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Monitorada, Regina era vista como militante de esquerda pela ditadura

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

21/01/2020 04h00Atualizada em 21/01/2020 13h54

Resumo da notícia

  • Atriz era vista como militante da esquerda durante a ditadura militar
  • Convidada para secretaria de Bolsonaro, Regina se diz conservadora

Hoje bolsonarista e convidada para ser a nova secretária de Cultura, a atriz Regina Duarte, esteve no radar do regime militar (1964-1985) e era vista como militante de esquerda "infiltrada na TV", segundo descreve relatório confidencial da extinta DSI (Divisão de Segurança e Informações).

O documento, datado de 10 de maio de 1982, faz parte do acervo da ditadura. À época, ela fazia parte do elenco da novela "Sétimo Sentido" (TV Globo), da autora Janete Clair.

A artista foi chamada ontem (20) a assumir a pasta da Cultura em substituição a Roberto Alvim —demitido depois de copiar trechos de um discurso do nazista Joseph Goebbels.

O convite foi feito pessoalmente pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) —que costuma negar a ditadura e chamar de "herói nacional" o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (morto em 2015), condenado por torturar presos durante o regime.

À coluna da jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo, Regina afirmou que inicia hoje (21) um "período de testes" no novo cargo.

A artista apoia Bolsonaro desde a eleição de 2018 e se declara "conservadora", alinhada ideologicamente à direita.

Monitorada

No período da ditadura, no entanto, ela chegou a ser monitorada pelo SNI (Serviço Nacional de Informações), como no episódio em que viajou a Cuba para ser homenageada pela associação cultural "Casa de Las Américas", em 1984. Durante a visita ao país, ela foi recebida pelo ex-ditador Fidel Castro (morto em 2016).

Entre os documentos que compõem o acervo do regime, há um que narra todos os fatos da passagem de Regina por Havana. A viagem ocorreu na época em que ela era a atriz principal do seriado "Malu Mulher" (TV Globo).

Na ocasião, a revista IstoÉ noticiou que "Malu Mulher" havia sido considerado o programa de televisão mais popular em Cuba no ano de 1983. Cerca de 5.000 pessoas lotaram o teatro Carlos Marx, em Havana, para prestigiar as homenagens à atriz brasileira.

Regina Duarte posa junto com o ex-ditador cubano Fidel Castro (morto em 2016) - Reprodução
Regina Duarte posa junto com o ex-ditador cubano Fidel Castro (morto em 2016)
Imagem: Reprodução

O relatório produzido pelo SNI informa que Regina esteve com Fidel e, posteriormente, "visitou centros de trabalho e diversas outras entidades, onde iniciava debates com as operárias cubanas". Além disso, menciona um encontro da atriz com o poeta Nicolás Guillén.

Em outro documento confidencial, por meio do qual os militares se dedicaram a investigar a "utilização de artistas para a propaganda do regime de Cuba", há menção a uma entrevista de Regina ao jornal Voz da Unidade, do PCB (Partido Comunista Brasileiro).

Segundo o texto, a atriz "considera Fidel Castro um dos maiores estadistas do mundo" e "defende o reatamento das relações entre o Brasil e aquele país".

Relatório reproduz entrevista de Regina ao jornal "Voz da Unidade", do Partido Comunista Brasileiro - Reprodução/Arquivo Nacional
Relatório reproduz entrevista de Regina ao jornal "Voz da Unidade", do Partido Comunista Brasileiro
Imagem: Reprodução/Arquivo Nacional

Em outubro de 2018, durante a corrida pelo Palácio do Planalto, o ator Gregório Duvivier —crítico de Bolsonaro— publicou em uma rede social uma foto que mostra Regina ao lado de Fidel.

Identificação com escritora feminista

No mapeamento feito pelos militares da passagem de Regina por Cuba, há um relatório que anexa uma entrevista da atriz ao filósofo e cientista político Emir Sader, concedida em 1983, pouco antes da viagem. À época, ele atuava como correspondente da revista cultural El Caimán Barbudo.

No texto, a artista diz a Sader que não se considerava feminista, mas pondera: "embora ache que vivo de acordo com algumas coisas que as feministas consideram positivas".

O entrevistador pergunta com quais "mulheres contemporâneas" Regina mais se identificaria. Entre os nomes, ela cita a economista Maria da Conceição Tavares, voz da esquerda e que já foi deputada federal pelo PT, e a romancista Simone de Beauvoir (1908-1986), famosa autora feminista. Menciona ainda a antropóloga Ruth Cardoso.

Documento da ditadura diz que Regina seria reconhecida pela "militância esquerdista" - Reprodução/Arquivo Nacional
Documento da ditadura diz que Regina seria reconhecida pela "militância esquerdista"
Imagem: Reprodução/Arquivo Nacional

"Infiltração esquerdista na TV"

Sob título "Infiltração esquerdista na TV", a DSI, órgão vinculado ao Ministério dos Transportes na ditadura, diz que Regina se notabilizou pela "militância esquerdista" e que ela exerceria "grande influência sobre outros artistas de novelas".

O relatório lista ainda outros nomes de atores com perfil semelhante, na versão do regime, como o escritor e ator Mário Lago, o ator Gianfrancesco Guarnieri, a atriz e sindicalista Lélia Abramo, entre outros.

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