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Política

Autor de livro contra PT, futuro ministro já criticou "educação de gênero"

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

22/11/2018 22h38

Autor do livro “A Grande Mentira – Lula e o Patrimonialismo Petista”, o futuro ministro da Educação, o professor e filósofo colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, já fez críticas ao que chamou de “educação de gênero” – que, segundo ele, é uma das “invenções deletérias” de uma “doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista”.

Formado em filosofia e teologia, Rodríguez hoje é professor associado aposentado da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Seu nome foi anunciado para o MEC (Ministério da Educação) pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), na noite desta quinta-feira (22).

“(...) a proliferação de leis e regulamentos sufocou, nas últimas décadas, a vida cidadã, tornando os brasileiros reféns de um sistema de ensino alheio às suas vidas e afinado com a tentativa de impor, à sociedade, uma doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista, travestida de "revolução cultural gramsciana", com toda a coorte de invenções deletérias em matéria pedagógica como a educação de gênero, a dialética do "nós contra eles" e uma reescrita da história em função dos interesses dos denominados "intelectuais orgânicos", destinada a desmontar os valores tradicionais da nossa sociedade, no que tange à preservação da vida, da família, da religião, da cidadania, em soma, do patriotismo”

Ricardo Vélez Rodríguez, em postagem em seu blog

A sinopse de seu livro “A Grande Mentira – Lula e o Patrimonialismo Petista”, publicado em 2015 pela Vide Editorial, diz que o PT “conseguiu potencializar as raízes da violência”, que “já estavam presentes na formação patrimonialista do nosso Estado e que se reforçaram com o narcotráfico, mediante a disseminação ao longo dos últimos treze anos, de uma perniciosa ideologia que já vinha inspirando a ação política do Partido dos Trabalhadores: a ‘revolução cultural gramsciana’”.

Antonio Gramsci foi um filósofo, cofundador do partido comunista italiano. Um dos conceitos estudados por ele foi o de hegemonia cultural, questionando a influência de recursos culturais, morais e ideológicos nas relações de classe.

A oficialização de Rodríguez aconteceu após uma reação negativa da bancada evangélica ao nome de Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna e ex-reitor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), que foi ventilado por uma fonte ligada à equipe de transição na quarta-feira (21).

Uma das principais reivindicações contra a indicação de Mozart para o cargo seria a falta de alinhamento dele com o projeto Escola Sem Partido, uma das bandeiras de aliados de Bolsonaro e que conta com apoio expressivo da bancada evangélica. Entre suas propostas, o projeto proíbe o uso de termos como “ideologia de gênero”, “gênero” ou “orientação sexual” no ensino no país.

Ao longo desta quinta-feira, o procurador regional da República Guilherme Schelb, abertamente defensor do Escola Sem Partido, também passou a aparecer como um dos cotados para o MEC. Ele e Bolsonaro chegaram a se reunir por mais de duas horas em Brasília nesta tarde –na saída do encontro, no entanto, Schelb negou que tivesse recebido um convite para o ministério.

O nome de Rodríguez para o MEC foi indicado pelo escritor Olavo de Carvalho, uma das pessoas próximas a Bolsonaro. O escritor tornou pública sua preferência por Rodríguez no dia 1º de novembro, em uma postagem em sua página no Facebook.

“Ricardo Vélez Rodríguez nasceu na Colômbia, e se naturalizou brasileiro, mas é, NO MUNDO, a pessoa que mais entende de pensamento político-social brasileiro -- motivo suficiente para que eu o considere o melhor nome para o Ministério da Educação”, publicou.

Em uma postagem em seu blog no dia 7 de novembro, intitulada “Um roteiro para o MEC”, Rodríguez agradeceu a indicação do “professor e amigo” Olavo de Carvalho e disse acreditar “desde o início no candidato Bolsonaro”.

“Aposto, para o MEC, numa política que retome as sadias propostas dos educadores da geração de Anísio Teixeira, que enxergavam o sistema de ensino básico e fundamental como um serviço a ser oferecido pelos municípios, que iriam, aos poucos, formulando as leis que tornariam exequíveis as funções docentes”, escreveu.

No texto, o futuro ministro ainda defende a realização de políticas efetivadas “de baixo para cima” –isto é, a partir dos municípios, e não da União--, que então revelariam a “feição variada do nosso tecido social no terreno da educação”.

“’Menos Brasília e mais Brasil’, inclusive no MEC. Essa seria a minha proposta, que pretende seguir a caminhada patriótica empreendida pelo nosso presidente eleito”, declarou.

Currículo

Formado em filosofia pela Universidade Pontifícia Javeriana e em teologia pelo Seminario Conciliar de Bogotá, Rodríguez é mestre em filosofia pela PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), na área de pensamento. É também doutor em filosofia pela Universidade Gama Filho, na área de filosofia luso-brasileira.

No Centro de Pesquisas Políticas Raymond Aron, em Paris, realizou uma pesquisa de pós-doutorado sobre a influência do pensador político e estadista francês Alexis de Tocqueville no Brasil.

Foi professor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) de 1985 a 2013, quando se aposentou na instituição. Nesse período, foi coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas.

Como docente, ainda teve passagens por instituições como a Universidade Gama Filho, USP (Universidade de São Paulo), Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), UEL (Universidade Estadual de Londrina) e UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

Foi assessor do senador José Richa em seus trabalhos na Assembleia Nacional Constituinte entre 1987 e 1988.

Realizou trabalhos de consultoria para a FGV (Fundação Getúlio Vargas) em 2006 e para a Braskem, do grupo Odebrecht, em 2005.

Entre suas obras publicadas, estão os títulos "Socialismo moral e socialismo doutrinário" e "Patrimonialismo e a realidade latino-americana".

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