"Eu era o cofre dele", diz à Justiça doleiro que lavava dinheiro de Cabral

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO

Os irmãos Renato e Marcelo Chebar, doleiros que confessaram à Justiça serem responsáveis por lavar dinheiro de Sérgio Cabral (PMDB), afirmaram à 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, nesta quarta-feira (28), que o ex-governador decidiu ocultar recursos em contas no exterior porque estava "assustado" com as investigações da CPI do Propinoduto, um dos escândalos da gestão de Anthony Garotinho (chefe do Executivo fluminense de 1999 e abril de 2002).

Os interrogados ratificaram os pontos revelados em acordo de delação premiada com o MPF (Ministério Público Federal), homologado pela Justiça. Renato e o irmão, Marcelo, afirmaram que movimentavam dinheiro a mando de Cabral e de seus operadores, Carlos Miranda e Wilson Carlos, depositando valores em espécie para compra de dólares (o dinheiro era remetido à conta no exterior) ou atuando como uma espécie de "cofre" do ex-governador.
 
"Eu era o cofre dele", declarou Marcelo, explicando que os delatores haviam alugado uma sala comercial em um prédio em Ipanema, zona sul carioca, com objetivo de guardar dinheiro em espécie.
 
O esquema começou, segundo os depoentes, no primeiro ano de mandato de Cabral, em 2003. Até o ano anterior, justamente o da campanha vitoriosa no pleito para o governo do Estado, o peemedebista era deputado estadual e presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio).

À época, o escândalo do propinoduto deu origem a uma CPI no Parlamento, que se dedicou a revelar esquema de corrupção na Secretaria de Estado de Fazenda.

O grupo criminoso era chefiado por Rodrigo Silveirinha Corrêa, ex-subsecretário na gestão Garotinho e sentenciado 15 anos de prisão. A CPI resultou, em 2003, na condenação de 22 dos 24 envolvidos.

Nesta quarta, o doleiro não explicou, contudo, o motivo pelo qual Cabral teria se assustado com as investigações. Informou apenas que o procedimento de lavagem de dinheiro, alvo de apuração da Operação Lava Jato no Rio, teve início em tais circunstâncias.

Renato Chebar disse ainda ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, ter assumido a função de gerenciar o dinheiro de Cabral no exterior, com a finalidade de ocultar o verdadeiro proprietário dos recursos. O ex-governador teria autorizado a transferência inicial de US$ 2 milhões para uma conta em nome do doleiro, de acordo com o depoimento. "A partir dali, passei a operacionalizar a conta dele", afirmou Renato.

Mais de US$ 100 milhões no exterior

As colaborações premiadas dos irmãos Chebar ocorreram no âmbito da operação Eficiência, realizada em janeiro deste ano pela Polícia Federal. As contas administradas pelos doleiros no exterior, a serviço de Cabral, tiveram movimentação apurada de mais de US$ 100 milhões, dos quais US$ 80 milhões seriam do ex-governador e o restante dos seus dois operadores.

De acordo com a força-tarefa da Lava Jato, todo esse dinheiro foi obtido de forma ilícita, com cobrança de propinas em obras do governo do Estado e outros atos de corrupção.

Os irmãos Chebar também atuaram como intermediários, segundo denúncia oferecida à Justiça, em pagamento de propina feita pelo empresário Eike Batista, dono do grupo EBX, e recebida por Cabral. Para tal, o ex-bilionário --preso na Operação Eficiência e também réu no processo-- teria pago US$ 16,5 milhões por serviços fictícios da empresa Arcadia, dos irmãos Chebar. Após a transação, o dinheiro teria se somado ao patrimônio ilícito do ex-governador, conforme os doleiros revelaram em delação premiada.

A reportagem do UOL procurou a defesa de Cabral e aguarda posicionamento sobre as acusações. Os advogados têm reiterado que o ex-governador se manifestará em juízo.

Os depoimentos de Sérgio Cabral, Eike Batista e outros acusados foram marcados pelo juiz Marcelo Bretas para o dia 14 de julho, ainda com horário indefinido. Já os operadores Carlos Miranda e Wilson Carlos serão interrogados nesta sexta-feira (30), na 7ª Vara Federal Criminal, às 13h.

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