Operação Lava Jato

Joesley diz que desistiu de comprar construtora após ligação de ex-ministro da Fazenda

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO

    Joesley prestou depoimento nesta quinta ao juiz Marcelo Bretas, na 7ª Vara Federal Criminal (RJ)

    Joesley prestou depoimento nesta quinta ao juiz Marcelo Bretas, na 7ª Vara Federal Criminal (RJ)

O empresário Joesley Batista, dono da J&F, afirmou nesta quinta-feira (5) ter desistido de comprar a construtora Delta Construções depois de um telefonema do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, em 2012, durante a gestão da ex-presidente da República Dilma Rousseff (PT). O objetivo seria contornar uma polêmica causada por especulações de que o governo teria encomendado a compra para salvar a construtora e garantir obras federais.

Em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, no Rio, Joesley explicou detalhes da negociação entre ele e o ex-dono da Delta, Fernando Cavendish, para aquisição de 5% da empresa. Ouvido como testemunha de defesa de Cavendish, ele explicou que desejava entrar no mercado de construção e que, inicialmente, tratava-se de um negócio "simples e privado".

Porém, o processo de compra acabou se transformando em uma grande polêmica, que culminou na desistência por parte da J&F. Isso porque a Delta era investigada por denúncias de favorecimento ao bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e tinha vários contratos com a União para realizar obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Com a construtora em crise, especulou-se que o governo federal teria intermediado a negociação a fim de garantir a execução de obras do PAC. "Era um negócio totalmente privado, mas virou aquela polêmica toda. (...) Não imaginávamos que faria esse barulho", afirmou o depoente.

Em maio de 2012, Joesley disse ter recebido um telefonema "inusitado" do então ministro Guido Mantega. O empresário negou as especulações e disse não ter recebido qualquer "ordem" por parte do governo, mas confirmou que a ligação foi a "gota d'água" para que o negócio fosse desfeito.

Segundo ele, Mantega estava "bastante nervoso e exaltado" com as insinuações.

"O governo não me orientou. Nem uma coisa [comprar a construtora] nem outra [desistir do negócio]. O que aconteceu, de fato, é que o assunto virou uma polêmica política muito grande. O Guido estava bastante nervoso e exaltado com o fato de que eles [governo] não tinham nada a ver com isso. Inclusive, ele me falou: 'Joesley, tira nós [sic] desse negócio, não temos nada a ver com isso'."

O dono da J&F revelou ainda ter recebido do ex-ministro a informação de que a Delta Construções estava perto de ser declarada inidônea pela CGU (Controladoria Geral Unificada) por conta de irregularidades em licitações.

"O principal cliente da Delta era o governo. A última coisa que eu poderia fazer era comprar uma empresa que prejudicou o cliente, que causou dano ao cliente", disse.

Joesley prestou depoimento no âmbito da ação penal derivada da Operação Crossover, um desdobramento das operações Saqueador e Calicute, cujas investigações dizem respeito a crimes de formação de cartel, superfaturamento e fraude a licitações nas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em favelas cariocas e da reforma do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014.

A ação penal tem 20 réus. Além de Cavendish, respondem o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB), Hudson Braga (ex-secretário de Estado de Obras do RJ), Wilson Carlos (ex-secretário de Estado de Governo), Ícaro Júnior (presidente da Empresa de Obras Públicas do RJ) e 15 executivos de empreiteiras.

Propina para entrar na obra do Maracanã

Segundo a denúncia do MPF, Cavendish teria dado dinheiro ao grupo chefiado por Cabral para que a Delta Construções fizesse parte do consórcio da obra do Maracanã. Em depoimento à 7ª Vara, em dezembro do ano passado, o empresário afirmou ter dado um anel de presente de aniversário para a advogada Adriana Ancelmo, mulher de Cabral, e que a joia seria parte da propina destinada à cúpula do Executivo fluminense.

Na versão de Cavendish, ele e o casal Cabral estavam na França, em 2009, quando o ex-governador teria o levado a uma loja de joias. "Estou presenteando a minha esposa e gostaria que você pagasse", teria dito o político.

O anel custou, segundo o empreiteiro, 220 mil euros (quase R$ 900 mil em valores atualizados) e ostentava um diamante de quatro quilates. Logo após a compra, Cavendish teria alertado Cabral que o gesto não era um mero presente. E que precisaria de uma contrapartida. "Deixei claro que não era um presente. Acabou sendo um anel de compromisso", afirmou o réu durante interrogatório.

O valor da joia, de acordo com a narrativa do empresário, foi amortizado posteriormente no montante de propina paga ao ex-governador. No total, segundo estimativa de Cavendish, o grupo de Cabral teria recebido R$ 3,5 milhões em vantagens ilícitas na obra do Maracanã (apenas por meio da Delta). O diamante teria sido a primeira parcela do acordo.

Logo após o depoimento de Cavendish, também em dezembro, Cabral foi interrogado na 7ª Vara e reconheceu ter recebido o agrado, mas negou que tenha sido uma forma de propina. De acordo com o ex-chefe do Executivo fluminense, o anel foi um "presente de puxa-saco". Disse ainda ter devolvido a joia três anos depois do aniversário de Adriana Ancelmo, em 2012.

Na ocasião, a defesa de Cavendish não se manifestou a respeito das declarações de Cabral.

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