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Vacina da gripe pode deflagrar transtorno? Veja a opinião de médicos

No Brasil, há ao menos quatro casos de pessoas que desenvolveram narcolepsia depois de tomar a vacina contra o H1N1 durante a pandemia, no entanto a associação com o produto nunca foi confirmada - Folhapress
No Brasil, há ao menos quatro casos de pessoas que desenvolveram narcolepsia depois de tomar a vacina contra o H1N1 durante a pandemia, no entanto a associação com o produto nunca foi confirmada Imagem: Folhapress

Juliane Silveira

Do UOL, em São Paulo

18/03/2013 06h00

Um novo estudo publicado no “British Medical Journal” – uma das principais revistas médicas do mundo – retoma a ideia de que a vacina contra a gripe A (H1N1) pode ter desencadeado narcolepsia, um transtorno do sono, em crianças durante a pandemia de 2009 e 2010. No Brasil, há ao menos quatro casos suspeitos, mas a associação com o produto não foi confirmada.

A narcolepsia é caracterizada por sono excessivo durante o dia, quando a pessoa sente uma vontade de dormir irresistível, sem se importar com o que está fazendo. O problema pode vir acompanhado de cataplexia, uma fraqueza muscular que ocorre em momentos de emoção. É um distúrbio raro, que atinge 0,08% da população e surge, em geral, na adolescência ou em mulheres na pós-menopausa. A doença não tem cura e é tratada com remédios, terapia comportamental e higiene do sono (que ensina a pessoa a controlar os cochilos do dia).
 
No trabalho realizado na Inglaterra com 245 pessoas de 4 a 18 anos, os pesquisadores constataram que entre as crianças vacinadas a incidência de narcolepsia foi 14 vezes maior.  O problema foi mais frequente em quem tomou a vacina Pandemrix, fabricada pelo laboratório GlaxoSmithKline (GSK) e amplamente usada em 2009 e 2010, durante a pandemia da gripe A (H1N1). Neste caso, a incidência foi 16 vezes maior, segundo a pesquisa.
 
Levantamentos realizados na Suécia, Finlândia, França e Irlanda mostraram que 800 jovens desenvolveram o problema depois de tomar a vacina da GSK entre 2009 e 2010, o que levou a Agência Europeia de Medicamentos a restringir desde 2011 o uso da vacina em pessoas com menos de 20 anos.
 
Brasil
 
O Ministério da Saúde recebeu em 2010 duas notificações de casos de narcolepsia, vindas de Minas Gerais, mas a associação com a vacina nunca foi confirmada. O neurologista Fernando Morgadinho, coordenador do Ambulatório de Sonolência Diurna Excessiva do Instituto do Sono, vinculado à Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), sabe de outros dois. “Um ocorreu em Belo Horizonte e outro no Nordeste, mas não temos comprovação. Imagino que haja mais casos, mas o Brasil não fez busca ativa, fica difícil saber num país tão grande”, diz.
 
A vacina da GSK foi usada aqui em 2010, segundo o governo. A partir de 2011, o Ministério da Saúde deixou de distribuir a vacina dessa marca no país.
 
A professora de inglês Joseli Reis, 42, acredita que sua filha de seis anos tenha desenvolvido narcolepsia depois de ter sido vacinada em 2010. Ela tinha quatro anos  e começou a manifestar os sintomas seis meses depois de receber a vacina. “Ela só acordava para comer e ir ao banheiro – às vezes nem isso, fazia xixi na cama. Ficamos atordoados com essa mudança de comportamento”, conta. O diagnóstico só foi feito seis meses mais tarde, depois de a menina passar por diversos especialistas em Campinas e São Paulo. “O neurologista que a acompanha diz que é cedo para relacionar o problema com a vacina, que se deve esperar mais estudos. Mas eu acho que tem relação”, afirma.
 
