Relação verde e ameaçada

Bolsonaro festejou, mas acordo com a Europa está em xeque devido à crise na Amazônia e à retórica inflamada

Gabriel Sabóia e Guilherme Mazieiro Do UOL, no Rio e em Brasília
AP

Festejado há 45 dias pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) está verde e pode não amadurecer.

Na Europa, o aumento do desmatamento na Amazônia e a postura do governo brasileiro ao lidar com a questão geram não só desconforto, mas reações negativas

O ministro francês das relações exteriores, Jean-Yves Le Drian, rompeu com a tradicional discrição diplomática e ironizou o presidente brasileiro no início do mês:

"Ao que parece, houve uma emergência capilar. Essa é uma preocupação estranha para mim", disse por Bolsonaro ter cancelado um encontro e usar o horário para cortar o cabelo.

No último fim de semana, o governo alemão anunciou a suspensão de repasses de cerca de R$ 150 milhões para iniciativas de proteção ambiental. E já estuda retirar seus aportes ao Fundo Amazônia - que trouxe R$ 3,4 bilhões para o Brasil.

"Pode fazer bom uso dessa grana. O Brasil não precisa disso", reagiu Bolsonaro, que classifica as notícias sobre desmatamento de "sensacionalistas".

Ao fechar os olhos para o fogo que castiga a Amazônia e incendiar o discurso, Bolsonaro poderá acabar queimando a largada e ter comemorado um acordo que corre o risco de virar cinzas.

Isso porque o tratado ainda precisa ser aprovado pelos congressos dos países do Mercosul e da Europa - cada vez mais crítica e criticada por Bolsonaro.

Bolsonaro está cavando a própria cova desta forma, cultivando a antipatia internacional gratuita e atingindo interesses do Brasil que dependem da boa vontade da França e da Alemanha

Rubens Ricupero

Rubens Ricupero, Ex-embaixador do Brasil em Washington e ministro do meio ambiente no governo Itamar (à época no então PMDB), ontem, ao UOL

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Acordo celebrado...

Há menos de dois meses, Bolsonaro foi ao Twitter comemorar o acordo comercial entre o Mercosul, bloco do qual o Brasil faz parte, e a União Europeia.

"Mercosul e UE representam 1/4 da economia mundial, e agora os produtores brasileiros terão acesso a esse enorme mercado. Parabenizo também os Ministros Paulo Guedes e Tereza Cristina, bem como as equipes de seus ministérios, pelo empenho neste objetivo. Grande dia", escreveu.

Discutido há duas décadas, o acordo prevê zerar as tarifas de importação sobre cerca de 90% do comércio bilateral em 15 anos.

A projeção do governo brasileiro é de que o PIB (Produto Interno Bruto) nacional cresça em até R$ 480 bilhões nesse período - um acréscimo equivalente a 7% do que foi produzido no país ano passado.

JEAN-FRANCOIS MONIER / AFP JEAN-FRANCOIS MONIER / AFP
Jacques Witt/Pool/AFP Jacques Witt/Pool/AFP

...não é acordo finalizado

Apesar de ter avançado, o acordo entre Mercosul e União Europeia ainda precisa de aprovações para entrar em vigor.

"Ainda depende dos parlamentos europeus. O governo francês, por exemplo, sempre deixou claro que ficaria de olho na política ambiental dos países do Mercosul", disse ao UOL o professor de Relações Internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Paulo Velasco.

Ele explica que o acordo precisará também ser aprovado pelos congressos dos países do Mercosul e pelo Parlamento da União Europeia- que já sofre a pressão de setores como agricultores e ecologistas.

Entre os 751 deputados no Parlamento Europeu, mais de um quinto são da Alemanha (96) e da França (74) - dois dos países que intensificam críticas à política ambiental brasileira.

Na França, produtores rurais afirmam que o acordo com o Mercosul é injusto, pois levará para as prateleiras de lá itens produzidos com mais agrotóxicos, importados de países que têm leis trabalhistas, sanitárias e ambientais mais frouxas dos que as europeias.

Na foto acima, agricultores faziam protesto em julho contra o acordo. "Mercosur, merda na certa", dizia a faixa.

Ao mesmo tempo, na Alemanha, membros do Partido Verde, que já formam uma das principais bancadas do país, ameaçam bloquear o avanço do tratado, tendo o crescimento das derrubadas na Amazônia como principal argumento.

Reproduçao / Facebook Reproduçao / Facebook

Corte desajustado

Diante do cenário desafiador, em vez de aproximação, o que se vê do lado brasileiro é uma retórica agressiva.

"Dois chefes de Estado, da França e da Alemanha, a maneira como começaram a conversar conosco, logicamente não é a maneira como eu esperava, e nós mostramos para eles que o Brasil mudou", afirmou Bolsonaro, em tom exaltado, na transmissão semanal de vídeo que faz para redes sociais.

"O Macron [presidente da França] quer conversar comigo ao lado do índio Raoni. Eu perguntei: quem é Raoni?", afirmou.

O presidente brasileiro defende que os europeus não cumprem acordos ambientais exigidos de outros países e diz que é uma estratégia: exigir proteção ambiental e falar em riscos de aquecimento global seria uma maneira de impedir que o Brasil expanda sua produção agrícola e mineral.

Para tentar diminuir a temperatura do debate, a França enviou ao Brasil seu ministro de Relações Exteriores, Le Drian, para se reunir com Bolsonaro.

O presidente brasileiro cancelou o encontro de última hora ao saber que o diplomata também se reuniria com ONGs no Brasil.

"O que ele veio tratar com ONG aqui? Quando fala em ONG, já nasce um alerta na cabeça de quem é que tem o mínimo de juízo", explicou Bolsonaro.

A embaixada francesa reagiu no Twitter:

"A França também está presente no Brasil através de mil empresas, 500 mil empregos e cerca de 30 bilhões de investimentos diretos".

A Amazônia e o mundo

Criando problemas

E se é verdade que o acordo com o Mercosul é também de interesse para a União Europeia, que cobiça acesso preferencial a um mercado consumidor de mais de 260 milhões de pessoas, também é certo que a postura de Bolsonaro cria empecilhos.

As declarações e atitudes do Bolsonaro podem compor um artifício útil para atender interesses dos produtores agrícolas do país, que têm medo do acordo e nunca foram favoráveis"
Paulo Velasco, da Uerj.

Ricupero acrescenta que as declarações de Bolsonaro fazem parte de um "personagem patriota" criado para agradar alguns setores da sociedade.

"Ele faz isso para reforçar a imagem do nacionalista defensor da soberania. Os militares gostam dessa coisa de defender a Amazônia, de um chefe de Estado que defende as nossas matas de supostos interesses internacionais sinistros".

E, ele alerta, esse tom dificultará as negociações multilaterais e é inédito na história da diplomacia brasileira.

"O que vejo é uma multiplicação de atos que vai provocar uma multiplicidade de reações negativas. Não se trata de comércio, apenas", diz Ricupero.

Kevin Lamarque/Reuters

América grande de novo

Há ainda outro fator na equação Brasil e Mercosul a se levar em conta: os Estados Unidos.

Dois dias depois de cancelar encontro com chanceler da França, Bolsonaro recebeu o secretário de Comércio dos EUA, Wilbur L. Ross.

Após o encontro, Bolsonaro passou a falar que há "armadilhas" no acordo entre Mercosul e União Europeia.

É fácil rastrear a origem do argumento: os norte-americanos não gostam do acordo de livre comércio com a Europa e indicam que ele poderá ser um entrave para um acordo similar com os Estados Unidos.

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