasil

    Acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, Sérgio Cabral está preso desde novembro de 2016

    Acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, Sérgio Cabral está preso desde novembro de 2016

A 10ª denúncia apresentada pelo MPF (Ministério Público Federal) contra Sérgio Cabral (PMDB), preso desde novembro do ano passado, revela que um funcionário de limpeza e conservação foi alçado, em 2014, a sócio-administrador da empresa de fachada utilizada para lavagem de dinheiro em favor do ex-governador do Rio.

Os recursos ilícitos, estimados em R$ 1,7 milhão, foram movimentados por meio da Survey Mar e Serviços Ltda, uma espécie de subsidiária da FW Engenharia que emitia notas fiscais sem nunca ter prestado qualquer tipo de serviço, na versão dos investigadores.

Em troca dos repasses, narra o MPF na denúncia, a FW Engenharia teria obtido vantagens em contratos com o governo do Estado. Entre 2007 e 2014, período em que Cabral esteve à frente do Executivo, os acordos comerciais com a empreiteira aumentou 37 vezes e incluiu obras de grande impacto, como a urbanização das comunidades do Complexo de Manguinhos, na zona norte carioca.

Os procuradores do Ministério Público Federal calculam que, na soma dos contratos, os valores obtidos pela FW Engenharia saltaram de R$ 8,7 milhões, em 2007, para quase R$ 324 milhões, em 2014. Um crescimento de mais de 3.000%.

Na coleta de informações sobre a Survey, a Polícia Federal descobriu que o quadro societário da empresa de fachada é composto por dois personagens "curiosos". A maior participação (95%) pertence a Fabiana Lins Conde, neta do contador da FW Engenharia, Alberto Conde, também denunciado pelo MP.

Até junho de 2014, ela estava registrada como auxiliar de escritório na empresa. Ou seja, desde a admissão (10/3/2005) até a referida data, a neta de Conde atuava como uma simples assistente administrativa, sempre de acordo com o inquérito.

A situação do sócio-administrador, Jorge Gonzalo Martinez Escobar, detentor dos 5% restantes, também causou estranheza entre os investigadores. De 2000 a junho de 2014, narra a denúncia, ele constava como empregado de limpeza e conservação em uma empresa chamada "Remo".

Reprodução
Trecho da denúncia do MPF contém quadro ilustrativo com a composição societária da Survey

Escobar foi chamado para prestar esclarecimentos e, à Procuradoria da República, afirmou que "apenas ingressou no quadro social da empresa Survey Mar e Serviços Ltda a pedido de Alberto Conde". O depoente disse ainda que Conde era o seu chefe na Remo e que, por esse motivo, teria aceitado o trabalho. Além disso, revelou que, na ocasião, estava "gozando de auxílio-doença" e que o trabalho possibilitaria continuar como "segurado do INSS".

O próprio sócio-administrador da firma declarou, por fim, que desconhecia "as atividades prestadas pela Survey". Nos registros da Receita, a atividade principal da empresa é descrita como reparo e manutenção de computadores.

Antes de julho de 2014, a Survey tinha uma outra composição do quadro societário, o que também levantou suspeitas no decorrer do inquérito. Constavam como proprietários um ex-supervisor de almoxarifado e um ex-auxiliar do escritório de contabilidade registrado em nome de Conde.

UOL ligou para o telefone informado na ficha cadastral da Survey e foi atendido por uma pessoa que se identificou como Fabiana. Ela foi questionada se gostaria de apresentar sua versão, mas respondeu apenas que já havia prestado todos os esclarecimentos e que da Survey Mar não sairia "nenhuma informação para jornalistas".

Escobar, por sua vez, não foi localizado pela reportagem.

Notas eram emitidas a pedido de dono da FW, diz contador

Em depoimento aos procuradores da Lava Jato no Rio, Alberto Conde afirmou ter passado a emitir notas fiscais por meio da Survey a pedido do chefe, Flávio Werneck, dono da FW Engenharia e outro denunciado pelo Ministério Público.

Ele confirmou que a firma foi registrada em nome da neta e de seu ex-funcionário, mas ressaltou que tanto Fabiana quanto Escobar não sabiam de nada. Disse ainda que "nunca foi prestado qualquer tipo de serviço em razão desses pagamentos".

Ao UOL, a assessoria de comunicação da FW Engenharia informou que a empresa e os seus representantes, Werneck e Conde, não comentariam as acusações.

A Survey, instituída como microempresa desde 2003, está registrada na Receita Federal com sede em Vale das Pedrinhas, na cidade de Guapimirim, na Baixada Fluminense. Na denúncia, o MPF narra que este é o endereço residencial de Alberto Conde e que, no local, funcionariam cerca de cem outras empresas.

Durante as diligências, conforme relato da Polícia Federal, foram cumpridos mandados de busca e apreensão na localidade apontada como sede da Survey. A PF constatou, no entanto, "a inexistência de qualquer empresa em funcionamento naquele endereço". Para o MPF, isso reforça a tese de que ela era tão somente uma empresa de fachada criada para fins de lavagem de dinheiro.

Cabral pode se tornar réu pela 10ª vez

Essa é a 10ª denúncia oferecida contra Cabral desde que ele foi preso, em novembro do ano passado, na Operação Calicute.

Rodrigo Félix/Agência de Notícias Gazeta do Povo/Estadão Conteúdo
O ex-governador fluminense Sérgio Cabral está preso desde novembro de 2016
O político já se tornou réu em nove processos criminais, dos quais oito tramitam na 7ª Vara Federal Criminal, no Rio, e um na 13ª Vara Federal Criminal, do juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Além do crime de lavagem de dinheiro, o peemedebista responde por corrupção e organização criminosa.

Entre os beneficiários do esquema apresentado nesta sexta-feira, de acordo com a apuração do MPF, da Receita e da Polícia Federal, estavam pessoas ligadas a Cabral: seu operador financeiro, Carlos Miranda; a ex-mulher dele, Susana Neves; e o irmão, Maurício Cabral. Os três foram denunciados pelo MP ao lado do ex-governador e dos integrantes da FW Engenharia, Flávio Werneck e Alberto Conde.

Somente para Susana, entre 2011 e 2013, foram realizados 31 depósitos na conta bancária da Araras Empreendimento, empresa da ex-mulher de Cabral. As transferências somaram R$ 1,2 milhão e eram feitas a partir de valores fracionados, que variavam entre R$ 6.000 e R$ 56.310.

A defesa de Cabral tem informado que ele só vai se manifestar na Justiça. A reportagem ainda não conseguiu contato com os outros denunciados.

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