Causa e efeito
 
Há diversas teorias sobre a causa da narcolepsia, mas a mais aceita é a de que a doença seja autoimune e apareça quando o próprio organismo ataca as células de uma região do cérebro chamada de hipotálamo. É nessa região que se produz a hipocretina, substância responsável por manter o estado de vigília. Na falta da substância, fica muito difícil para a pessoa se manter acordada.
 
“Essa autoagressão ocorre em quem tem predisposição genética e é exposto a algum agente que modifica o sistema imune e o redireciona para ‘atacar’ a região”, explica Morgadinho. É nesse ponto que o vírus H1N1 atua. Sabe-se que as cepas dos vírus influenza têm  predisposição para atacar o hipotálamo. “Não importa se é o vírus vivo, parte dele ou o vírus morto”, acrescenta o neurologista.
 
Após a grande pandemia de influenza das décadas de 1920 e 1930, por exemplo, os casos de problemas neurológicos relacionados à sonolência cresceram muito. “Todas essas informações mostram que não é coincidência que a vacina ataque essa região, seja por ação direta, seja por ação imunológica”, diz Morgadinho.
 
O neurologista norte-americano Emannuel Mignot publicou diversos estudos sobre a relação do vírus H1N1 e a manifestação de narcolepsia em crianças, é um dos maiores pesquisadores de narcolepsia do mundo e professor da Universidade de Stanford (EUA). Ao UOL, explicou que a vacina Pandemrix, da GSK, desencadeou mais casos porque os adjuvantes (substâncias usadas no produto para aumentar a resposta imunológica) atuam como catalizadores desse mecanismo. “Por isso, a combinação do H1N1 com essas substâncias fazem com que o sistema imune tenha uma resposta ainda mais excessiva”, disse.
 
Mas Mignot cogita, ainda, que o próprio vírus pode desencadear o problema, a exemplo do que ocorreu na pandemia do século passado. “Pensando dessa forma, a vacina poderia atuar até como protetora contra a gripe A, que precipitaria a narcolepsia”, diz.  Ele publicou um estudo em 2011, baseado em 900 casos de narcolepsia diagnosticados em Pequim , na China, de 1988 a 2011. Durante a pandemia da gripe A, o número de casos triplicou, mas apenas 6% das pessoas que desenvolveram narcolepsia haviam sido vacinadas. “Isso mostra que receber a vacina com fórmula diferente, sem os adjuvantes em questão, poderia proteger quem tem predisposição genética”, acrescenta.
 
Custo-benefício
 
Ainda que tenham surgido casos de narcolepsia em crianças vacinadas contra o H1N1, os benefícios das vacinas contra gripe superam os riscos, de acordo com todos os especialistas ouvidos pelo UOL. “É uma vacina bastante segura, com taxas baixíssimas de eventos adversos”, afirma o infectologista pediátrico Milton Lapchik, chefe do Setor de Controle de Infecções do Hospital Infantil Sabará. Ela é contraindicada, no entanto, para quem sofre de alergia ao ovo.
 
O Ministério da Saúde lança no dia 15 de abril a 15ª Campanha de Vacinação contra a Gripe. Neste ano, será usada uma vacina trivalente, com fragmentos de três vírus diferentes: influenza A (H1N1), influenza A (H3N2) e influenza B, conforme determinação da Organização Mundial da Saúde, que avalia quais são os vírus mais presentes no hemisfério Sul para indicar a fórmula que será usada por aqui.
 
Os grupos prioritários para a imunização serão crianças de seis meses a dois anos, gestantes e mulheres que deram à luz há menos de 45 dias, profissionais da saúde, indígenas, idosos, pessoas com doenças crônicas, obesos e transplantados.
 
“Mesmo com a Pandermrix, o risco de a criança manifestar narcolepsia é baixo – de 1 para 50 mil. Então é uma questão de risco-benefício. Segundo a OMS, de 250 mil a 500 mil pessoas morrem de gripe todos os anos no mundo”, argumenta Emmanuel Mignot a favor da vacina contra a gripe.
 

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