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Justiça vive fase de parcialidade, politicagem e bajulação, dizem juristas

Raquel Dodge assina documento ao lado de Sergio Moro (esquerda) e Dias Toffoli (com as mãos no bolso) - Isaac Amorim/MJSP
Raquel Dodge assina documento ao lado de Sergio Moro (esquerda) e Dias Toffoli (com as mãos no bolso) Imagem: Isaac Amorim/MJSP

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

13/08/2019 15h00Atualizada em 13/08/2019 16h53

Bajulação, corporativismo, politicagem e parcialidade foram alguns dos adjetivos atribuídos por juristas consultados pelo UOL à atual fase da Justiça no Brasil. Nos últimos dias, a população soube pelo noticiário que ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) arquivaram todos os pedidos de suspeição contra seus pares; que o então juiz Sergio Moro orientou a Lava Jato a não apreender celulares do ex-deputado Eduardo Cunha; e até a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, retardou investigações contra o presidente Jair Bolsonaro.

A semana começou com o jornal Folha de S.Paulo revelando que o STF engavetou todos os pedidos de impedimento ou suspeição que já foram analisados contra seus ministros em mais de 30 anos. Uma decisão que violou o próprio regimento do tribunal, que orienta levar esse tipo de caso ao plenário da Corte.

"Não pode um presidente do Supremo contrariar o regimento e decidir monocraticamente uma questão constitucional", afirma o jurista Walter Maierovitch, desembargador aposentado do TJ (Tribunal de Justiça) de São Paulo. "O STF é um órgão colegiado. Todos os ministros deveriam apreciar se há suspeição de seus pares."

Ex-ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Gilson Dipp já esperava por isso. "É uma coisa velha no Supremo. Já foram engavetados inúmeros pedidos de suspeição, muitos com fundamentos, outros sem", diz.

Para ele, o "espírito corporativista do Supremo sempre impediu e sempre vai impedir" que prospere alguma contestação a seus membros. "Da mesma forma que um pedido de impeachment no Senado [contra um ministro do STF] jamais vai prosperar, salvo se acontecer algo extraordinário."

Ainda ontem, revelações do sites The Intercept Brasil e BuzzFeed News indicaram que o ministro Moro (Justiça e Segurança Pública) orientou, quando juiz federal, os procuradores da Operação Lava Jato a não recolherem os celulares de Eduardo Cunha na véspera da prisão do ex-presidente da Câmara dos Deputados.

"Ainda é prematuro tirar conclusão sobre isso porque as provas até o momento são inválidas", diz o advogado constitucionalista Marcellus Ferreira Pinto. "Mas, se comprovado interesse ideológico, isso pode comprometer o processo e a estabilidade da operação Lava Jato."

Para Dipp, o conteúdo dos vazamentos "não foi desmentido até agora" pelos interlocutores, o que indica sua autenticidade. "Ele só mostra o modo como se conduziu o processo: com parcialidade e interesse político", afirma.

Para Ferreira Pinto, é "lamentável" que o Brasil debata "com recorrência" até que ponto essas ações e inquéritos são de natureza política. Mas o "corporativismo", diz, "é um problema das regras do jogo, do sistema".

Ele explica, por exemplo, que é competência do presidente da República indicar o procurador-geral da República, que, por sua vez, é a pessoa responsável por processar o chefe do Executivo.

A Folha também revelou hoje que Dodge segurou por mais de 120 dias investigações sobre Bolsonaro ao mesmo tempo em que articulava a recondução ao cargo de chefe do Ministério Público Federal por mais dois anos.

"É demais exigir que o presidente indique um procurador refratário às ideias políticas dele. Quando presidente, Michel Temer indicou a Raquel e logo depois ela moveu uma ação penal contra ele", diz Ferreira Pinto.

Dipp também atribui culpa "ao sistema vigente no Brasil". "É um constrangimento ter uma procuradora em campanha", afirma.

A Raquel é uma pessoa em campanha, e quem está em campanha fica sensível sobre qualquer contrariedade que atinja o responsável por lhe indicar um cargo. Enquanto a escolha for assim, os candidatos sempre ficarão bajulando o presidente.
Gilson Dipp, jurista e ex-ministro do STJ

Dois Brasis

Para Ferreira Pinto, é natural que uma decisão judicial sobre a administração pública irradie suas consequências para a política. "Isso acontece ao mandar um ex-presidente para a cadeia, especialmente em período eleitoral. O problema é quando decisões judiciais são orquestradas com o fito não de resolver o processo, mas de interferir no jogo político."

Para Maierovitch, o Brasil vive uma fase em que a Justiça não apenas garante os privilégios para alguns, mas prejudica a vida de todos os outros. "É um momento grave porque você cria duas categorias de pessoas ao acabar com a igualdade de todos perante a lei."

Outra consequência, afirma Dipp, é a queda na popularidade do judiciário. "Se fosse um time de futebol, o STF, com 11 ministros, seria um clube com raríssimos simpatizantes."

Outro lado

Sobre o vazamento que indica orientação de Moro para não utilizar os celulares de Cunha, Moro afirma que "não reconhece a autenticidade das mensagens obtidas por meio criminoso, nem sequer vislumbrou seu nome como interlocutor".

"Em relação aos aparelhos celulares do ex-deputado Eduardo Cunha, como foi amplamente divulgado pela imprensa, eles foram apreendidos por ordem do STF na Ação cautelar 4044, antes da prisão preventiva", diz o ministro.

Procurada, a procuradoria-geral da República negou que sua presidente tenha segurado as denúncias contra o presidente por questões pessoais. Ela informa que o material foi enviado na terça-feira (6) de volta para a primeira instância e que, "seguindo o rito normal de funcionamento do setor, os procedimentos foram inicialmente classificados considerando o grau de urgência e prioridade e após entraram na ordem de análise, considerando a existência de outros casos que já aguardavam análise".

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