Operação Lava Jato

Janot pode ter usado documentos manipulados para denunciar Temer, diz Tacla Duran

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

  • Luciana Amaral/UOL

    CPI da JBS ouve, por videoconferência, o ex-advogado da Odebrecht Tacla Durán

    CPI da JBS ouve, por videoconferência, o ex-advogado da Odebrecht Tacla Durán

O advogado Rodrigo Tacla Duran, que foi operador do sistema de propinas da Odebrecht e atualmente mora na Espanha, afirmou nesta quinta-feira (30) que o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot pode ter usado documentos manipulados para sustentar a segunda denúncia apresentada contra o presidente Michel Temer (PMDB). O peemedebista foi acusado por obstrução de Justiça e organização criminosa junto aos ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência). A peça foi rejeitada pelo plenário da Câmara em 25 de outubro.

"Todas as provas que foram obtidas ou utilizadas a partir do Drousys, elas padecem de vício, são nulas pela movimentação, alteração e manipulações externas antes, durante e depois do bloqueio realizado pelas autoridades suíças", declarou.

Duran encaminhou à CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) da JBS relatórios periciais encomendados por ele na Espanha com informações do sistema de propinas da Odebrecht, chamado de Drousys, e documentos da polícia de Andorra que provariam que ele nunca teve conta em bancos ou off-shores no país. Embora tenha remetido os papéis à comissão, todos estão sob sigilo a pedido do próprio.

Duran afirmou que Janot anexou na denúncia extratos obtidos emitidos neste ano por meio do sistema. O Drousys foi bloqueado pelas autoridades suíças em março de 2016, ou seja, desde então não seria mais passível de modificações. No entanto, segundo Duran, teria sido manipulado pela Odebrecht com provas para satisfazer o Ministério Público Federal nas delações premiadas. Apesar da afirmação, Duran exime Janot de ter atuado com má-fé.

"Eu não parto da premissa de que o procurador-geral estava mentindo. Eu parto da premissa de que ele de fato obteve aquele documento dentro do Drousys. Isso indica que o sistema estava manipulado depois do bloqueio. É um documento falsificado", afirmou Duran.

A declaração foi dada à CPI da JBS, frigorífico controlado pelo grupo J&F, cujos empresários e executivos, como Joesley Batista e Ricardo Saud assinaram acordo de delação premiada junto ao Ministério Público Federal. Os relatos deles também basearam a maior parte das acusações contra Temer.

Duran foi convidado a dar seu depoimento via videoconferência por meio de requerimento do deputado Wadih Damous (PT-RJ). Como houve um convite, e não uma convocação, ele não era obrigado a se apresentar.

Com início marcado para as 9h, a sessão da comissão nesta quinta estava esvaziada. Somente cerca de oito parlamentares compareceram. Entre os ausentes estava o presidente da CPI, senador Ataídes Oliveira (PSDB-TO). O relator, deputado Carlos Marun (PMDB-MS), chegou apenas por volta das 11h20.

Duran mora na Espanha por ter cidadania espanhola e chegou a ser preso em novembro de 2016 a mando do juiz federal Sérgio Moro, responsável pelas ações da Lava Jato em primeira instância em Curitiba, no Paraná. Porém, foi solto em janeiro deste ano.

O governo brasileiro já pediu a extradição de Duran, mas, até o momento, não houve andamento no caso. "Não tenho nenhum problema com a Justiça. A questão é que o pedido de prisão preventiva para a extradição não foi baixado [no sistema do Judiciário] e meu processo não é encaminhado à Espanha. O porquê eu não sei", relatou Duran.

Advogado teria pedido propina por delação

Rodrigo Tacla Duran também acusou o advogado Carlos Zucolotto de propor receber propina em troca de intermediações paralelas com a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. Entre os benefícios estariam a redução da multa a ser paga em um possível acordo de delação a ser fechado entre Duran e o Ministério Público Federal na cidade.

Zucolotto é advogado trabalhista, amigo e padrinho de casamento de Sergio Moro, de acordo com o jornal "Folha de S.Paulo". Em nota, Moro já negou quaisquer supostas irregularidades e afirmou que tais tratativas nunca existiram. Duran, por sua vez, disse nesta quinta que preferia não comentar as negativas do juiz.

O ex-operador da Odebrecht afirma ter como provas do pedido de Zucolotto fotos tiradas das conversas entre os dois no aplicativo de mensagens Wickr. O programa apaga textos conforme o tempo programado pelo usuário e alerta os envolvidos sobre eventuais prints. Portanto, explicou Duran, as fotos teriam sido tiradas em outro celular.

"Naquela conversa ele [Zucolotto] propõe reduzir a multa [a ser paga no eventual acordo] de US$15 milhões para US$5 milhões, e que eu pagasse US$5 milhões de honorários. Isso quando recebesse a minuta do acordo de delação premiada. Eu encaminhei a perícia à CPMI de que as mensagens foram trocadas. Não houve alteração, modificação [das imagens]", relatou.

Questionado por parlamentares sobre a justificativa dada por Zucolotto para a proposta, Duran afirmou não saber nem ter perguntado, pois se sentiu "constrangido".

"Percebi que as intenções não eram as melhores para onde estavam caminhando as conversas. Achei melhor me resguardar. [...] Estava mais parecendo uma extorsão. [O dinheiro] seria em troca da atuação dele na intermediação para reduzir a multa. Ele diz que seria para ele e quem estava ajudando. Agora, quem estava ajudando, eu não sei", falou.

Duran ainda acusou o Ministério Público Federal de interferir no acordo que estava negociando com as autoridades americanas. "Os procuradores brasileiros foram convidados para reunião em agosto do ano passado. Não responderam nem compareceram", disse. Segundo Duran, a Odebrecht também tinha interesse em naufragar as conversas.

O UOL entrou em contato com a PGR e pediu um posicionamento sobre as declarações de Duran. A reportagem também pediu posicionamento do ex-procurador-geral Rodrigo Janot à instituição. A entidade e o ex-PGR ainda não se manifestaram.

Em nota, a Odebrecht informou que "vem colaborando com as investigações de forma definitiva" e que "a qualidade e eficácia da colaboração da empresa vêm sendo comprovadas e têm sido instrumento valioso no combate à corrupção nas regiões onde atua".

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