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Prisão de ex-secretário deve turbinar processo de impeachment de Witzel

26.mai.2020 - O governador do Rio, Wilson Witzel, em pronunciamento após buscas e apreensões da PF no Palácio das Laranjeiras Imagem: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Igor Mello

Do UOL, no Rio

11/07/2020 04h00

A prisão de Edmar Santos, ex-secretário estadual de Saúde do Rio, deve reduzir ainda mais as chances de o governador Wilson Witzel (PSC) sobreviver ao processo de impeachment discutido na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio).

O UOL ouviu sete parlamentares estaduais das mais variadas matizes ideológicas sobre a repercussão da operação do MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) que resultou ontem na prisão de Edmar. É consenso entre eles que a prisão por supostos desvios nas compras emergenciais durante a pandemia do novo coronavírus enfraquece a tese defendida pelo governador.

Um deputado com bom trânsito na Alerj avalia que a prisão reforça as suspeitas contra Witzel. Na avaliação dele, a medida ainda pode fazer com que Edmar —que até agora negou envolvimento no suposto esquema— colabore com os investigadores.

"A prisão dá mais uma demonstração de que as provas que estão no processo sobre as fraudes na saúde são robustas. Ajuda a aquecer o processo de impeachment. Sem contar o risco que há de o ex-secretário querer contribuir com a Justiça. Se falar, vai ter que entregar pessoas que são responsáveis pela indicação dele para a Secretaria de Saúde, por exemplo", aponta.

O novo fato negativo tende a piorar ainda mais o clima para Witzel na Alerj. Na última semana, o governador fez visita surpresa ao Palácio Tiradentes para tentar obter apoio contra o impeachment. Ele chegou a anunciar que Bruno Dauaire (PSC) assumiria a liderança de seu governo na Alerj durante uma reunião com o presidente da Casa, André Ceciliano (PT), e o Pastor Everaldo, presidente nacional de seu partido e uma espécie de cacique informal do governo.

Porém, após receber críticas de outros deputados e cobranças públicas do ex-governador Anthony Garotinho, seu padrinho político, Dauaire recuou. O parlamentar se reuniu com Garotinho na tarde desta quinta (9) e, de lá, saiu direto para o Palácio Guanabara, sede do governo do Rio. Após três horas de reunião, deixou o local sem aceitar assumir de fato a liderança do governo neste momento. Dauaire sinalizou a Witzel que só topa a tarefa após o fim do processo de impeachment.

Durante toda a crise na saúde, Witzel tem negado relação com qualquer irregularidade. O UOL procurou o governador por meio de sua assessoria de imprensa para repercutir a prisão de Edmar Santos, mas não obteve retorno. A defesa do ex-secretário decidiu não se manifestar sobre a prisão.

10.jul.2020 - O ex-secretário da Saúde Edmar Santos após prisão no Rio Imagem: ANDRE MELO ANDRADE/MYPHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Prisão enfraquece discurso de Witzel

Um deputado do Republicanos diz acreditar que a prisão do ex-secretário obrigará Witzel a mudar sua estratégia de defesa com o prazo para a apresentação da mesma em curso.

Até o momento, o discurso político do governo tem sido de que as fraudes investigadas na Saúde foram operadas apenas por funcionários de menor escalão e começaram a ser apuradas pela própria administração estadual —tese que sai enfraquecida com a prisão de um subordinado imediato do governador.

"A prisão do ex-secretário de Saúde Edmar Santos é um ingrediente que joga mais luzes sobre esses escândalos que varrem o governo estadual. Levando em conta que o prazo de defesa começou a contar a partir da última quarta-feira (8), e o governo tem dez sessões para apresentar seus argumentos, sem dúvida a situação fica complicada para ele", disse.

Líder do PSOL na Alerj, Flavio Serafini diz que o fato de Witzel ter tentando nomear Edmar para outra secretaria o liga aos ilícitos apontados contra o ex-secretário.

"A prisão do Edmar e a leitura dos órgãos de investigação de que ele estaria diretamente envolvido nos esquemas reforçam a ideia de responsabilidade também do governador, que mesmo quando o tirou da Secretaria de Saúde, buscou abrigá-lo. Por todos os lados tem gente próxima ao governador envolvida nos esquemas", criticou.

Entre os bolsonaristas da Assembleia, a prisão de Edmar Santos foi tratada como uma espécie de condenação antecipada de Witzel. Responsável pela ação que barrou a nomeação de Edmar para uma Secretaria Extraordinária criada sob medida por Witzel —ação definida pelo MP-RJ como uma tentativa de "blindagem"— o deputado Anderson Moraes (PSL) diz que a ação contra alguém tão próximo atinge diretamente o governador.

"O Edmar estava na secretaria por indicação do governador. Tanto que tentou protegê-lo com foro privilegiado dando cargo como secretário extraordinário após a saída dele da Secretaria de Saúde. São muitos os indícios de crime dessa gestão e, com a prisão, espero que o Edmar contribua com informações e dê nomes de envolvidos. A operação de hoje pode trazer novas provas ao processo de impeachment e, dependendo do teor, complicar a situação do Witzel e provocar o seu afastamento", afirmou Anderson Moraes.

Na mesma linha, Filippe Poubel (PSL) afirma que a prisão de Edmar serviria como prova de que Witzel tinha conhecimento do esquema de fraudes na Saúde —alegação feita também pela PGR (Procuradoria-Geral da República) no pedido que originou a Operação Placebo, com buscas contra o governador e a primeira-dama Helena Witzel.

"A prisão prova que já passamos da fase de indícios. Hoje é possível afirmar que temos materialidade de participação do governador. Witzel tem total domínio dos fatos e precisa ser punido de maneira exemplar."

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