No Nordeste, famílias adiam planos de gravidez por medo do zika vírus

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

  • Arquivo pessoal

    Erik Maia, 35, e a professora Luanda Rocha, 33, adiaram os planos de ter um filho pelo medo do zika vírus

    Erik Maia, 35, e a professora Luanda Rocha, 33, adiaram os planos de ter um filho pelo medo do zika vírus

Casados desde 30 de agosto de 2014, o jornalista Erik Maia, 35, e a professora Luanda Rocha, 33, moram em Maceió e decidiram, nesse segundo semestre, começar as tentativas para que ela engravidasse. Mas o sonho acabou adiado por conta do surto de microcefalia relacionado ao zika vírus.

Até o momento foram 2.975 casos suspeitos notificados no país –mais de 80% deles no Nordeste. O medo dos pais se tornou latente diante do crescimento vertiginoso no número de casos.

"Com um ano de casado, a gente conversou e decidiu liberar para que as coisas acontecessem: ela parou de tomar anticoncepcional, e eu, de usar preservativo. Ficamos de agosto para cá expostos, mas não aconteceu porque, além de tudo, ela tem mioma –então tem que ser no dia certo, com ovário certo. Foi aí que surgiu essa história, e os casos começaram a se amplificar, amplificar até aparecerem aqui, em Alagoas", conto Erik.

Luanda diz que teve medo de seguir com o plano. "O verão sempre vem acompanhado do mosquito, aí eu comecei a ler um milhão de coisas, ficar apreensiva, e cheguei em casa e disse: 'não vou engravidar agora'. Isso vale pelo menos até entender o que está acontecendo. A gente não sabe ainda bem o período que tem risco, fala-se que é no começo da gravidez, mas ninguém sabe ao certo. E é uma doença muito séria", disse, contando que espera retomar o projeto em 2016 –se houver mais informações.

O medo também afetou as mulheres que se planejavam para fazer tratamento de fertilidade para tentar ter filho. "Eu já vinha tentando engravidar com meu marido há um tempo, mas como não estava conseguindo, ia iniciar tratamento, mas acabou que agora desisti. Foi algo triste, ficamos decepcionados, mas não vimos outra solução", disse uma mulher, de 32 anos, que pediu anonimato.

Orientações

A falta de informações sobre os efeitos do zika vírus na gravidez desencadearam uma série de alertas de médicos sobre os risco de gravidez. A Sociedade Brasileira de Dengue e Arbovirose aconselha as mulheres a evitarem a gravidez no país até que existam informações detalhadas sobre a extensão e problemas decorrentes do zika vírus nos fetos. 

"A zika na pessoa que não está grávida é uma doença que parece até mais benigna que a dengue, que a chikungunya. O grande problema é a transmissão das mães para crianças. Não tenho medo de dizer que o maior problema que temos é mulheres em idade fértil se infectarem. Elas devem ser extremamente alertadas", disse Artur Timerman, presidente da entidade.

O médico Ricardo Pordeus atua no PSF (Programa de Saúde da Família) Santo Amaro, periferia do Recife, e conta que está orientando suas pacientes a evitarem a gravidez. "Dizemos que neste momento estamos vivendo uma epidemia de zika vírus e que enquanto não entendermos o processo a gravidez deve ser evitada", afirmou.

Apesar do alerta, ele conta que não há efeito prático. "A maioria diz que não está pensando em engravidar e aceita bem os argumentos, mas tem aparecido casos de gravidez na comunidade. A maioria das grávidas não faz planejamento, são acidentais", disse. 

 

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