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Regina Duarte vai "noivar" com ministro denunciado por corrupção

Reprodução/Twitter
Imagem: Reprodução/Twitter
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

20/01/2020 19h18

A atriz Regina Duarte aceitou "noivar" com o governo Jair Bolsonaro. Vai a Brasília para conhecer a estrutura e os recursos da secretaria especial de Cultura antes de dizer "sim". A pasta está, hoje, sob a responsabilidade de Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo, denunciado por falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa. Ou seja, ela está, hoje, "noivando" com uma estrutura chefiada por um acusado de corrupção.

Outra opção é responder diretamente a Bolsonaro através de uma secretaria especial subordinada à Presidência da República, como relatam Gustavo Uribe e Talita Fernandes, da Folha de S.Paulo. A ideia é fortemente considerada para não desprestigiá-la e, como efeito colateral, também a deixaria longe do ministro do Turismo .

A atriz foi crítica aos governos petistas nos episódios de corrupção do Mensalão e da Lava Jato e incentivou as manifestações que pressionaram pelo impeachment de Dilma Rousseff. Posteriormente, apoiou Jair Bolsonaro em sua campanha à Presidência da República, defendendo que ele iria acabar com a corrupção.

Uma série de reportagens do jornal Folha de S.Paulo mostrou que Marcelo Álvaro Antônio comandou um esquema de desvio de recursos públicos usando candidaturas de fachada de mulheres. Após a Polícia Federal tê-lo indiciado, em outubro, o Ministério Público em Minas Gerais o denunciou sob acusação de ter plantado um laranjal durante as eleições do ano passado, enquanto era presidente do PSL no estado. Uma das reportagens mostrou, aliás, que parte dos recursos foi usado para produzir material de campanha não apenas para sua candidatura a deputado federal, mas também para Bolsonaro.

Mas responder diretamente a Bolsonaro também não ajuda muito no quesito "combate à corrupção".

O chefe de Marcelo Álvaro Antônio também esconde os esqueletos da família no armário, enquanto age contra a Lava Jato. Fabrício Queiroz, que gerenciava as "rachadinhas" dos gabinetes do clã e fazia a ponte deles com milícias e grupos de extermínio, como o Escritório do Crime, segue investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, bem como o senador Flávio Bolsonaro. Apesar do primogênito do presidente ter transformado sua passagem pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em um lucrativo negócio imobiliário, Queiroz era homem de Jair, colocado na Alerj por ele.

Isso sem contar que o próprio Bolsonaro não entende muito a separação entre as coisas pública e privada. Recebia auxílio moradia tendo imóvel próprio, em Brasília, quando era deputado federal; deu carona para familiares em helicóptero das Forças Armadas no casamento do filho; abusou do nepotismo ao indicar o próprio filho para embaixador nos Estados Unidos. Aliás, disse que, sempre que pudesse, beneficiaria a família sim.

Enquanto isso, ao longo de 2019, o presidente foi visto comendo instituições de fiscalização e controle da República em nome de seu projeto de poder e do bem-estar de sua família. Uma parte de seus apoiadores demonstrou incômodo pela desenvoltura com a qual interferiu na Receita Federal, no Coaf, no Ministério Público Federal, na Polícia Federal - o que se traduz em queda de aprovação e ranger de dentes em redes sociais. Mas um naco continua botando fé, incondicionalmente e inacreditavelmente, que essas ações do "mito" visam a combater a corrupção e a proteger a Lava Jato.

Bolsonaristas que bradam pelo fim da corrupção apoiam exatamente a pessoa, hoje, responsável por limitar as instituições de combate à corrupção. Sim, seguidores de Bolsonaro, que criticam - com justiça - práticas fisiológicas da política, respaldam um governo que, com suas ações, está garantindo que o fisiologismo continue alegre e saltitante.

Em manifestações, bolsonaristas e lavajatistas enchem infláveis de Sergio Moro vestido de super-herói e denunciam que ele está sendo alvo de ataques, pedindo que Bolsonaro o proteja. Mas, paradoxalmente, um dos maiores ataques vem do próprio chefe - que quer cortar as asas do subordinado antes que ele resolva voar por conta própria. É passa-moleque atrás de passa-moleque, incluindo a humilhação máxima de negar o veto ao juiz de garantias no projeto anticrime.

Regina Duarte deve discordar de tudo isso. Em 20 dezembro do ano passado, ela postou em sua conta no Instagram uma imagem com Sergio Moro e Bolsonaro que dizia: "Pela primeira vez, o Brasil completa um ano sem nenhum caso de corrupção no Governo Federal. Parabenizamos o ministro Moro, que unido ao presidente Bolsonaro, vem resgatando nosso país".

De acordo com Victoria Azevedo, da Folha de S.Paulo, a atriz disse que fará, nesta terça (21), um teste na secretaria após ter conversado com Bolsonaro. "Nós vamos noivar, vou ficar noiva, vou lá conhecer onde eu vou habitar, com quem que eu vou conviver, quais são os guarda-chuvas que abrigam a pasta, enfim, a família. Noivo, noivinho", afirmou.

Ironia das ironias, ela não apenas vai "noivar" com um ministro denunciado por corrupção como pode se "casar" com um presidente que faz de conta que combate a corrupção, enquanto entorta as instituições para aumentar seu poder e salvar o pescoço de sua família.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL