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Araújo defende visita de Pompeo e diz que polêmica foi por má tradução

Ernesto Araújo e Mike Pompeo em visita a Roraima -  Ederson Brito/Futura Press/Folhapress
Ernesto Araújo e Mike Pompeo em visita a Roraima Imagem: Ederson Brito/Futura Press/Folhapress

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

24/09/2020 10h41

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, defendeu hoje a visita do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, a Roraima, na última sexta (18), e creditou parte da polêmica envolvendo o ato a uma má tradução.

"Um dos elementos mencionados pelo secretário Mike Pompeo foi objeto de polêmica por uma má tradução como já se sabe, como foi publicado na imprensa. Foi traduzido que ele haveria dito 'Nosso mundo está consistente e a gente vai tirar essa pessoa e vai colocar no lugar certo', como se estivesse se referindo a Nicolás Maduro", disse Araújo.

O ministro afirmou que Pompeo teria dito: "Nossa vontade é consistente, coerente, nosso trabalho será incansável e chegaremos ao lugar certo".

Araújo compareceu à Comissão de Relações Exteriores do Senado pela manhã para explicar a visita de Pompeo após protestos de senadores contra a iniciativa. Parte dos parlamentares considera que ela afrontou a autonomia diplomática brasileira e a soberania nacional.

Como retaliação, parte dos senadores ameaçou adiar a análise e aprovação de indicados a embaixadores e outros representantes de missões do Brasil no exterior ocorrida nessa semana. Araújo, então, acertou a ida ao Senado para que as sabatinas não fossem canceladas. A análise dos nomes é de interesse do ministério, pois os indicados mais antigos na lista esperavam por uma definição há seis meses.

Ernesto Araújo disse que a reunião com Pompeo em Roraima foi organizada a partir de um telefonema do secretário de Estado dizendo que estava organizando um périplo à América do Sul e queria visitar a Operação Acolhida, em Boa Vista.

Araújo então defendeu que o Brasil atribui a "maior importância aos direitos humanos e à democracia" e marcou a visita com "grande satisfação por nossa parte". Ele disse que os Estados Unidos são um dos maiores financiadores de organizações que ajudam refugiados e migrantes e que tudo foi feito dentro da perspectiva humanitária e dos direitos humanos.

O ministro brasileiro também ressaltou ser "a coisa mais comum" conversas sobre terceiros países entre chanceleres. Em seguida, revelou ter feito no mesmo dia uma teleconferência com o chanceler da China na qual também falaram sobre a Venezuela. Segundo Araújo, o Itamaraty reiterou a preocupação do Brasil perante a atual situação do país vizinho. Em resposta, o representante chinês defendeu que não se deve tomar atitudes drásticas.

"Existe muita confusão, às vezes deliberada, às vezes não, quando se fala de Venezuela. Absolutamente nada do que estamos fazendo é contra o povo venezuelano, contra a Venezuela. Ofensa seria ignorar o sofrimento do povo venezuelano", falou.

Ernesto Araújo descartou uma intervenção militar na Venezuela com o apoio do Brasil. "Nisso não se fala, absolutamente."

Araújo diz que visita não serviu de plataforma eleitoral a Trump

Araújo ainda rebateu as críticas de que Pompeo teria utilizado o Brasil para promover eleitoralmente o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que pretende se reeleger nas eleições do país em novembro. Isso porque há uma grande conversão entre republicanos e democratas quanto à situação na Venezuela, defendeu.

"Não faz muito sentido pensar nisso como plataforma eleitoral já que não há diferença substantiva entre posições de entre republicanos e democratas em relação à Venezuela. Ou seja, tudo indica que, se houver vitória democrata nas eleições em novembro, a atitude norte-americana para a Venezuela continuará exatamente a mesma. Não foi apresentada novidade em relação ao posicionamento americano nem brasileiro na reunião de Boa Vista", argumentou.

Ele acrescentou que se pensar na ideia de plataforma eleitoral cria uma "estranha dependência" perante o calendário político dos outros países já que a defesa dos direitos humanos e da democracia é uma obrigação permanente independentemente se algum país estiver em época de campanha.

O senador Telmário Mota (Pros-RR), um dos principais articuladores para que Araújo comparecesse ao Senado, falou que Pompeo deveria ter visitado Roraima quando a situação crítica de imigração no estado estava em seu ápice. Atualmente, a fronteira entre Venezuela e Brasil está parcialmente fechada devido à pandemia do coronavírus.

Mota levou uma Bandeira Nacional do Brasil afirmando que todos os brasileiros devem tê-la no coração e entregou o objeto como presente a Araújo, que a recebeu.

"Já tenho uma, tenho várias. Não tenho a menor dúvida de que tenho a nossa bandeira no coração", comentou o ministro, ao acrescentar que outros "talvez tivessem a bandeira da ONU" e ressaltou que o Brasil é um país "cristão".

Ao ser questionado por senadores, Araújo defendeu que, quando se relaciona com um país democrático, sempre há possibilidade de mudanças de orientações e de governo, e negou haver um alinhamento automático com os Estados Unidos.

"Não existe o famoso alinhamento automático com os Estados Unidos de forma nenhuma", declarou.

Como exemplo, o ministro citou que a posição de Trump em organismos internacionais é "pró-vida", contrária à legalização geral do aborto, assim como a do governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Em seguida, falou que "provavelmente um governo democrata teria uma posição diferente" e, se assim for, o Brasil não se alinhará aos Estados Unidos quanto a isso.

O senador Jaques Wagner (PT-BA) falou a Araújo que ele não estava em "uma classe de primário com muitos ingênuos" para convencê-lo de que a visita de Pompeo não teve cunho eleitoral e questionou o motivo pelo qual a visita não ocorreu em Brasília.

Araújo disse estar claro não existirem instalações da Operação Acolhida em Brasília, foco da viagem de Pompeo ao Brasil. Por isso, a visita aconteceu em Roraima, explicou. O ministro negou qualquer arrependimento de ter recebido a autoridade norte-americana.

Ao longo da fala, Araújo afirmou que o Brasil se tornou "párea internacional" no governo do PT por ter "exportado corrupção". A declaração foi rebatida pelo líder do PT no Senado, senador Rogério Carvalho (SE), que citou petistas inocentados pela Justiça. Ele pediu que Araújo explicasse as acusações feitas e citou investigações que envolvem a família do presidente Bolsonaro.

"Vi claramente em vários países sul-americanos como o Brasil era considerado um país que exportou corrupção. Vi isso no Peru, na Colômbia. Inclusive durante minha atividade anterior no departamento de assuntos interamericanos do Itamaraty", declarou o ministro, em resposta.

Ao final da audiência, em fala a jornalistas, Araújo classificou-a como "excelente" e disse que o espaço permitiu explicar todo o contexto da visita de Pompeo. Na comissão, alguns senadores da oposição continuaram a questionar o cunho eleitoral da viagem do secretário de Estado.

Os questionamentos não se limitaram ao assunto, e incluíram pedidos de explicação de senadoras quanto à diferença da quantidade de homens e mulheres em cargos no topo da diplomacia brasileira. Nessa semana, havia apenas duas mulheres entre os 32 indicados analisados pelo Senado.

O ministro acrescentou hoje que três acordos com os Estados Unidos na área regulatória deverão ser concluídos em breve.

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