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Se eu fosse cidadão comum, não deixaria a arma no cofre, diz Major Olimpio

"Necessariamente, ando armado. O tempo todo. Arma e plano de saúde você tem que ter, mas é melhor não usar", diz senador - 18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL
"Necessariamente, ando armado. O tempo todo. Arma e plano de saúde você tem que ter, mas é melhor não usar", diz senador Imagem: 18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

19/01/2019 04h00

Senador mais votado por São Paulo em 2018, Major Olimpio é o presidente regional do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro. Policial militar aposentado e eleito deputado federal em 2014, o parlamentar afirma que conseguiu a vaga no Senado Federal por estar em um projeto com o novo presidente. "As pessoas acabaram me elegendo em função da identificação com o Jair Bolsonaro", afirmou em entrevista exclusiva ao UOL na sede paulista do partido, na zona norte da capital. 

Olimpio considerou o decreto que flexibiliza a posse de arma de fogo para a população, assinado por Bolsonaro na última terça-feira (15), como "um avanço". No entanto, segundo ele, o ideal seria que o decreto alterasse as condições para a importação de armas e munições, que houvesse um recadastramento das armas existentes do país e que não houvesse o artigo que determina que, para a posse, o cidadão deve ter um cofre ou local com trava de segurança. Segundo ele, se ele fosse um cidadão civil, com posse, não respeitaria essa determinação. 

18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL
Imagem: 18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL
"Achei essa questão do cofre absolutamente inútil na legislação. Cofre ou compartimento com tranca. Primeiro lugar, você põe na lei uma coisa que objetivamente tem uma razão de ser. Quem vai fiscalizar isso? Ninguém. E você já tem no artigo 13 do Estatuto do Desarmamento o crime chamado omissão de cautela: aquele que deixar a arma acessível para criança ou adolescente ou alguém com qualquer espécie de deficiência mental, está sujeito a uma condenação de um a três anos. Achei de uma grande inutilidade. O ideal seria não ter esse artigo", afirmou à reportagem em entrevista realizada na sexta (18).

Se eu fosse um cidadão comum, eu não deixaria num cofre. Eu [atualmente] deixo onde ela não esteja acessível. Hoje, eu não tenho crianças em casa, mas quando eu tinha, ela ficava onde eu teria condição de manusear. Hoje, ela está do meu lado, na minha cama, comigo dormindo. No banheiro, por razões óbvias, enquanto estou tomando banho, ela não está comigo, mas está em condições que eu possa acessá-la para defender minha família. Necessariamente, ando armado. O tempo todo. Arma e plano de saúde você tem que ter, mas é melhor não usar

Olimpio afirmou ter apoiado o decreto e entendido que o governo planeja "mexer no regulamento do estatuto de maneira escalonada". Ele afirmou considerar um avanço importante a assinatura do decreto e disse avaliar como positivo o "direito do cidadão de bem se defender e defender sua família".

"Se eu precisar dar tiro em marginal, vai acontecer. Já precisei. Algumas vezes. Ocorrências mais do que naturais na vida policial. E não sei o número de vezes que tive que sacar a arma, que protegi a vítima e desestimulei criminosos. Já tive ocorrências com reféns, em que fiz o gerenciamento de crise por quatro horas, cara a cara, com criminosos assaltando uma agência dentro da Secretaria da Fazenda."

"Um dos marginais chegou a passar a pistola na minha cabeça e falava para o outro: você já viu a cabeça de um gambé [termo utilizado por criminosos para falar sobre policial] tão perto para estourar? Se eu pudesse, tinha matado os dois. Mas tinha uma responsabilidade muito maior, que era defender a vida das pessoas. E até a minha. Sou muito prático com relação a isso: não estimulo a violência, mas entendo que o estado e o policial têm que dar demonstração de força, não de violência. Igual ou maior que a do bandido. Se não, o bandido não respeita", afirmou.

18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL
Imagem: 18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL

PSDB é tão perigoso para o policial quanto PCC, diz Olimpio

O senador eleito ficou marcado pelas críticas ao governo de São Paulo, quando tinha Geraldo Alckmin (PSDB) à frente do Executivo. Durante a campanha eleitoral de 2018, se manteve contra os tucanos até o fim do segundo turno.

Olimpio chegou a apoiar publicamente a candidatura do então governador Márcio França (PSB) porque do outro lado estava um tucano: Doria. O apoio a França impulsionou, inclusive, o atrito com a deputada federal eleita pelo seu próprio partido, Joice Hasselmann. Ela se manteve ao lado de Doria durante todo o segundo turno e chegou a convidá-lo para o partido de Bolsonaro.

O João Doria tem uma posição consolidada no PSDB, em que ele acabou sendo a maior liderança do partido no Brasil e dominando o partido. Então, não vejo a possibilidade de ele migrar de partido. Isso não aconteceria

João Doria (PSDB) e Major Olimpio (PSL) se encontraram após resultado da eleição de 2018 - 12.nov.2018 - Divulgação
João Doria (PSDB) e Major Olimpio (PSL) se encontraram após resultado da eleição de 2018
Imagem: 12.nov.2018 - Divulgação

"Institucionalmente, temos que conviver bem. Não dá para dizer que estou defendendo o estado sem perguntar a ele, governador, as necessidades do estado. Vivemos em harmonia. Fui dizer para ele que o partido estará neutro na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) e que vai discutir todos os projetos de forma neutra. Sem toma lá, dá cá, sem secretaria, sem nada", complementou.

