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"Voto eletrônico evitou muita fraude", diz Lira, nome do Planalto na Câmara

Arthur Lira (PP-AL) critica o que chama de gestão "voltada para o eu" de Rodrigo Maia, e afirmou confiar nas urnas eletrônicas - REUTERS/Bruno Kelly
Arthur Lira (PP-AL) critica o que chama de gestão "voltada para o eu" de Rodrigo Maia, e afirmou confiar nas urnas eletrônicas Imagem: REUTERS/Bruno Kelly

Tales Faria e Kelli Kadanus

Do UOL, em Brasília, e colaboração para o UOL, em Brasília

25/01/2021 04h02

Candidato à presidência da Câmara apoiado pelo Palácio do Planalto, o deputado Arthur Lira (PP-AL) criticou o atual presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e defendeu uma gestão independente caso seja eleito para o cargo. Em entrevista ao UOL, ele ainda defendeu o voto eletrônico, ao contrário do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que pediu voto impresso nas eleições de 2022.

O UOL enviou as mesmas perguntas aos dois principais candidatos a presidente da Câmara. Além de Lira, o deputado Baleia Rossi (MDB-SP) também respondeu aos questionamentos.

Para Lira, Maia "só emite a opinião dele e cala as vozes dos demais" no comando da Casa. "O próximo presidente da Casa não deve ser nem líder do governo nem da oposição. Precisa, sim, ser da Câmara dos Deputados, preservando a independência da instituição e a harmonia entre os parlamentares e outros poderes", defendeu.

UOL - O ministro Paulo Guedes e o presidente Bolsonaro têm tido frequentes atritos com o atual presidente da Câmara. De quem é a culpa?

Arthur Lira: A Câmara é composta por 513 deputados e deputadas, mas, nos últimos tempos, só reflete a opinião de um parlamentar. O atual presidente da Casa só emite a opinião dele e cala as vozes dos demais. Uma gestão voltada para o "eu" e seu projeto de poder, que se estendeu na busca pela perpetuação na cadeira e, agora, no seu candidato. Eu acredito em diálogo, em harmonia, em construir pontes e fazer acordos com a palavra dada e cumprida.

O presidente da Câmara tem que agir como magistrado, com equilíbrio, com imparcialidade. O papel é estar ao centro do plenário, olhando para os dois lados e conduzindo com absoluta isenção os trabalhos legislativos.

Devemos representar o "nós", o conjunto dos parlamentares. Não cabe fazer oposição ao país. O presidente Rodrigo Maia alterou o que se espera de um presidente da Câmara.

A nossa candidatura representa uma inversão total de procedimentos. Passaremos de uma presidência centralizadora para uma coletiva, baseada na vontade do conjunto, da expressão da maioria dos deputados e deputadas, que são os representantes da população.

Todos os candidatos falam em independência em relação ao Planalto. Mas e quanto aos momentos de atrito, como pretende reagir, objetivamente?

A independência entrou como palavra de ocasião. Para mim, independência, de fato, é quando a Câmara tem a liberdade para discutir qualquer assunto. Também se traduz quando damos voz a todos. Ela deveria expressar, ainda, o desejo da população, na proporcionalidade dos partidos que estão ali. Independência é dar transparência para o que se vai discutir e não esperar pela surpresa do dia. É entregar a pauta para uma decisão conjunta, com as lideranças da Câmara, e levar os temas para o plenário, que é soberano.

Hoje estamos amarrados, sem voz ativa dos parlamentares, as lideranças sem contato com a presidência da Casa, em uma pauta ditada por apenas um. Quero representar o pensamento mediano, da maioria dos deputados. Vou representar um dos Poderes que mais espelha a democracia, por sua composição, e agirei de forma correspondente.

O presidente comentou após a invasão ao Capitólio (em Washington, EUA) que, no Brasil, pode ser pior. Qual sua opinião sobre essa declaração?

A invasão do prédio do Poder Legislativo americano foi lamentável. A independência dos Poderes e o funcionamento das instituições devem ser sempre preservados. Esse equilíbrio é muito importante para a democracia.

Todo ato de violência, como o que foi praticado nos Estados Unidos, deve ser punido com rigor. Nós defendemos a democracia e a convivência harmônica e respeitosa entre os Poderes, para o bem do país.

O Brasil é um país pacífico, eu não acredito em rebelião em 2021, nem 22 e nem 23. Por mais contrariedade que tivemos nas últimas eleições, soubemos respeitar o resultado das urnas. O papel do Legislativo sempre será a busca por preservar a democracia.

Qual sua opinião sobre a adoção do voto impresso já em 2022, como insiste o presidente?

Eu confio no sistema atual eletrônico e acho que o Brasil é exemplo. O voto eletrônico evitou muita fraude. Temos que avaliar que versões estão sendo postas e porque o processo está sendo contestado.

Existem algumas iniciativas já em tramitação na Câmara e eu sempre vou respeitar o que está sendo discutido na Casa. Agora, para amadurecer a discussão e analisar outras possibilidades, a Justiça Eleitoral poderia fazer um projeto-piloto, em um estado pequeno, por exemplo, ou uma cidade. O voto eletrônico começou assim, por etapas. Talvez isso ajudasse a entender os benefícios ou não desse processo.

O presidente Bolsonaro não tinha uma base sólida no Congresso até se entender com o Centrão. Acredita que a relação do governo com o Centrão é saudável/boa para o país?

Os partidos de centro, onde me alinho, sempre estão dispostos a construir pontes entre projetos e pessoas, independente de bandeira dos governos, e a avançar no desenvolvimento do país. Os projetos estruturantes do passado e os atuais precisam ultrapassar mandatos e vaidades.

O centro nunca se absteve de discutir e votar nenhuma pauta, das mais fáceis às mais espinhosas e já esteve com diversos presidentes, governadores e prefeitos, apoiando e criticando. No momento, participa do governo, como também participou com Lula, Dilma e Temer, além de um papel importante na Constituinte.

Nós não apostamos na paralisia do país, pelo contrário, buscamos sempre uma pauta comum que beneficie a população brasileira. A Câmara precisa voltar a ter um papel democrático, altivo, independente e trazer os temas para destravar o país.

Da forma que se comportou em 2016, no processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT), o Centrão pode ser confiável na articulação política?

Desde a Constituinte, com o objetivo de conciliar ideias para o Brasil, o Centrão mantém e continuará a relacionar-se com o conjunto de parlamentares e buscar a harmonia com os outros Poderes. O que se provou na formulação na Constituição, o centro mostra, na prática, o trabalho que estamos fazendo pelo bem do país.

Acima das diferenças, em um ambiente muitas vezes conturbado, o próximo presidente da Casa não deve ser nem líder do governo nem da oposição. Precisa, sim, ser da Câmara dos Deputados, preservando a independência da instituição e a harmonia entre os parlamentares e outros poderes. Dessa forma, a articulação política sempre esteve presente nos partidos de centro e presente nos últimos governos. O nosso compromisso é com o país, com o diálogo e com a defesa da democracia.

Qual a chance de o Congresso analisar abertura de impeachment de Bolsonaro?

Não é assunto para um candidato à presidência da Câmara.

Esse é um tema de responsabilidade do presidente Rodrigo Maia, e não quero usurpar nem um dia do mandato dele. Recebeu dezenas de pedidos e não deu andamento a nenhum deles.

Caso eu seja eleito, o compromisso é tratar com independência e isenção qualquer assunto, levando sempre a decisão para o conjunto dos parlamentares da Casa.

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