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Casamento, noivado, namoro: por que Bolsonaro recorre a metáforas amorosas?

Regina Duarte e Jair Bolsonaro posam para foto após encontro em Brasília - Reprodução/Instagram
Regina Duarte e Jair Bolsonaro posam para foto após encontro em Brasília Imagem: Reprodução/Instagram

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

30/01/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Além do presidente, a Comunicação do Planalto passou a usar metáforas
  • Para especialistas, Bolsonaro usa tática para atingir sua "bolha"

O aguardado "casamento" entre a atriz Regina Duarte e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi confirmado após quase duas semanas. O "namoro" começou logo após o "divórcio" com o antecessor, Roberto Alvim, e se transformou em "noivado" no dia 20 de janeiro, quando o mandatário viajou ao Rio para, pessoalmente, cortejar a artista.

Desde então, o flerte seguiu de parte a parte. Ontem (29), Regina finalmente disse "sim" a Bolsonaro. Após se reunir com o presidente em Brasília, ela declarou: "Sim! Mas agora vão correr os proclamas antes do casamento".

Pouco depois, a Secretaria de Comunicação da Presidência informou em nota oficial: "Ambos consideram, nesse momento, o avanço de uma nova fase do noivado, com trâmites preparatórios oficiais para o casamento".

As múltiplas metáforas que remetem a relacionamentos amorosos —agora incorporadas até pela comunicação oficial do governo— não são uma exclusividade da novela envolvendo Regina e a secretaria de Cultura.

O presidente já usou alegorias semelhantes com o ministro da Economia, Paulo Guedes, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o ex-aliado Gustavo Bebianno, entre outras idas e vindas, "namoros" e "divórcios".

Para especialistas ouvidos pelo UOL, essa estética informal dos discursos e declarações do mandatário tem efeito prático: reforçar valores conservadores e fazer de seu estilo a "cara" do populismo de direita no país.

Regina diz sim a Bolsonaro e assume Secretaria da Cultura

Conversa com a "bolha"

Cientista político da UnB (Universidade de Brasília), Paulo Kramer diz considerar que, ao colecionar metáforas, Bolsonaro busca "falar com a sua bolha". Na visão dele, tal fato é preocupante em "tempos de radicalização". "Tanto de um lado quanto do outro, o que você percebe são lideranças políticos interessadas em falar prioritariamente ou somente para a sua bolha".

"As democracias precisam de formação de maiorias estáveis para aprovar matérias de interesse geral. Hoje, no entanto, praticamente todas essas lideranças [incluindo o presidente] estão falando para a bolha", avaliou. "De alguma forma, ele sabe que o que ele fala agrada ao público dele. E o retorno que ele colhe dessas declarações é muito rápido."

Kramer destaca que uma das fatias significativas do eleitorado cativo de Bolsonaro é a dos evangélicos, que têm afinidade com temas como o casamento, por exemplo.

"Se você exclui momentaneamente o fator religião, todas as categorias mais pobres e de pele mais escura, sobretudo entre os nordestinos, não aprovam o governo ou concedem ao Bolsonaro uma avaliação muito baixa. Mas quando você inclui os evangélicos na equação, principalmente os neopentecostais, que são pessoas pobres, cor de pele mais escura, o Bolsonaro volta a ter força nessa fatia de público."

"Retorno rápido"

O especialista aponta ainda que as metáforas de Bolsonaro têm um "retorno rápido" por meio das redes sociais, aproximando-o da figura do cidadão comum. À medida que percebe que essa linguagem agrada ao público que o acompanha, o presidente transforma metáforas e piadas em estratégia de comunicação.

"Ele está muito atento às redes sociais. Se agradar ao público dele, ainda que desagrade a outros públicos fora da bolha bolsonarista, ele vai em frente. Ele não vai largar o público dele, pois hoje lidera uma minoria. Só que a minoria que está com ele é maior do que as minorias que estão com os outros", comentou Kramer.

Na visão de Debora Messenberg, pós-doutora em Sociologia e professora da UnB (Universidade de Brasília), a linguagem informal do presidente também ajuda a blindá-lo de críticas oriundas do seu "eleitorado cativo".

O mandatário conseguiria isso impulsionando o processo de identificação, isto é, o apoiador se vê representado pela imagem de "pessoa comum" do presidente e acaba fechando os olhos para problemas do governo.

"Apesar de todas as denúncias, dos erros do Enem, isso acaba não pegando para o eleitorado cativo. Tudo é sempre justificado, inclusive, como uma forma de aproximação [a partir da linguagem]. Sem dar a dimensão real."

Durante a novela envolvendo Regina Duarte, por exemplo, enquanto a atriz e o presidente alimentavam a trama do "noivado" à espera de um "sim", a pasta da Cultura —que deixou de ter status de ministério e foi rebaixada à secretaria— estava sem comando, sob patrulhamento ideológico e com orçamento limitado.

"Na verdade, esse discurso de aproximação é típico da direita. Da ultra-direita. O chamado populismo de direita. Tem até os 'memes' sobre o 'tio', o 'tiozão'. Ou seja, sem freios em um nível de intimidade e compreensão generalizada", comentou Debora.

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