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Rede bolsonarista de fake news da eleição é investigada por atos golpistas

Apoiadores do presidente Bolsonaro exibem faixas contra o STF durante manifestação na Praça dos Três Poderes, em Brasília (31.mai.2020) - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Apoiadores do presidente Bolsonaro exibem faixas contra o STF durante manifestação na Praça dos Três Poderes, em Brasília (31.mai.2020) Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Aiuri Rebello

Do UOL, em São Paulo

03/07/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Empresas e seus donos alvo da PF tinham sido denunciadas antes do segundo turno das eleições de 2018 por fake news
  • Donos tiveram sigilos bancário, fiscal e telematico quebrados

Uma rede de disseminação de fake news a favor do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e contra seus adversários que atuou nas eleições de 2018 é investigada pela PF (Polícia Federal) e pela PGR (Procuradoria-Geral da República) por ajudar a promover as recentes manifestações antidemocráticas contra o STF (Supremo Tribunal Federal) e o Congresso.

De acordo com decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, as empresas "Novo Brasil Empreendimentos Ltda." e "Raposo Fernandes Marketing Digital Ltda." estão entre as que sofreram batida da PF. Segundo a PGR, elas são investigadas por fazer parte da organização criminosa que tenta desestabilizar a democracia no país com pedidos de intervenção militar a favor de Bolsonaro.

Ambas pertencem a Ernani Fernandes Barbosa e Thaís Raposo do Amaral Pinto Chaves, que tiveram os sigilos quebrados no mesmo inquérito. Moraes autorizou no fim de maio operações de busca e apreensão e quebra de sigilos telemático e fiscal de empresários, deputados federais e blogueiros alinhados ao presidente.

Através das duas empresas, os sócios administraram uma rede de sites e páginas nas redes sociais seguida por milhões de pessoas com fake news, ataques e notícias distorcidas contra os adversários e a favor do então candidato a presidente Jair Bolsonaro em 2018.

Após denúncia da ONG norte-americana Avaaz, o Facebook derrubou a rede com 68 páginas e 43 contas poucas semanas antes do segundo turno das eleições. De acordo com a pesquisa da Avaaz, a rede de páginas e contas era a maior a favor de Bolsonaro no Facebook.

A rede social afirmou que as páginas violaram as políticas de autenticidade e spam ao criar perfis falsos e múltiplas contas com os mesmos nomes para administrá-las.

Ao todo, as páginas alcançavam mais gente e conseguiam mais interações do que perfis de celebridades como o jogador de futebol Neymar e as cantoras Anitta e Madonna juntos.

No YouTube, a atividade nunca parou e hoje um dos principais canais administrados pelo grupo tem pouco mais de dois milhões de inscritos.

O UOL procurou Barbosa e Thaís para falar sobre as investigações da PF e da PGR, assim como sobre as eleições presidenciais de 2018, mas eles não foram localizados pela reportagem.

"Siga o dinheiro"

Depois das eleições o casal continuou em atividade com as empresas e criou novas páginas e perfis nas redes sociais a favor do presidente, participando ativamente da divulgação das manifestações antidemocráticas, segundo as investigações da PF.

De acordo com a Receita Federal, tanto a Novo quanto a Raposo seguem ativas e regulares com os mesmos sócios.

A quebra de sigilo de todos os investigados estende-se de 3 de maio deste ano até 19 abril de 2019, pouco mais de três meses após a posse do presidente e quando a PGR afirma ser o "marco mais remoto que se pode cogitar do início de eventual concertação para organizar os atos antidemocráticos em apuração".

"Basicamente estamos seguindo o dinheiro, puxando o rastro até lá atrás e tentando interligar tudo, se quiserem, até as eleições", afirma um policial que participa das investigações e pediu para não ser identificado. "Essas máquinas e engrenagens todas nunca pararam de funcionar. O inquérito das fake news, as ações no TSE, é tudo a mesma coisa."

Segundo o despacho de Moraes que autorizou a operação, tornado público no dia 22 de junho, as provas apresentadas pela PGR indicam uma "rede estruturada de comunicação virtual voltada tanto à sectarização da política quanto à desestabilização do regime democrático para auferir ganhos econômicos diretos e políticos indiretos"

"Nesse entrelaçamento formam-se complexas relações de poder por cooperação, dependência e dominação. Estes mesmos relacionamentos denotam, igualmente, um alinhamento consciente entre os componentes dos grupamentos direcionado à realização de ações potencialmente típicas, independentemente da existência de um acordo propriamente dito para esse fim", afirma o documento.

Investigação sob sigilo

As empresas de Barbosa e Thaís já receberam verbas do ex-deputado federal Delegado Franceschini (PSL-PR) e do PRTB, partido do vice-presidente Hamilton Mourão.

Antes das eleições de 2018, entre dezembro de 2017 e abril daquele ano, o casal recebeu R$ 24 mil da cota parlamentar do então deputado. Ele elegeu-se deputado estadual no Paraná e seu filho, Felipe Francischini (PSL-PR), elegeu-se deputado federal.

Entre outubro e dezembro de 2017, o PRTB gastou R$ 25 mil com a Novo, de acordo com declaração ao TSE.

Em junho o UOL mostrou que empresas do publicitário Sérgio Lima, também investigado pela PGR no mesmo inquérito, receberam ao menos R$ 87 mil da cota parlamentar de quatro deputados federais que tiveram o sigilo bancário quebrado junto com outros parlamentares

Segundo a PGR, eles são suspeitos de ajudar a financiar e divulgar as manifestações com pedidos de golpe militar.

Tanto a investigação da PGR sobre os atos antidemocráticos quanto o inquérito das fake news, também sob a responsabilidade de Moraes no STF, estão sob sigilo. Há empresas, blogueiros e parlamentares que são alvo das duas investigações.

Na semana passada, Moraes informou ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que aguarda a conclusão de perícias para decidir sobre o compartilhamento de provas do inquérito das fake news com as ações eleitorais que pedem a cassação do mandato do presidente Bolsonaro.

Moraes retira sigilo de operação

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