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Remédios para deficit de atenção podem 'normalizar' o cérebro de crianças?

Pesquisa recente que sugere que remédios para tratar deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) podem "normalizar" o cérebro de crianças com o passar do tempo receberam críticas por não trazer muitas evidências - Elizabeth D. Herman/The New York Times
Pesquisa recente que sugere que remédios para tratar deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) podem "normalizar" o cérebro de crianças com o passar do tempo receberam críticas por não trazer muitas evidências Imagem: Elizabeth D. Herman/The New York Times

Katherine Ellison

Do New York Times

06/02/2015 06h00

O Dr. Mark Bertin não prescreve remédios para o transtorno do deficit de atenção com hiperatividade (TDAH) a torto e a direito.

O pediatra do desenvolvimento de Pleasantville, em Nova York, não recebe propagandistas de remédio no consultório e diz que nem sempre receita remédios para crianças diagnosticadas com transtorno do deficit de atenção com hiperatividade. Contudo, Bertin mudou há pouco tempo a maneira pela qual fala sobre medicamentos, oferecendo aos pais um poderoso argumento. Segundo ele, pesquisa recente sugere que a medicação pode "normalizar" o cérebro da criança ao longo do tempo, refazendo as conexões neurais para que a criança se sinta mais concentrada e no controle, muito tempo depois que o último comprimido foi ingerido.

"Pode haver um benefício neurológico bem profundo", ele declarou durante entrevista.

Um número crescente de médicos que trata os estimados 6,4 milhões de crianças norte-americanas diagnosticadas com TDAH está ouvindo que estimulantes não apenas ajudam a tratar o distúrbio como também podem fazer bem ao cérebro dos pacientes. Em entrevista no ano passado para o Psych Congress Network, site de notícias para profissionais da saúde mental, o Dr. Timothy Wilens, chefe de Psiquiatria Infantil e Adolescente no Hospital Geral de Massachusetts, disse que "nós temos dados suficientes para afirmar que eles são neuroprotetores". Segundo ele, as pílulas ajudam a "normalizar" a função e a estrutura do cérebro de crianças com TDAH para que, "ao longo dos anos, elas se pareçam mais com crianças sem TDAH".

De longe, a medicação já é o tratamento mais comum para TDAH, com quase quatro milhões de crianças norte-americanas tomando comprimidos – em geral, estimulantes, tais como anfetaminas e metilfenidato. Porém, a decisão pode ser angustiante para pais preocupados com os efeitos colaterais a curto e longo prazo. Se a pílula puder mesmo produzir benefícios duradouros, mais pais podem ser incentivados a dar a medicação mais cedo aos filhos, continuando por mais tempo.

Para os principais especialistas em TDAH, no entanto, o veredito ainda não foi dado.

"Às vezes, desejar alguma coisa nos dá a esperança de que os benefícios relativos impressionantes a curto prazo da medicação em relação a outros tratamentos continuarão além da infância, mas eu ainda não vi isso", disse James Swanson, diretor do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade da Califórnia, campus de Irvine. Coautor de famoso estudo subsidiado pelo governo federal, o Tratamento Multimodal do Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade, Swanson disse que a pesquisa de acompanhamento constatou melhora geral, mas não grandes benefícios a longo prazo depois de três anos, no caso de crianças tratadas com medicação comparadas às que não tomavam remédios. Como o estudo observava, um possível motivo era o de que muitas crianças se recusavam a continuar tomando pílulas depois de cerca de um ano, fato bem conhecido pela maioria dos pais desses meninos e meninas.

Pesquisa demonstrou que, em média, o cérebro de pessoas com TDAH tem aparência e funciona de forma diferente de quem não tem o distúrbio, principalmente no que tange ao processamento de dois neurotransmissores importantes: dopamina e norepinefrina. Para a maioria das pessoas com TDAH, estimulantes podem melhorar temporariamente a concentração, motivação e autocontrole, elevando a disponibilidade desses mensageiros químicos. A questão é se tais efeitos conseguem durar quando deixaram a corrente sanguínea.

Ao defender a "normalização", Wilens citou uma grande análise crítica publicada em "Journal of Clinical Psychiatry", em 2013, que avaliou 29 estudos do cérebro. Embora tais pesquisas tivessem métodos e metas diferentes, os autores afirmaram que, em conjunto, eles sugeriam que os estimulantes "estão associados à atenuação de anormalidades na estrutura, função e bioquímica cerebral em pacientes com TDAH".

Todavia, outros especialistas em TDAH questionam essa conclusão. O Dr. F. Xavier Castellanos, diretor de pesquisa do Centro de Estudos Infantis da Universidade de Nova York, qualificou de "exageradas" as afirmativas segundo as quais estimulantes são neuroprotetores. Para ele, "a melhor inferência é a de que não existem provas de danos provocados pela medicação; a normalização é uma possibilidade, mas está longe de ser demonstrada".

O TDAH é um diagnóstico excepcionalmente controverso, e a polêmica em particular se concentra em pesquisadores, incluindo o próprio Wilens e alguns dos autores do estudo de 2013, que receberam patrocínio financeiro de laboratórios farmacêuticos. Por e-mail, Wilens disse não ter recebido "nenhum ganho pessoal" do setor farmacêutico desde 2009.

Como vários especialistas observaram, um grande obstáculo para determinar os impactos em longo prazo do remédio para TDAH é que um estudo modelo exigiria que os pesquisadores dividissem crianças ao acaso em um grupo que recebe a medicação e outro que não. Tal prática tem sido considerada antiética em função da crença disseminada de que a medicação pode ajudar crianças com problemas, pelo menos a curto prazo.

E outra pesquisa fez surgir novas preocupações. Estudo revisado por especialistas em 2013, de coautoria de Swanson, sugeriu que os estimulantes podem modificar o cérebro com o tempo, levando a enfraquecer a resposta em longo prazo à medicação e até mesmo aumentando os sintomas quando as pessoas não tomam mais remédios.

O Dr. Peter Jensen, ex-diretor assistente de pesquisa infantil e adolescente do Instituto Nacional de Saúde Mental, alertou os pais a não tentar forçar os filhos com TDAH a tomar remédios quando eles não quiserem, acrescentando que "a maioria das crianças não quer".

Agora chefe do REACH Institute, organização sem fins lucrativos de âmbito nacional voltada à saúde mental das crianças, Jensen entrevistou cem pais de filhos com mais de 20 anos que foram diagnosticados com TDAH, querendo saber o que fizera mais diferença.

"Oitenta por cento responderam 'Ame seu filho. Ajude-o a se defender sozinho e ache um médico que trabalhe ao seu lado nos bons e maus momentos, quer você o medique ou não.' Somente uma minoria desses pais mencionaram a medicação", contou Jensen.

 

Katherine Ellison foi correspondente estrangeira vencedora do prêmio Pulitzer e é coautora de sete livros, incluindo "What Everyone Needs to Know about ADHD" (o que todos precisam saber sobre a TDAH, em tradução livre, Oxford University Press), no prelo, escrito em parceria com Stephen Hinshaw, subdiretor de Psicologia, do departamento de psiquiatria da Universidade da Califórnia, campus de San Francisco.

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