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Joesley diz que desistiu de comprar construtora após ligação de ex-ministro da Fazenda

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Joesley prestou depoimento nesta quinta ao juiz Marcelo Bretas, na 7ª Vara Federal Criminal (RJ) Imagem: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

05/04/2018 20h53

O empresário Joesley Batista, dono da J&F, afirmou nesta quinta-feira (5) ter desistido de comprar a construtora Delta Construções depois de um telefonema do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, em 2012, durante a gestão da ex-presidente da República Dilma Rousseff (PT). O objetivo seria contornar uma polêmica causada por especulações de que o governo teria encomendado a compra para salvar a construtora e garantir obras federais.

Em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, no Rio, Joesley explicou detalhes da negociação entre ele e o ex-dono da Delta, Fernando Cavendish, para aquisição de 5% da empresa. Ouvido como testemunha de defesa de Cavendish, ele explicou que desejava entrar no mercado de construção e que, inicialmente, tratava-se de um negócio "simples e privado".

Porém, o processo de compra acabou se transformando em uma grande polêmica, que culminou na desistência por parte da J&F. Isso porque a Delta era investigada por denúncias de favorecimento ao bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e tinha vários contratos com a União para realizar obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Com a construtora em crise, especulou-se que o governo federal teria intermediado a negociação a fim de garantir a execução de obras do PAC. "Era um negócio totalmente privado, mas virou aquela polêmica toda. (...) Não imaginávamos que faria esse barulho", afirmou o depoente.

Em maio de 2012, Joesley disse ter recebido um telefonema "inusitado" do então ministro Guido Mantega. O empresário negou as especulações e disse não ter recebido qualquer "ordem" por parte do governo, mas confirmou que a ligação foi a "gota d'água" para que o negócio fosse desfeito.

Segundo ele, Mantega estava "bastante nervoso e exaltado" com as insinuações.

"O governo não me orientou. Nem uma coisa [comprar a construtora] nem outra [desistir do negócio]. O que aconteceu, de fato, é que o assunto virou uma polêmica política muito grande. O Guido estava bastante nervoso e exaltado com o fato de que eles [governo] não tinham nada a ver com isso. Inclusive, ele me falou: 'Joesley, tira nós [sic] desse negócio, não temos nada a ver com isso'."

O dono da J&F revelou ainda ter recebido do ex-ministro a informação de que a Delta Construções estava perto de ser declarada inidônea pela CGU (Controladoria Geral Unificada) por conta de irregularidades em licitações.

"O principal cliente da Delta era o governo. A última coisa que eu poderia fazer era comprar uma empresa que prejudicou o cliente, que causou dano ao cliente", disse.

Joesley prestou depoimento no âmbito da ação penal derivada da Operação Crossover, um desdobramento das operações Saqueador e Calicute, cujas investigações dizem respeito a crimes de formação de cartel, superfaturamento e fraude a licitações nas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em favelas cariocas e da reforma do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014.

A ação penal tem 20 réus. Além de Cavendish, respondem o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB), Hudson Braga (ex-secretário de Estado de Obras do RJ), Wilson Carlos (ex-secretário de Estado de Governo), Ícaro Júnior (presidente da Empresa de Obras Públicas do RJ) e 15 executivos de empreiteiras.

Propina para entrar na obra do Maracanã

Segundo a denúncia do MPF, Cavendish teria dado dinheiro ao grupo chefiado por Cabral para que a Delta Construções fizesse parte do consórcio da obra do Maracanã. Em depoimento à 7ª Vara, em dezembro do ano passado, o empresário afirmou ter dado um anel de presente de aniversário para a advogada Adriana Ancelmo, mulher de Cabral, e que a joia seria parte da propina destinada à cúpula do Executivo fluminense.

Na versão de Cavendish, ele e o casal Cabral estavam na França, em 2009, quando o ex-governador teria o levado a uma loja de joias. "Estou presenteando a minha esposa e gostaria que você pagasse", teria dito o político.

O anel custou, segundo o empreiteiro, 220 mil euros (quase R$ 900 mil em valores atualizados) e ostentava um diamante de quatro quilates. Logo após a compra, Cavendish teria alertado Cabral que o gesto não era um mero presente. E que precisaria de uma contrapartida. "Deixei claro que não era um presente. Acabou sendo um anel de compromisso", afirmou o réu durante interrogatório.

O valor da joia, de acordo com a narrativa do empresário, foi amortizado posteriormente no montante de propina paga ao ex-governador. No total, segundo estimativa de Cavendish, o grupo de Cabral teria recebido R$ 3,5 milhões em vantagens ilícitas na obra do Maracanã (apenas por meio da Delta). O diamante teria sido a primeira parcela do acordo.

Logo após o depoimento de Cavendish, também em dezembro, Cabral foi interrogado na 7ª Vara e reconheceu ter recebido o agrado, mas negou que tenha sido uma forma de propina. De acordo com o ex-chefe do Executivo fluminense, o anel foi um "presente de puxa-saco". Disse ainda ter devolvido a joia três anos depois do aniversário de Adriana Ancelmo, em 2012.

Na ocasião, a defesa de Cavendish não se manifestou a respeito das declarações de Cabral.