Para Olimpio, o governo do PSDB "maltratou policiais paulistas por 24 anos". "Foram os piores inimigos da polícia de São Paulo. Então, se for para fazer uma avaliação: o que é mais perigoso para o policial: o PSDB ou o PCC (Primeiro Comando da Capital)? O PSDB foi matando aos poucos. Vai matando aos poucos na política salarial, na falta de atenção. O PCC mata na hora, assim que consegue. Espero que [com João Doria] mude isso. Eu só posso torcer. Na segurança pública, a gente nunca torce para o jacaré no filme do Tarzan. Não dá para fazer política partidária numa questão tão séria que envolve vida e morte, numa área tão séria como a segurança pública. Eu torço para dar muito certo. Essa é uma expectativa", afirmou o policial aposentado.

Segundo Olimpio, os governantes das esferas estadual e federal, que estiveram no poder nos últimos 25 anos (desde que o PCC passou a existir), têm parcela de culpa na expansão da facção criminosa. Segundo investigação do MP (Ministério Público) paulista, o PCC está em quase todo o país, de forma mais violenta, e é o principal grupo criminoso na exportação de cocaína para o exterior. "Houve omissão generalizada de todos os poderes constituídos. Mas não tenho a menor dúvida de que é possível controlar o PCC. Basta o governo assumir o seu papel em todos os níveis. Precisamos de legislação mais dura para lideranças criminosas", defende.

18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL
Imagem: 18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL

De acordo com o senador eleito, um enfrentamento ao crime organizado de São Paulo não deve trazer uma nova onda de ataques, nos moldes de maio de 2006, quando mais de 500 pessoas morreram em atos violentos em menos de um mês. No início deste ano, o Ceará determinou uma série de ações contra as facções locais e convive, até este 18º dia do ano, com ataques violentos e presença de homens da Força Nacional de Segurança.

"Em 2006, eu estava na ativa. O estado se escondeu naquele momento. O crime dominou por 12 dias. Sabemos o tamanho do terror. Já se tinha informações que poderiam ter ataques naquela sexta-feira fatídica que teve início. Não avisaram os policiais. Saíram milhares de policiais de serviço pegando transporte público, pegando carona na estrada. Alguns foram mortos por covardia e omissão das autoridades constituídas. A polícia paulista está calejada sobre isso". 

25 dias preso por "algazarra" antes de se formar

Major Olimpio se formou oficial da Polícia Militar de São Paulo em 1982. Até um dia antes da formação, ele era considerado o principal policial daquele ano -- o que significaria cargo de destaque no decorrer dos anos. Mas a noite anterior à sua formação causou a perda do privilégio por conta de uma "farra" promovida pelos policiais formados naquele ano.

"Depois de cinco anos de academia, eu fui o primeiro colocado da turma o tempo todo. Na véspera da formatura, tivemos uma comemoração, chamada tradicionalmente de Noite de São Bartolomeu. Os formandos faziam algazarra. Naquele momento, essa algazarra da madrugada acabou gerando que eu fosse retirado de ser o primeiro colocado da turma e tirei 25 dias de cadeia. A minha carreira já começou torta no primeiro dia do oficialato", afirmou o major. 

Nós saímos para a confraternização, comemorar num bar. Depois, fomos pernoitar na academia, porque a formatura era logo pela manhã. De verdade, a única coisa que eu fiz: eu estava na traseira de uma caminhonete, sentado. Só que os carros, para ingressar na Academia do Barro Branco [onde os oficiais da PM se formam em SP], o primeiro da fila resolveu, ao invés de ir para o estacionamento, ir para o pátio central da academia. E os outros carros o seguiram. E começaram a dar cavalo de pau no pátio. Aquilo acordou a academia toda e os que estavam nos alojamentos. Teve rojões que seriam usados para a comemoração do dia seguinte, até bombas que estavam guardadas, bombas de gás, bomba de fumaça. Começaram a jogar no pátio. 

"E eu, sentado na traseira de uma caminhonete, não poderia nem ter feito algo para evitar isso. Eu era o primeiro colocado da turma, em tese, eu era o superior de todos. Só que o comandante da academia também estava pernoitando na academia, tocou o alarme, colocaram todo mundo em forma. Ele já me esculachou na hora. E, naquele momento, resolveram, na madrugada, me trocar para segundo colocado da turma, não deu nem tempo de falar para a família", relembrou o hoje major aposentado, sorrindo. "Eu fiquei preso no quartel onde eu me apresentei. Então, você imagina: alguém que está se formando, já chega com 25 dias de prisão", complementou.

Olimpio afirma que revê sua trajetória com orgulho, mas não recomenda a nenhum policial em início de carreira que faça o mesmo. "Eu cheguei no posto de major, mas, ao longo da carreira, por essa forma de eu proceder, e de dizer publicamente as necessidades, e reivindicar a despeito dos regulamentos duros do Código Militar --esclarecendo que eu nunca fui processado pela legislação militar, sempre fui no limite-- quase que a totalidade da minha turma, que eram 110, já tinham me pulado na carreira", disse. 

18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL
Imagem: 18.jan.2019 - Simon Plestenjak/UOL

"Então, eu não recomendo que nenhum jovem idealista como eu entre na Academia do Barro Branco ou na Escola de Soldados para ter o meu perfil. Conto a minha história, mas não recomendo. Eu fui transferido inúmeras vezes, fui punido. A punição, muitas vezes da transferência, acaba punindo junto a família, pela ausência. Eu vi meus companheiros de carreira ascenderem", afirmou. Segundo ele, seu maior sonho, atualmente, é terminar a carreira "morando tranquilamente na Ilhabela (litoral paulista)".

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